Sobre o Perdão

             O nosso instinto de sobrevivência faz com que nos tornemos agressivos para nos defendermos, e guarda em nossa memória, acionada sempre que haja perigo, todos os episódios e pessoas (ou animais) que alguma vez já nos ameaçaram ou agrediram. Isto faz com que tenhamos uma imensa dificuldade de perdoar, o perdão verdadeiro, quando em nosso coração não há mais nenhum resquício de ódio, ressentimento ou mágoa. O cristianismo ensina a amar e a perdoar (setenta vezes sete), pois sem perdão não poderia existir o amor. Porém, perdoar não é engolir imensos sapos e levar desaforo para casa. No momento da agressão podemos nos defender no ato, e depois, perdoar a agressão, já que aceitar toda e qualquer ofensa passivamente é uma forma de acomodação ou fraqueza. E, como escreveu Gandhi, quem me agride com a espada encontrará minha resistência de alma, e sua espada nada poderá contra a minha resistência de alma, o que obrigará o agressor a depor sua espada e reconhecer em mim a força. A suprema coragem, para Gandhi, não era a coragem de matar, mas a coragem de morrer, o que nos permitirá resistir mesmo quando, ao fazê-lo, colocamos nossa vida em risco.

            O perdão pode nascer da compreensão, pois quando entendemos o outro, seus motivos e idiossincrasias, podemos vê-lo como ignorante e pobre de espírito, em outras palavras, ter pena dele, em vez de querê-lo morto. Quando o marido vê no mau humor da esposa um comportamento movido a TPM, não se sente incomodado. E, se consegue não se sentir agredido quando há um motivo para a agressão de outrem, é claro que também poderia não se sentir agredido diante de toda e qualquer agressão. Tudo dependeria de como olhar o outro, do conhecer-se a si mesmo, de como entender a agressão, e de como sentir que deve reagir a ela. “Quando um não quer dois não brigam”, é só não entrar no jogo, é só não se identificar com o alvo da agressão ou com o conteúdo da ofensa. Afinal, se sabemos não sermos aquilo, e sabemos quem nos ofende e porque, temos condições de não discriminar, de suspender os juízos de valor. Tal ato não me atinge, não é em si nem bom nem mal, há apenas uma agressão absurda e injusta, que torna quem a faz um ser menor, do mal. Mas se somos do bem, podemos rebater para dar limites, e depois deixar para lá, ou deixar para lá desde o início. Quem ama esquece as ofensas, e se comporta sempre como se elas não tivessem existido.

            Mas amar e ser do bem não é ser trouxa, deixar que defequem em nossa cabeça. Se temos autoestima, não podemos permitir que nos apequenem. Mas se defender não é descer ao nível de quem nos agride, é com firmeza mostrar a verdade e dizer quais são os princípios que não podem ser transigidos. Quem tem ética tem princípios, e por tê-los, deve sempre lutar pela justiça, é claro, também com capacidade de exercer a misericórdia e o espírito humanitário. Enfim, perdoar é deixar para lá, esquecer ou fingir que esquecemos, de modo a que sempre nos movamos com tolerância e consciência limpa, para termos aquilo que é fundamental à felicidade: o sentimento de paz.

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