YOGA & CONSCIÊNCIA

O livro YOGA & CONSCIÊNCIA foi a dissertação de mestrado que deu ao autor, Antônio Henriques, o grau de Mestre em Filosofia em 1982. Este trabalho tem por subtítulo: “O Problema da Consciência nos Yoga-Sutras de Patañjali”, por isto demonstra ser a obra de Patañjali uma filosofia-psicológica, de atualidade ímpar. Os “Yoga-Sutras” devem ter sido escritos no século III AC e constituem o que tradicionalmente é chamado de “Yoga Clássico”, por resumir em quatro livros, de poucas dezenas de sutras cada um, todas as idéias centrais da filosofia do Yoga. Henriques, em seu trabalho, não só explica o quase ininteligível em sua versão original, como consegue traçar paralelos com a ciência, a filosofia e a psicanálise contemporâneas, dando um sentido novo às idéias do Yoga Clássico. De outro lado, demonstra os vínculos dos “Yoga-Sutras” com a cultura autóctone da Índia Antiga, dos drávidas, em oposição a um Yoga posterior, de forte influência ariana. Assim, não só resgata a meditação e as posturas corporais como o cerne do Yoga, como elucida e mapeia os estados alterados de consciência que os praticantes visam atingir. Esta obra é o primeiro trabalho acadêmico sério e investigativo sobre filosofia indiana escrito por um brasileiro que, certamente, não fica a dever a outras, escritas por renomados especialistas internacionais.

LEIA UM TRECHO

Trecho do Livro “YOGA & CONSCIÊNCIA”

Apego à vida (Abhivesha) “Abhinivesha é o forte desejo de viver, que ‘se mantém por sua própria natureza’ (svarasaváhi= pelas próprias forças), e que domina (rúdhah) até mesmo os ‘sábios’ (vidushah = instruídos)”. (Yoga Sutra de Patãnjali – 11,9) Como já é lugar comum em filosofia, a única certeza da vida é a morte. O homem é um ser-para-morte. E todos nós temos medo de morrer. A morte assusta por dois lados: pelo desconhecido que ela representa em si, e pelo esvaziamento que ela produz na vida. A morte significa o ingresso no não-ser, tomando o ser como a atual circunstância do que somos e que nos cerca. Mas a morte assim também significa o abandono do ser, este rompimento com a existência. O instinto de sobrevivência é o mais poderoso, todos estamos apegados à vida, temos medo de não-ser. Mesmo a supressão dos pensamentos (vrittis) a que se propõe o Yoga, relaciona-se a tal medo. Nós estamos sempre pensando coisas pelo simples medo de deixar de ser, porque o ego é nada mais que a sensação de continuidade que existe em nosso fluxo mental, o eu pensante cartesiano deveria ser entendido de outra maneira. Se nós pensamos, o ato de pensar existe. No entanto, o eu existirá só se este ato de pensar for contínuo. Mas nós sabemos que o que a criança que nós fomos pensava, nada tem a ver com o que o adulto que hoje somos pensa, a não ser uma linha de continuidade ligando aqueles pensamentos a estes. Porém, entre um pensamento e outro existe um intervalo de silêncio. Este silêncio deve ser fixado e alargado, e ele é não-eu, descontinuidade, não-pensar, mas existe. Ou seja: “penso, logo, existo”, não como “aquilo que pensa” mas como processo pensante, “aquilo” não pensa. “Aquilo” (Tat) é o Si que brota quando os pensamentos (vrittis) estão suprimidos, quando o pensamento como ato cessa. E isto é morrer como ego sem deixar de existir. Por isso se pode falar de uma experiência da morte em vida. No ocidente fala-se que a experiência da morte em vida se dá na morte do outro e, principalmente, na morte do “irmão”. Porém, que são os outros para nós senão partes de nós? Em verdade, sempre choramos pela nossa própria morte, tomada aqui como rompimento com a dimensão do nosso ser, vinculado e dependente do próximo, recém-finado. Mas a experiência de morte em vida, de que trata o Yoga, é mais radical, não é apenas a perda de um pedaço, não é uma mutilação. Equivale realmente à perda de um todo, em que uma estrutura de ego se desfaz completamente. A iluminação equivale à morte, a palavra samádhi tem, a partir de sua raiz, também o significado de “morto”. O guru nasce da morte do discípulo, assim como também o discípulo nasceu da morte do homem profano. Entretanto, diz Pátañjali, que o apego à vida assola até os mais sábios, nem o guru escapa de vacilar diante da morte. Isto porque um ser realizado possui latentes todas as fontes de sofrimento (kleshas), seu ego não mais atua de modo dominante, por não estar mais no centro, mas ainda existe. E existirá enquanto houver um corpo humano vivo ocupando um certo lugar no mundo. Não é fácil nascer – e que é a morte senão um segundo nascimento? É preciso coragem para, voluntariamente, cortarmos o cordão umbilical com o mundo. E quando escrevemos isto, não estamos falando dos suicidas, porque quem se mata, assim o faz pelo mundo. O ego, a frustração, o desespero e a depressão profunda conduzem o suicida à morte, à loucura do crime, ao patológico de uma auto-agressão. Mas, paradoxalmente, o suicida é quem mais quer viver, e está apegado ao mundo. Cortar voluntariamente o cordão umbilical com o mundo é “entregar o espírito” e não o corpo, é marchar seguro ao encontro do novo, e não ceder ao desespero do velho. O Yoga não é uma filosofia niilista, apesar de o apego à vida ser nela tomado como algo a ser superado. Pensamos que toda a filosofia deveria ser uma preparação (não mórbida) para a morte. E que é saber morrer, senão viver no sentido mais pleno? Quem tiver amado a vida e encarado a existência com sabedoria, não terá medo da morte, porque a morte é a outra face da vida, e quem conhece e ama uma face intuirá a unidade de ambas, e não fugirá da totalidade. Quem se converte em luz, não terá jamais medo de mergulhar no escuro.

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7 Comments

  1. Felipe Lengert

    Olá Antonio, queria muito um exemplar deste livro, mas é muito difícil encontrá-lo. Será editado novamente?

  2. Quanto custa o livro Yôga & Consciência

  3. henriques

    Bom dia Alcindo,

    Meu livro “Yoga & Consciência” foi recentemente reeditado (em edição revisada) como e-book pela editora e livraria Amazon. Podes encontrá-lo no link:
    https://www.amazon.com.br/Yoga-Consci%C3%AAncia-filosofia-psicol%C3%B3gica-Yoga-Sutras-ebook/dp/B072LBHTJH
    As edições anteriores em papel estão esgotadas e estou atualmente sem editor para reeditá-lo em papel. Mas esta edição digital pode ser baixada e lida em kindles, computadores, notes, ipads e smartphones, e como possui navegação digital, fica fácil usá-lo como fonte de estudo e pesquisa. Abraço,
    Antonio Henriques

  4. hayana f santos

    Querendo esse livro também

  5. henriques

    Boa noite,

    Não sei se compreendi sua mensagem. Mas, se queres comprar o livro “Yoga & Consciência”, ele só está disponível como e-book, no site da Amazon Brasil. A edição em papel está esgotada. Se puder ajudar co m outra coisa, estou à disposição. Atenciosamente,
    Antonio Henriques

  6. Caro Prof. Antonio Renato Henriques, seu livro foi uma das melhores publicações já feitas no Brasil. É sintético, mas profundo ao mesmo tempo. Mostra com clareza todas as visões mais difíceis da tomada de consciência do verdadeiro Yoga. Parabéns, caro colega. Convido-o a visitar nosso ASHRAM em Quatro Barras, e ministrar um curso conosco. Grande abraço. OM NAMAH SHIVAYA

  7. henriques

    Obrigado pelas palavras gentis em relação ao meu livro “Yoga & Consciência”. Sobre ele aproveito para dizer que está saindo uma nova edição em papel, e estarei corrigindo erros que escaparam na versão e-book da Amazon, podendo, quem já tem o e-book, atualizá-lo free na nova versão. Gostaria de aceitar seu convite, mas antes de visitar seu Ashram gostaria de saber um pouco mais sobre ele, sobre a Ordem Vidya e sobre você. Daí conversaremos sobre o convite de ministrar um curso sobre filosofia Yoga. Abraço: paz!

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