Sobre os absurdos do mundo e de nós mesmos

            Parece simples viver e tocar a vida, por mais que tropeços e dificuldades se apresentem. É só não deixar a manada e reproduzir o comportamento padrão. Mas quando tentamos ser nós mesmos, originais, o céu desaba sobre nossas cabeças. E quando tentamos compreender o incompreensível, e saber por que o ser humano é tão animal enquanto humano, percebemos que o ato de existir, em si, é um absurdo. Que significado tem nascermos gente num universo em que a vida primitiva é banal, mas a vida inteligente é rara? Que significa sermos os questionadores do porquê de tudo? Enfim, que sentido tem não encontrarmos sentido em nascer e morrer, como se este hiato de existência fosse a coisa mais importante do universo, quando sabemos não sermos nada, ou sermos menos que isto?

            É só olhar à nossa volta que tudo parece tão real e imperioso. Mas se olharmos uma segunda e terceira vez, veremos que, aos poucos, o que era aparentemente real começa a revelar suas entranhas ilusórias. A realidade não passa de um olhar sobre as coisas, e a cegueira talvez nos permitisse “ver” melhor.

            Por que as trevas são a “cor” do céu? Por que chamar de energia escura e de matéria escura o que supomos existir mas não podemos ver? Sabemos porque um buraco negro é negro, porque não deixa escapar fótons de luz, porque aprisiona a luz. Mas se o nosso universo é um buraco negro, por que vivemos num mundo feito de cores e luzes, e nós mesmos somos, como imagem de nós mesmos, feitos de luz refletida? Se os sóis, galáxias e nebulosas nos aparecem como imagens coloridas de luz: por que a distância crescente do universo transformará a luz em trevas e esfriará o calor vital?

            Os enigmas são muitos, não só porque a ciência não sabe tudo, ou melhor, sabe que não sabe muito, mas porque também a pergunta pelo sentido ou pelo por que talvez não tenha lugar num universo que pode ser completamente absurdo. E mesmo que o que chamamos natureza seja coerente em si, tenha sentido em si mesma, qual é nosso lugar em meio a ela? Será que não seríamos nós absurdos, mesmo em meio a uma realidade que tenha sentido em si mesma? Afinal, depredamos a natureza, destruímos o planeta em que vivemos, matamos nossos semelhantes por motivos torpes e mesquinhos, não por necessidade de sobrevivência. E, acima de tudo, criamos regras e valores que se esvaem nos atos que também são nossos, revelando nossas contradições, ou melhor, nossa absurdidez.

            Mas nossos rituais são sofisticados, por exemplo, nas celebrações da repetição cíclica do tempo nos aniversários e no ano novo. Porém, que é o tempo senão esta relatividade de olhares, esta simultaneidade de momentos, este cruzamento entre a verticalidade do instante e o fluir horizontal da nossa história? Enfim, somos memória de algo que ainda é, mas já foi sob certo prisma. E somos perspectiva, expectativa e sonho de um futuro que talvez nunca venha a ser, e que mesmo que o venha a ser, já aqui e agora está, a nos olhar desde lá. Que maluquice é esta, este modo de ver sem ver, este jeito de ser consciente sem ter consciência, de existirmos sem termos existência real? Ou melhor, tendo realidade a partir de um olhar sobre as probabilidades. Ou melhor, existindo como uma segmentação do todo, um corte de todas as infinitas possibilidades, um ser só uma alternativa diante das infinitas alternativas. Assim, somos, pura absurdidade, enfim, humanos, gente, todos nós, todos eu.

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