Sobre o Frio

            Vivemos num país tropical, mas no extremo sul, num clima temperado, capaz de produzir variações extremas de temperatura num mesmo dia. É positivo viver numa cidade que tem quatro estações bem definidas, o problema é habitar e trabalhar em prédios não aptos a nos dar conforto térmico. No inverno, por exemplo, mesmo em cidades da região serrana, como Caxias do Sul, são raros os prédios e locais com calefação. Lá estudantes universitários e operários metalúrgicos congelam em salas de aula e pavilhões industriais sem ar condicionado ou calefação. E mesmo quem tem splits pela casa toda, não desperdiça energia ligando todos ao mesmo tempo, o que faz com que a troca de ambiente (do quarto à sala e desta à cozinha, por exemplo) seja uma troca instantânea de estação. Assim, vivendo choques térmicos em nossa própria casa, terminamos por adoecer, contraindo viroses que nos farão esperar horas por atendimento em emergências de hospitais lotadas. E eu, que sempre gostei de frio, agora já velho, passei a odiá-lo, pois significa coriza, dor de garganta, tosse, rouquidão, dores reumáticas ou musculares, fruto de um organismo contraído e debilitado.

            É claro que existe o lado charmoso do frio: lareira acesa, vinho tinto, chocolate quente, cobertor de orelha e outras coisas boas. Mas dá vontade de não sair de casa, e trabalhar inclui enfrentar o clima. Dá vontade de tomar um voo e ir para o nordeste do país, ou mudar para onde a arquitetura de interiores respeita mais as pessoas.

            Também é possível pensar que o frio é um grande carrasco dos mais pobres, que vivem em casebres úmidos, sem calefação, ar condicionado ou estufas, com frestas nas aberturas e paredes por onde entra o vento gélido. Isto sem lembrar dos sem-teto que morrem de hipotermia, e dos que enfrentam o frio fazendo fogueiras que pintam de fuligem os nossos viadutos.

          Assim, vou deixar de ser gaúcho e portoalegrense, vou abandonar a estética do frio, triste, pessimista e depressiva, abandonar a criatividade racional do frio, trocando-a pelo calor aplastante, pela preguiça, enfim, pelo ócio, criativo ou não.

Relacionados

Compartilhe

Deixe aqui seu comentário

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com