O cinema e o vídeo

            O cinema, no dizer de Gilles Lipovetsky, hoje é uma tela global, no sentido de que ele está onipresente em todas as telas: celulares, ipads, PCs, smarts TVs, ou seja, nunca se fez tanto cinema quanto agora. Concordo com ele neste ponto, porém, Lipovetsky esquece de que o cinema, desde o seu início era fotografia (24 quadros por segundo, antes menos), e fotografia química, com celulose, químicos sensíveis à luz, laboratórios de revelação e uma pós-produção complicada, de montagem feita à mão, com tesoura e fita adesiva. E como as câmeras eram pesadas e de mobilidade limitada, filmava-se em estúdios, com cenários, etc. Tudo isto implicava numa produção cara, complexa, que exigia uma grande equipe trabalhando no projeto. Até o lançamento da película era difícil, porque implicava em muitas cópias feitas em laboratório,...

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O despudor de ser antiquado

            Há em nossa sociedade hipermoderna o pudor de ser antiquado e de não estar em consonância com o mito da verdade científica. Quase todos querem estar atualizados tecnologicamente no sentido consumista, fazem tudo para ter os aparelhos eletrônicos recém lançados. Quase todos buscam andar conforme a moda e as novas tendências, buscam ter as informações mais acessadas e saber dos eventos mais comentados, mesmo que isto seja lixo, ou melhor, conhecimento fútil. E quando alguém não consegue entender e dominar as novas tecnologias sente-se excluído, discriminado, o que leva os velhos a sofrerem duplo preconceito: o de serem velhos num mundo que valoriza a juventude, e o de serem antiquados e ultrapassados num mundo de vanguardas, inovações e novidades.             Quanto à ciência, mesmo a massa sendo ignorante em relação às principais descobertas,...

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Viajar

              Há muitos anos atrás, quando o filósofo Habermas esteve em Porto Alegre, deu ele como exemplo de dúvida existencial a seguinte questão: para onde iremos viajar nas férias? Eu achei aquele exemplo idiota, pois viajar nas férias é coisa de primeiro mundo, de quem é rico, é coisa de burguês, pois pobre não tem dinheiro sequer para ir até a esquina. Mas de lá para cá o Brasil ficou menos pobre, e muitos pobres adquiriram poder de compra através de crediários e financiamentos, criando uma classe média aumentada que passou a pensar justamente nisto: para onde iremos viajar nas férias?             É claro que as diferenças de classe ainda subsistem, ir à praia abrange desde Pinhal e Cidreira, Miami, Caribe, ou destinos paradisíacos do Oceano Índico. Os meios de locomoção abrangem desde...

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Sobre o Zero

              A nossa economia que era feita de créditos agora é feita de débitos, e zero é o número da guinada. Mas zero também é o símbolo da ausência de algo, portanto, não é propriamente um número. Diz-se que entrou na matemática através dos árabes, mas que foi uma invenção hindu, e creio piamente nisto. Os hindus produziram o budismo e a noção de Nirvana como vacuidade ou vazio. Quando se diz do zero como o nada primordial, diz-se que nele havia tudo em potência, todo o possível, o universo inteiro antes de sua manifestação.              Como dizem os cabalistas: o zero era o Deus oculto nas profundidades de sua inexistência. E, como dizem os maçons: o Grande Arquiteto do Universo se manifesta emanando de Si o Um ou Uno.  Que, como filho...

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A insegurança

            Vivemos na Era da Insegurança, como no título do livro de George Soros, só que tal ideia tem mais amplitude que o ponto de vista de sua abordagem. Nossa insegurança é de vários tipos e compreende inúmeros fatores. Além da insegurança de andar nas ruas, devido ao crescente índice de criminalidade e violência, que inclui homicídios, latrocínio, assalto a mão armada, crime organizado, arrombamentos, furtos, balas perdidas, etc, há inúmeras outras fontes de insegurança.             Não sabemos a que ponto chegará a degradação do meio ambiente, considerando ter aumentado enormemente a quantidade de catástrofes naturais por ano e de haver danos irreversíveis à natureza em muitos pontos do planeta. Uma cidade como São Paulo chegará ao ponto de ficar sem água? Se houver o encalhe de um navio do polo petroquímico de Triunfo...

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Dinheiro e depressão

            Vi numa publicação de jornal uma pesquisa científica sobre a relação entre endividamento e depressão. O texto dizia que ambos estão relacionados, mas que a pesquisa não apontou qual é causa e qual é consequência. Certamente quem está deprimido descuida suas finanças e o seu trabalho, mas não creio que a depressão seja a causa do endividamento, porque, obviamente, um deprimido sai e compra menos e, com menos vida social gasta menos dinheiro, se endividando menos.             Porém, de outro lado, a falta de dinheiro diminui a capacidade de ser feliz, porque as pessoas cortam gastos de investimento em si, como estudos; e gastos de bem-estar pessoal, como viagens, passeios, shows, eventos culturais e de lazer em geral, jantares com amigos, terapia de apoio, dentista, academia, tratamentos estéticos, etc. Assim, sem dinheiro nos...

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A loucura de Foucault

            Nietzsche demonstrou que a situação socioeconômica dos hebreus sob o domínio militar e político dos romanos explicava a doutrina cristã, nascida como a pregação dos fracos e impotentes. Do mesmo modo Michel Foucault tentou explicar a loucura segundo o contexto histórico cultural da mesma, e até mesmo a ciência como resultado de um acúmulo de saberes, porém, com rupturas, de modo a perceber-se que a química advém da alquimia e que a medicina supõe a magia como berço. Mas sua arqueologia do saber e sua história da loucura e da sexualidade brotam de uma generalização prematura, pois que a execução do condenado e destruição de seu corpo que é substituída por sua prisão e controle não são realidades excludentes, e sim concomitantes. Em todas as épocas se prendeu ou matou ou ambos. Em...

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Onde estamos e para onde vamos?...

            Vivemos um momento pré alguma coisa, ou seja, uma transição que não aponta de modo claro para onde vai. Quando perguntaram a Fellini por que filmar “Satyricon” de Petrônio, ele respondeu que os jovens daquela época eram, como os de agora, jovens de um período de transição. Jesus havia sido profetizado, mas ainda não havia nascido, os personagens de Petrônio viviam a transição entre o paganismo da Antiguidade e o cristianismo da Idade Média, mas não tinham consciência disto. Podemos dizer, do mesmo modo, que hoje não temos também consciência de para onde o mundo aponta, para onde vamos.             O planeta está esgotando seus recursos naturais e sua água potável, ou o avanço científico desenvolverá alternativas com tecnologias limpas e renováveis? Para não esgotar os peixes do oceano desenvolvemos a piscicultura: mas...

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Almas de Zen

            Sábado passado debati, a convite do Santander Cultural, o filme “Almas de Zen”(Alemanha-Japão, 2012), que trata da tríplice tragédia que se abateu sobre o Japão: um terremoto, um tsunami devastador, e o extremamente grave acidente nuclear de Fukushima. O filme trata também sobre Budismo e Zen no Japão, e ainda sobre como a cultura japonesa lida com os rituais de morte e o culto aos antepassados. Mas, certamente, o tema central do documentário é a questão da morte, e de como reagir a ela.                 Primeiro, cabe destacar o fato de que a maior catástrofe natural da história do Japão, que fez mais de vinte mil mortos e mais de três mil desaparecidos, produziu um grande trauma coletivo na alma japonesa. Pessoas queridas desaparecerem é diferente da perda por morte, porque o ritual...

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Drogadição e Sociedade

            Todas as sociedades, de todas as civilizações, produziram ou utilizaram algum tipo de droga. Até hoje, a diferença entre remédio e veneno está mais na dose que na substância. Daí que, existem usos aceitáveis e positivos para quase todas as drogas conhecidas, assim como muitas delas, obviamente, são capazes de matar ou viciar numa intensidade destruidora de personalidades, sanidades, lares, empregos, famílias, relações afetivas. Porém, excetuando-se o álcool, a maioria da população passava ao largo do uso de drogas, algo que quase sempre esteve restrito às minorias de jovens contestadores, velhos doentes, adultos viciados, e também grupos religiosos e místicos. Hoje não, estamos convencidos que o uso atual de medicamentos tem um patamar epidêmico, e que a drogadição indiscriminada é um traço indissolúvel da época pós-moderna e um sintoma de nosso tempo.            ...

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Dos sapos e das facas

          Outra coisa que tem me incomodado, agora, que a morte está mais perto que o berço, é saber quantos sapos engolimos durante a vida, principalmente na vida profissional? É triste ver alguém em final de carreira ganhar um prêmio de consolação, por isto sempre achei sábio sair de cena quando ainda se está ganhando, que sair de em plena decadência. Não falo de decadência física, que esta faz parte do passar dos anos, trato da decadência moral. Não a perda de referenciais éticos de conduta, mas a aceitação, em nome da segurança financeira, de um posto menor ou uma função desvalorizada na estrutura de trabalho da profissão. Talvez a velhice ensine a engolir sapos, no sentido de que nem todas as guerras valham a pena ser levadas a cabo. Mas de outro lado,...

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Olhos nos Olhos

            Quando a minha cadela maltês me olha, com seus olhos negros e tristes, ficamos os dois, olho no olho, tentando entender o que cada um está pensando. O olhar penetra e acentua a questão da comunicação. Mas considerando que um cão é um ser animal, movido por instintos, sua capacidade de pensar deve ser restrita a questões essenciais e comandos básicos, como, por exemplo: será que ele vai devolver o osso que tirou de mim? Será que vai me levar para passear? Eu quero comida! Será mesmo que os cães, satisfeitas as necessidades básicas, estão felizes? Se isto é assim, por que nós, os humanos, que somos supostamente mais inteligentes, não conseguimos ser felizes nas mesmas circunstâncias? Há também a hipótese de que os cães sintam como nós humanos, ou seja, tenham momentos...

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Estou de Volta

              Estou de volta à ativa, posso de novo usar minha mão direita para digitar e alimentar meu blog, com aquilo que me vier à cabeça. Meu melhor amigo vivo, porque tenho muitos amigos mortos, também está de volta de uma cirurgia cardíaca que colocou uma válvula artificial em sua aorta e pontes safenas em suas coronárias. Ele é, como eu, um sobrevivente. É maravilhoso poder celebrar a vida! Estar vivo e sentir-se como tal é a essência do sentido de viver, é o que basta para sermos felizes, apenas ser, sem dores e ameaças da morte.             Apesar de que, como os mexicanos e os japoneses xintoístas, pode-se também celebrar a morte. Mas como cidadãos ocidentais e judeus-cristãos só sabemos temer e lamuriar a morte. Preferimos vê-la passar ao largo, olhá-la de...

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Dando um Tempo

            Quebrou, conserte; sujou, limpe; não funciona, faça funcionar; de preferência faça manutenção periódica e substitua as peças com defeito. Marshall Mc Luhan escreveu das rodas como extensões dos pés, ou do carro (máquina) como uma extensão do corpo humano, já que todos dizem “furei o pneu” em vez de “meu carro furou o pneu”, como se nós fôssemos máquinas que tivéssemos pneus. Ou seja, invertendo Mc Luhan, somos, como corpo, uma extensão de nosso automóvel, necessitamos, como ele, de manutenção e consertos.             Hoje irei fazer uma cirurgia na mão direita, consertando o que o desgaste do tempo e do uso estragou. Escrever em cadernos, quadros negros e brancos, datilografar, digitar, usar mouse, jogar vôlei, desenhar, pintar, são atividades de uma vida inteira como escritor, estudante, professor, desenhista e pintor, que desgastaram minhas...

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Como lavar banheiros

            Eu era um mero adolescente tentando descobrir quem era quando conheci um monge japonês chamado Tokuda, que tinha vindo ao Brasil para divulgar o Zen Budismo. Ele na época ministrou uma palestra que jamais esqueci, sobre como lavar banheiros. Informou ele que na tradição budista japonesa era uma honra lavar banheiros, porque segundo a história, muitos mestres Zen haviam atingido a iluminação (satori) lavando banheiros. Quando lavamos banheiros, se for o caso de o fizermos, tendemos a fazer com desagrado, com repulsa e mal-estar, quando não com mau humor. Ou fazemos cantarolando uma música, ou seja, colocando a consciência noutra coisa, de modo a fugir do momento presente e sua tarefa de asseio. Daí que lavar banheiros sem nojo, considerando-a uma tarefa nobre e importante, feita com concentração mental, de modo que possamos...

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O Tempo e nós

            Temos tarefas a fazer e o tempo não rende. Temos de esperar e o tempo não passa. Quando vimos, o tempo voou. Que mistério tem o tempo? Sabemos ser misterioso o tempo da física relativística, com sua ideia de que todos os tempos são simultâneos, ou que nada é simultâneo a nada a não ser relativisticamente. Se todo o passado e todo o futuro é presente, por que não tenho todo o tempo do mundo ou do universo? Mas há outro tempo além deste do mundo exterior, no dizer do filósofo Bergson há o tempo que dura na consciência, o da subjetividade de Proust em busca do tempo perdido. Se o tempo existe na subjetividade podemos entender que às vezes ele não passe e às vezes ele voe, mas o que faz com...

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O paraíso que sonhamos

            Um dia haveremos de viver num mundo transformado pra melhor, nem que seja numa outra vida e num outro planeta. Sonho, como todos os marxistas e utopistas sonharam, com uma sociedade perfeita, baseada na cooperação, solidariedade e paz, em que, livres dos preconceitos religiosos e superstições, todos saibam usufruir seus direitos, respeitando os demais. E que, diversamente das sociedades marxistas, a de nosso sonho seja democrática, de modo que o Estado represente o interesse coletivo sem violação das liberdades individuais.             Se todos adquirissem um máximo de consciência social, viveríamos num mundo limpo, sem infrações de trânsito, quase sem criminalidade e violência, onde os ricos de bom grado contribuiriam para eliminar a pobreza, e todos teriam garantidas as suas necessidades básicas.             Mas para que haja uma tal consciência social, seria necessário que...

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Sadhu, o filme

             Quando iniciei a escrever em meu blog, me disse saindo de uma caverna que trazia em mim, e por isso foi significativo eu ter sido convidado a comentar o filme “Sadhu” no cinema do Santander Cultural, como parte do Festival Diwali. O filme “Sadhu”, do suíço Gael Métroz, trata do tema de seu título, de um asceta que viveu oito anos isolado numa caverna do Himalaia e resolveu sair dela, e participar de uma grande festa religiosa, o Kumbha-Mela, peregrinando depois a um lago sagrado do Tibet. O personagem central da história, em verdade uma pessoa real, um homem chamado Suraj Baba, pois o filme é um documentário, ao sair de seu retiro fuma, bebe e toca música em um bar noturno como um ser mundano comum, longe de seus votos e de...

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Velhice e Juventude

            O progresso científico e tecnológico fez avançar a medicina, expandindo a longevidade. Ao mesmo tempo, o avanço socioeconômico fez diminuir os índices de natalidade. Com isto, o Brasil, que era um país de jovens, em breve será um país de velhos. Mas se hoje vivemos mais, morremos mais decrépitos e, na fase terminal da vida, custamos muito caro para sermos mantidos vivos. Isto de um lado onera o sistema de saúde e a previdência social, e de outro pesa financeiramente nas famílias. Minha geração é a primeira, em determinada fase da vida, a ter de sustentar os filhos (que hoje custam mais caro, estudando mais anos, com seus celulares, aulas de língua estrangeira, academia, faculdade paga, intercâmbio no exterior, etc) e os pais na velhice avançada. O Alzeimer atinge por volta de 5%...

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Política e Religião

              O Congresso Nacional eleito nestas eleições de 2014, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP, é o mais conservador desde 1964. Dentre os parlamentares conservadores, destacam-se duas bancadas informais: a ruralista e a evangélica. Como a Constituição de 1988 diz que o Estado brasileiro é secular e laico, e que não há religião oficial, garantida a liberdade religiosa, soa inconstitucional haver uma bancada evangélica que pretende legislar a fé. Toda pessoa religiosa tem a opção livre de viver segundo sua fé, mas não pode ter, segundo nossa Constituição, a pretensão de tornar os preceitos de sua fé obrigatórios a todos os cidadãos. Isto é uma forma de fundamentalismo religioso, é a defesa de uma espécie de teocracia, além de soar autoritário e até ditatorial ou totalitário. E tomar a Bíblia...

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