TRANSECRISE

TRANSECRISE é o livro de juventude do autor, obra escrita dos 14 aos 19 anos, reunindo contos, poemas e outros textos difíceis de rotular. Nele sobressai a incrível imaginação do autor, feita de imagens que brotam de um inconsciente coletivo de mitos e símbolos, e que adquire sentido num desdobrar encadeado composto a partir de raciocínios delirantes. Sua escrita une imagens surrealistas e poéticas a idéias místicas e ideogramas mágicos, compondo um conjunto díspar, tanto no conteúdo quanto na forma. Expressa um subjetivismo atemporal, mas pode ser compreendido também a partir da época em que foi escrito – final dos anos 60 e início dos anos 70 – ou seja, a adolescência de uma geração que, alienada e amordaçada pela ditadura do Brasil de pós-64, fechada em si mesma, enlouquecia, ouvindo os ecos da rebelião da juventude em todo o mundo. É da época também o seu experimentalismo lingüístico, onde a gramática é virada do avesso, através de um discurso de uma linguagem de fluxo inconsciente, onde as palavras se associam até por sons, estruturando orações fora dos cânones de sintaxe, e permitindo o aparecimento de novos vocábulos, mas com significados naturais e espontâneos. Transecrise traz, como seu prefácio aponta, um jogo de comunicação e solidão, uma dualidade feita de sons e silêncios.

LEIA UM TRECHO

Conto do Livro “TRANSECRISE”

Reminiscências

Imaginar é não precisar corrigir depois, fazemos primeiro a experiência no mundo das imagens. Imagino um círculo de pedras delimitando o meu espaço. Não posso sair daí, é o meu círculo mágico, minha proteção. Ao mesmo tempo em que no centro estou protegido, rodo na periferia como um louco, é o meu vício, o meu círculo sem saída. Como é difícil viver em meio às pedras! Todo dia é este cotidiano de sol e areia, céu e escuro, dia e noite, lua e vento. Todo dia este dia espremida entre o ontem e o amanhã. E este agora sufoca, asfixia em pequenas doses: vicia. Esta falta de ar me entontece; esta sede me embriaga. Ah, que vontade de cair bêbado deste carrossel da vida! Ontem, meus dias foram noites de loucura, um grande festim em que brindava o prazer, o riso, o momento fugaz de um fogo fátuo. Hoje, minhas noites são como dias de insônia, em que me arde a consciência, e onde meus olhos em chamas cansaram de ver. Estou cego ao futuro; não quero ver, tocar, cheirar, sentir, nada mais além desta parede, além deste quebra-cabeça feito de segundos, anos-luz e elétrons. Quisera perder-me de vez, talvez assim alguém ou algum deus me encontrasse. Estou no deserto e perdido, mas não de todo. Sei que as miragens são miragens, sei da realidade das tempestades de areia e sei do sol a arder em meu cérebro. Meus pés caminham em círculos arrastando uma sombra. Mas um dia não mais deixarei pegadas, não mais carregarei comigo alguma sombra. Enquanto isto, só me resta o grito ou o silêncio, e dentre estes, prefiro a companhia do silêncio, é mais sutil, mais acolhedor, se espalha e dói melhor nos ouvidos. Às vezes, tenho a nítida impressão de que minha solidão se povoa. (Mas não quero impressões nem ajuntamentos!) E, além disso, os meus fantasmas, ou melhor, meus companheiros, são mais propriamente bichos que humanos; são olhos de coruja que à noite me fitam iluminando o meu rastro. São serpentes que me desenham ideogramas e mandalas na areia; são falcões que cruzam suas sombras com a minha; são meus pés, dois lagartos a se arrastarem pelas dunas. Outro dia tive a sensação que dormi (Mas não quero mais sensações!) e sonhei (Mas não quero mais sonhos!) com uma nuvem (Mas não quero mais nuvens! Ou melhor, quisera ser, desaparecer como nuvem.). Sonhei, ou pensei sonhar, com uma nuvem rosada, pairando ridícula no meio de um oceano limpo de céu. Até parecia uma cômica esperança se desculpando por persistir, apesar do céu, apesar do azul, apesar do vento. Não sei bem porquê, senti vontade de rir, e comecei a gargalhar até meu corpo estremecer completamente. E tal riso infernal, fruto de um infinito desespero, chegou à tal nuvem rósea e a destruiu aos poucos. Vi seus estertores roucos se perdendo pelo espaço. E meu riso, já completamente sem esperança, ecoou por toda a Terra. E brotou em meu coração um sorriso transparente, sem fundo, oco, infinito. E penso que acordei sem saber se era pesadelo ou sonho, sem saber se se pode andar sonhando, como um sonâmbulo, pelos desertos do paraíso. Paraíso e inferno, que realidade tão juntas dentro de mim! Outro dia, se é que o meu tempo ainda se conta em dias, ou é tão outro que já não conta… Outro dia, ajoelhei-me na areia e rezei. Foi algo muito estranho, rezei pra mim. Ergui ao céu meus braços e deixei-os cair sobre os joelhos e, batendo com os pés clamei: Oh Deus, por que vives em mim!? Por que não sou um pensamento inerte? Por que tudo pulsa em mim!? Por que não sou um pensamento inerte? Por que tudo pulsa e vibra em mim, mesmo quando calo e não caminho? Orei, não sei bem a que porta trancada. Disse tudo que minha língua ousou querer. E ouvi um silêncio surdo crescendo e aos poucos se enchendo de ruídos: um mar, um poço, um besouro, o silvo de uma serpente, o silêncio… Oh, Deus!… Certa vez, encontrei em meu caminho um altar, e sobre ele havia ainda quente o sangue de um sacrifício. Deitei ali, sobre ele, e vi meu coração pulsando ser arrancando do peito, vi o sacerdote ergue-lo à multidão, que após um grito ajoelhou-se e inclinou a cabeça. Vi um rio descer do céu e principiar um fogo sobre o altar. Neste fogo foi consumido meu corpo. Mas foi algo quase lindo: o incêndio crepitando sobre os erros da multidão, purificando-ª E meu espírito abrindo suas asas sobre o abismo. Desde então aprendi a cair de pé. Por isto, agora já não me canso, o cansaço é um adiar das esperanças. Hoje estou já frio como uma pedra, receptivo e frio como um altar de sacrifícios. Não sei bem se é este o dever, ou se a virtude marcha nesta direção. Só sei que aprendi a não mais esperar, a não parar, a não ter esperanças. Aprendi a estar além do bem e do mal, já que neste deserto as pombas e as serpentes andam sempre juntas, e em mim vivem juntos um lobo e uma ovelha. De outra feita pensei (Não sei se ainda penso, gostaria de não mais pensar.) que os cordeiros são próprios mesmo ao sacrifício, e que uma forma natural de sacrifica-los é deixa-los à mercê dos lobos. Por isto senti (E quisera não mais sentir.) meu lobo devorar minha ovelha. A devorava aos pedaços, sem dor, sem ruído, sem tragédia. Porque no fundo a ovelha ria, pois continuava viva nas entranhas do lobo, continuava viva em cada célula da fera. Deixei o pastor sem a ovelha e ele começou a apascentar meu lobo. Um dia ele tomou do lobo e o sacrificou sobre o altar ao deus do fogo. E o deus se ria, porque dentro do pastor a ovelha e o lobo ainda viviam. E assim parei de rezar. Sou o pastor perdido neste deserto solitário, sou um vulto lutando só contra anjos e demônios, sou o deus que espalha seu riso pela areia. Caminho em círculos sobre a terra subindo as espirais do tempo, até que este espaço que agora ocupo se reduza a um buraco negro, em que as coisas andam ao revés, como a memória. E nele sou apenas o espelho de um abismo de luz e escuro. Reminiscências… (E quisera não ser.)

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