Sobre a saudade e a distância

Faz tempo li sobre a relação entre mães e filhos em Roma, na Itália, de como os filhos ou moram com as mães, ou o contrário, ou moram próximo, mesmo prédio ou rua ou bairro, e que os que moram longe falam-se ao telefone diariamente. Neste raciocínio diria que, cada vez mais, com a globalização, as distâncias físicas aumentam enquanto a comunicação, via novas tecnologias, encurtam a distância entre as pessoas. Mas, infelizmente, a proximidade comunicativa não substitui nem é igual à proximidade física.

Acabei de retornar de uma viagem longa, na qual reencontrei meu filho, nora e netos. Isto que antigamente era extraordinário hoje é banal. Com a globalização e a facilidade e barateamento das viagens, é comum que pais tenham filhos vivendo em diferentes países e latitudes. Mas, como afirmei acima, hoje o significado da distância é outro.

Quando tinha a idade de meu neto mais velho, 18 anos, viajava ficando incomunicável com meus pais, porque as ligações telefônicas eram difíceis e caríssimas. Lembro de, numa viagem, ter ficado sem dinheiro e, para receber remessa de meus pais, teria de aguardar quase uma semana, após visitas a postos telefônicos e bancos. Hoje vivemos a instantaneidade, em que nos comunicamos via smartphones, com vídeos, gravações de voz e fotos, e podemos também, em questão de minutos, transferir dinheiros de uma conta a outra, depositar num país e sacar noutro, em caixas eletrônicos de esquina, ou mesmo usar um cartão de crédito internacional. Ficou difícil nos perdermos com GPS nos carros e na palma da mão, assim como também ficou difícil ficar longe, quando temos proximidade intermitente via meios eletrônicos.

Mas falta o calor humano do abraço apertado, do olho no olho, a intimidade psíquica que advém do contato pessoal imediato em primeiro grau. Isto eu tive por algumas semanas com meu filho e netos, mas agora retornei à mediação eletrônica, e nela poderei ficar por anos. Daí a saudade, que passa também a ter uma conotação diferente, ainda mais quando os netos crescem, e cada vez que os vejo ao vivo, o tempo passou, a criança virou jovem e o jovem virou adulto, as personalidades não são mais as mesmas, como se as pessoas em parte fossem outras. Isto é fascinante, triste e aterrador ao mesmo tempo, ou melhor, o tempo e a distância hoje ainda são nostálgicos, apesar das alegrias dos encontros.

Sempre que viajamos há o momento do retorno, quando já cansados, queremos voltar para casa. Mas quando a família está distante e só se faz presente em viagem, voltar também é partir, porque a casa também são as pessoas que amamos e que ficam. Neste caso, voltar significa nos mantermos a uma certa distância dos próximos, de modo que a nossa casa, mesmo cheia, estará vazia.

Que estranha é a vida sob o prisma do enlace entre amor e distância, tempo e perenidade, viagem e transformação, encontro e comunicação! As pessoas queridas que deixamos para trás estarão conosco em nossos corações, mas o mundo nos prega peças ao nos obrigar a crescer, a cortar o cordão umbilical da mãe, a sair da casa paterna, a descobrir e aventurar. Sentirei saudade de meu filho e netos, já estou sentindo antecipadamente, apesar dos smartphones e computadores nos quais nos meteremos.

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