Uma historinha Zen

            Este texto está sendo escrito a pedido de minha esposa e companheira, e irá tratar de uma historinha Zen, que diz da paz e do conhecimento. É assim:

            No início existe a santa paz da ignorância, em que as árvores são árvores, as montanhas são montanhas e o céu é céu, ou seja, cada coisa é o que é, sem complicações, teorias, crenças ou fantasias. Quando se adquire o conhecimento, perde-se a paz, e as coisas deixam de ser o que são. O céu vira um espaço-tempo curvo, negro, devido à expansão das galáxias ou ao buraco negro hipotético e hipergigantesco que seria o nosso universo. O sol se transforma numa estrela de quinta grandeza, amarela, que emite neutrinos, que existe num braço marginal da Via-Láctea, a 15 mil, anos-luz do plano médio e a 30 mil anos-luz do centro. As árvores e florestas passam a ser responsáveis pelo clima e o desmatamento, um problema ecológico que aponta para uma futura catástrofe mundial. E sem paz vivemos o stress, a raiva contida, o ódio que explode em violência incontida, a ansiedade, a insônia e a depressão. Mas não há como recuperar a paz perdida voltando à ignorância.

            O historiador Leandro Karnal expressa isto de outra maneira, dizendo que os jovens são corajosos e inconsequentes enquanto a maturidade traz covardia e prudência. Brinca que velhos saem de guarda-chuva enquanto os jovens acreditam que jamais irá chover ou que a chuva não os afetará. É uma outra maneira de dizer que o conhecimento traz inquietude, preocupações, e uma vida cheia de problemas a serem resolvidos.

            Mas a historinha Zen diz que há como recuperar a paz perdida, e não é voltando atrás, o que é impossível. Adquirido o conhecimento, não se pode esquecê-lo e apagá-lo, exceto talvez tendo um AVC ou mal de Alzheimer. Para o Zen a saída é continuar em frente, até alcançar a sabedoria. E com a sabedoria as árvores voltam a ser árvores, as montanhas tornam-se montanhas e o céu de novo vira céu.

            Isto lembra a pesquisa sobre leitura de imagem feita pela psicóloga americana Abigail Housen que, ao mostrar imagens de obras artísticas para milhares de pessoas, classificou os níveis de desenvolvimento estético em cinco:

  1. narrativo (subjetivo/narcisista): que é próprio das crianças pois, ao verem imagens, as associam a si próprias e passam a narrar uma história;
  2. construtivo: em que a pessoa passa a gostar ou não gostar disto ou daquilo, e a considerar arte ou não determinadas obras, sem conhecimento artístico, apenas com seu senso comum e preconceitos;
  3. classificatório: das pessoas que leram ou ouviram ou aprenderam algo, e que por isto passam a classificar: isto é Van Gogh, isto é surrealismo, etc;
  4. interpretativo: o nível daqueles que possuem um conhecimento profundo de arte, por serem artistas, ou críticos, ou professores de arte, portanto, detentores da capacidade de interpretar de modo um tanto pessoal, indo além do conhecimento livresco;
  5. re-creativo: o daqueles que tiveram todo uma vida dedicada à arte, por terem escrito livros, dirigido museus, defendido teorias e teses, etc. Mas, ao final da vida, estes, ao verem a reprodução de uma obra, reagem como as crianças: se emocionam, e contam histórias do que tal obra lhes lembra ou suscita, associando-a a si, como o nível I.

            Em outras palavras, a sabedoria é uma volta atrás, não à ignorância, mas à inocência perdida, é um retorno à simplicidade. Assim recuperamos a paz, e com ela podemos amar tudo e todos sem preconceitos.

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