A Superficialidade da Vida

Estou numa bifurcação de dimensões díspares mas coexistentes, dividido entre a profundidade de um olhar penetrante na verdade do mundo e das coisas, e a necessidade de dar conta de uma superficialidade cotidiana avassaladora. Talvez este dilema seja equivalente ao que surgiu com a civilização, ou seja, a divisão entre o trabalho braçal e o intelectual, ou ainda, como agora, o tempo dedicado às máquinas versus o tempo das relações humanas não intermediadas por tecnologias. É claro que o progresso tecnológico libertou o homem de um fazer extenuante e ampliou a nossa capacidade de realização. Mas o tempo adquirido pela aceleração dos processos não resultou num tempo de reflexão, meditação e paz. Pelo contrário, a ansiedade e a angústia do dia a dia equivalem a uma guerra contínua, com batalhas cotidianas sem perspectivas de trégua ou armistício. E o apelo consumista está sempre em conflito com a realidade nua e crua de nossa condição financeira limitada e insuficiente.

A sucessão de obrigações cotidianas, os afazeres domésticos, as burocracias públicas, as pendências envolvendo produtores e consumidores, as incompetências humanas que nos afetam, a desesperança diante da crise econômica e dos malfeitos ao meio ambiente, a estupefação diante da corrupção na política, tudo isto aliado à enxurrada de notícias de catástrofes e tragédias, a informações detalhadas sobre crimes cheios de crueldade absurda, mais a maledicência na rede e na vida, nos levam a descrer, a sofrer, ao infortúnio. Que podemos cada um fazer para mudar isto? Mas as tentativas frustradas não nos tornam mais amargos?

Isto tudo não significa que o pessimismo vença e que a saída seja a fuga irracional ou a morte. Nada disto, pelo contrário, acredito na capacidade humana de reverter quadros difíceis e de encontrar soluções aos problemas mais espinhosos. E acho que existem pessoas de boa vontade, e sentimentos de amor também movendo o mundo. Acredito na força da paz, da oração, da fé, independentemente da crença, dos ritos ou da ausência deles. Tenho fé na solidariedade, no voluntariado em prol do trabalho altruísta, da união nas horas difíceis. Sei da capacidade curativa do otimismo e da criatividade, no bem que advém da beleza artística e da contemplação das maravilhas da natureza. Por fim, acredito que a vida vale a pena, que estar vivo e saudável por si só é uma dádiva, e que admirar um por de sol e usufruir uma noite estrelada não nos custa dinheiro. E, mais que tudo, acredito no amor, no milagre da reprodução humana, no aconchego do lar, da família, na alegria proporcionada pelos amigos.

A questão é que, tudo isto é, ao mesmo tempo, profundidade e superfície. Tudo nos exige uma dedicação, um olhar atento, um cuidado especial. Não basta plantar, é preciso regar nosso jardim, retirar as ervas daninhas e protege-lo de predadores. Em suma, contemplar tem um custo de trabalho e dedicação. Daí a dificuldade de conciliar trabalho e lazer, tempo livre e tempo gasto, tempo para si e tempo para outrem. Existe toda uma sabedoria do uso do tempo, de modo que não sintamos que estamos desperdiçando a vida e perdendo tempo. Também não podemos não ter tempo para cuidar de si, dedicar-se a quem amamos e, também ter tempo para a transcendência e a contemplação; necessitamos cultivar a paz e “verticalizar o instante” através do ato criativo, enfim, todos nós necessitamos de uma dimensão de eternidade, que nos prepare com serenidade para a morte, e nos faça celebrar a vida enquanto a temos.

 

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