VASCO PRADO

A obra coletiva VASCO PRADO, alusiva ao conhecido artista plástico gaúcho, é a edição nº 7 dos Cadernos Porto & Vírgula, publicados pela Prefeitura Municipal de Cultura de Porto Alegre, e teve como organizadores Ana Albani de Carvalho e Suzana Gastal. Na coletânea de textos, coube ao autor Antônio Henriques escrever sobre “Os Símbolos e os Signos” da obra de Vasco Prado. Cabe registrar que, dentre colaboradores como Gerd Bornhein, Mônica Zielinsky, e  Maria Lúcia Bastos Kern, curiosamente Evelyn Berg Ioshpe participa da publicação citando um outro artigo do Antônio Henriques sobre Vasco.

LEIA UM TRECHO

Símbolos e Signos na Escultura de Vasco Prado O cavalo é a figura animal mais presente na obra do artista.Quando um repórter lhe perguntou por que retratava tantos cavalos, respondeu Vasco: “porque gosto, acho bonito”. Explicou ele que de início, seguindo a tendência de toda a sua obra, principiou a desenhar cavalos usando o modelo de um guri que, sobre a sua montaria, passava a galope em frente à sua janela. No Rio Grande do Sul o cavalo participou da história, através de revoluções e guerras, e se fazia presente em muitas lides do campo: camperear, repontar vacas leiteiras, puxar carroça e bicas de água, ser meio de locomoção em viagens pequenas e grandes. O cavalo também se fazia presente em festas na campanha e em corridas de carreira, servia para trazer o médico e o padre, para fazer nascer, curar ou prestar os sacramentos últimos. A vida e a morte, e tudo o que se colocava entre uma e outra, não se fazia no pampa sem a participação de um cavalo. Daí ser tal animal a representação de uma extensão do homem, explícita na idéia de unidade indissolúvel entre montador e montaria, idéia que assustava os índios que nunca haviam visto semelhante “bicho”: o centauro. Na mitologia os centauros eram seres monstruosos que se alimentavam de carne crua e que tinham paixão por vinho e mulheres. O cavalo tomado como símbolo isolado tem significação semelhante, o vemos como representação dos instintos e dos desejos exaltados. Para Jung, um cavalo selvagem ou sem montaria aparece em sonhos quando a consciência perde o controle dos instintos. Um homem montado a cavalo representaria, portanto, a duplicidade humana, dividida entre o aspecto racional e os instintos animais.Nas esculturas de Vasco a nudez do cavaleiro montando em pelo acentua este aspecto sensual do contato da pele com o couro peludo do animal. O signo astrológico de Sagitarius acentua esta dualidade, porquanto o centauro nele aponta uma flecha para o alto, aludindo aos altos ideais humanos.Porém, o centauro da astrologia tem um arco retesado, prestes a lançar sua flecha, a liberar sua energia represada e tensa, como um macho à beira de um orgasmo. O cavalo representa a materialização de energias poderosas em intenso movimento, forças cegas oriundas do caos primigênio, como no mito em que cavalos saem do mar ferido pelo tridente de Netuno. Na mitologia greco-romana os cavalos ainda estavam associados ao deus Marte, portanto, também vinculados à guerra. A carta nº 7 do tarô – o Carro da Vitória – tem uma provável ligação com o mito dos cavalos alados, contado por Platão, pois nela as duas esfinges que puxam um carro podem ser também dois cavalos: um preto e outro branco, vida e morte, bem e o mal. No mito contado por Platão as almas são carros puxados por dois cavalos alados, um branco que tende a subir, e outro negro que tende a descer. Quando o cortejo de almas sai em procissão ascendendo ao Olimpo até os pés de Zeus, elas vão se corrompendo, o que faz com que os cavalos percam suas asas fazendo os veículos se precipitarem na terra. Ao cair, as almas que recém haviam alçado vôo do chão, adentram em corpos animais: porcos, cães e cabras. As almas que haviam ascendido mais, ao cair encarnam em corpos humanos, em mulheres as de vôo almas mais baixo ou as que haviam já encarnado em animais, e em homens as de vôo mais alto. Aquelas alma que quase haviam alcançado o Olimpo, que haviam portanto vislumbrado a sua luz, encarnam em homens superiores: santos, governantes e filósofos. Após encarnarem, inicia-se um processo de purificação e universalização da idéia de beleza e de amor. As almas primeiro descobrem a beleza e o amor em outros corpos materiais, depois percebem a beleza e o amor para além dos corpos, purificando-se. Assim os cavalos readquirem asas, elas de novo levantam vôo em direção ao Olimpo, de novo se corrompem e caem e encarnam, de novo se purificam, readquirem asas e levantam vôo e… Este processo dialético de ascensão e queda, corrupção e purificação, materialização e espiritualização, particularização e universalização, tem sua base no cavalo, representação da alma humana. Para Jung, o cavalo é uma representação da ânima, a alma feminina presente no interior do homem, a mãe em nós, a força do inconsciente.Em alguns sonhos aparece também representando o si-mesmo, o eu ideal, interior, o ideal de nós em nós. Encontramos ainda em muitas lendas a idéia do cavalo como aquele que previne o cavaleiro dos perigos, o que é “clarividente”. Talvez se origine daí a idéia de “boa sorte” associada às ferraduras. A imagem do cavaleiro também possui um sentido simbólico que ultrapassa sua representação visual: ser cavaleiro é ter sob domínio o cavalo, os instintos, é ser alguém superior, capaz de usar beneficamente as energias inferiores. Para ser cavaleiro um homem precisava desenvolver virtudes físicas, morais, intelectuais e espirituais. Nas ordens de cavalaria considerava-se cavaleiro aquele que possuía nobreza, integridade, coragem, mas era ao mesmo tempo gentil, e se dispunha a proteger os fracos, os pobres e as mulheres. Contos medievais falam dos cavaleiros verde, negro, branco e vermelho. O segundo seria simbolicamente aquele que carrega culpa e se penitência através do castigo, para converter-se em cavaleiro branco, o vencedor escolhido e iluminado. O Negrinho do Pastoreio, esculpido por Vasco sobre o seu cavalo, equivale ao cavaleiro negro, aquele que sofre punição, mas que através do sofrimento se converte em cavaleiro branco, o triunfante, forma que o artista escolheu para representá-lo em sua escultura. O cavalo, pela sua velocidade, representa ainda o movimento ou os ciclos da natureza e da vida. Os povos nômades o usavam para se deslocar, assim como todos os cavaleiros sem pouso, os errantes. Por isto o cavalo está associado aos povos não sedentários e agrícolas, aos estrangeiros, bárbaros e guerreiros. Assim retornamos às nossas tradições, pois se de um lado no pampa o gaúcho teimou em se fixar na terra e possuí-la, expulsando aqueles que pretendessem se apossar dela. De outro, tanger o gado é uma atividade móvel, feita em espaços vastos, diante dos quais a silhueta humana se dilui na grandiosidade da natureza. Nossa gente, através de sua história, demonstra possuir em si estes dois lados: o trabalhador apegado à terra, e o guerreiro capaz de vê-la a partir da velocidade do seu galope.

Relacionados

Tags

Compartilhe

Deixe aqui seu comentário

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com