Somos nosso inferno

Por que algumas pessoas não aprendem nada com a vida? Levam tombos, arrumam confusão, sofrem enormemente, e continuam iguais, cometendo os mesmos erros, e achando que os culpados são os outros. “O inferno são os outros” – escreveu Jean-Paul Sartre, talvez querendo dizer que os outros são realmente os culpados. Porém, segundo o meu entendimento, em geral as pessoas são as próprias culpadas de seus infortúnios. Com isto não estou ignorando que as escolhas erradas são, de alguma maneira, condicionadas pelas experiências passadas e pelo meio, ou seja, dependem em grande parte das condições de vida na infância. Mas não creio que o fator biológico (a herança genética) e o fator econômico sejam os mais determinantes de limitações de escolha. Acredito que pesam mais os fatores psicológicos e emocionais, porque uma família estruturada e um lar com amor são meio caminho andado em rumo de um bom caráter e de um destino razoavelmente bom.

O inferno somos nós mesmos, somos nosso próprio inferno, ou melhor, criamos nossos motivos de sofrimento, ou pelo menos os engrandecemos e os tornamos mais fortes diante de nossas fraquezas. E quando vemos um diabo em carne e osso, alguém difícil a ponto de enlouquecer todos que se lhe aproximam, podemos comprovar, há em algum momento de seu desenvolvimento algo que falhou. Deve ter faltado algo ou havia algo em excesso, algum peso era demasiado para ser carregado. Mas o passado não pode servir de desculpa, todos nós, em diversos momentos da vida temos oportunidades de corrigir o rumo errado, de mudar, de romper com o que nos faz mal, enfim, de nos curarmos. Entretanto nem todos conseguem, ou melhor, a maioria sequer tenta.

É claro que pessoas deprimidas, frustradas, excessivamente ambiciosas ou invejosas, dificilmente são felizes. O ego engrandecido faz com que a pessoa “se ache”, assuma uma atitude prepotente, que afasta os outros ou produz inimigos. E quem “se acha” no fundo se perdeu, nunca se achou. Porque quem se encontra, encontra os demais em si: “ninguém pode ser feliz sozinho” já disse o Vinícius. É claro que se pode ter paz sozinho, mas a paz da solidão nem sempre preenche a necessidade de darmos um sentido às coisas que fazemos, pois sempre as fazemos em função dos outros. Ou seja, o amor é fundamental, em todos os seus tipos e formas. Além do amor e do erotismo a dois, há as relações de família, de colegas, de amigos, de animais domésticos, ou seja, ou vivemos imersos em expressões de afeto, ou fechamo-nos e secamos nossos sentimentos.

Em toda parte vejo pessoas que se pretendem consumistas à custa do dinheiro dos outros, que não pagam suas dívidas e sonegam impostos, e que, quando recebem ajuda de familiares, acham que eles possuem obrigação de ajudar quem não se ajuda. O mundo está cheio de ingratos, gente que não reconhece o altruísmo alheio, portanto, de índole má, cheios de maus sentimentos. E o pior deles é o ódio, destilado contra todos os que são escolhidos como culpados, digo escolhidos porque, na maior parte das vezes, vemos pessoas culpadas de suas mazelas colocando a culpa em outros, projetando na cara alheia as suas faltas e vícios. Quantos vagabundos falam mal do trabalho que recusam? Quantos sonegadores e devedores criticam os corruptos? Quantos alienados da política falam mal dos políticos? Quantos ignorantes criticam o que desconhecem?

É claro que o mundo contemporâneo, capitalista e consumista, centrado no lucro, e desumano em vários aspectos, merece e deve ser criticado. Mas de que adianta falar contra os que poluem o meio ambiente se quem fala não faz sua parte, não separa seu lixo, não respeita ele também o meio ambiente? É fácil criticar a industrialização dos alimentos vegetais com agrotóxicos, e dos alimentos animais com procedimentos antinaturais que fazem sofrer os animais, mas é difícil tentar ser coerente com tal crítica na mesa do dia-a-dia. É fácil falar contra o poder público na sua inoperância e ineficiência, mas é difícil ter propostas de solução aos nossos principais problemas. Enfim, somos no geral incoerentes, não nos olhamos no espelho, e quando olhamos, fechamos os olhos, não queremos ver. E quando vemos, não agimos, nos omitimos, porque achamos que não é nosso papel e função. Mas, no fundo, temos preguiça, apatia, alienação, somos superficiais na vida.

Arre! É preciso revoltar-se, não contra os outros, mas contra nós mesmos, de modo a nos fazermos diferentes e melhores. Se não formos melhores, como poderemos melhorar o mundo?

 

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