Sobre a Esperança

            Diz-se que a esperança é a última que morre, só que morre junto ou antes de quem a tinha.  Ter esperança é saber esperar, mas quando se espera e de nada adianta, e ficamos sem receber o esperado, é claro que a desesperança toma conta. Mas ter esperança pode ser também não ficar esperando, e sim ir atrás do prejuízo, tentando resolver as coisas, e esta atitude ativa traz melhores resultados, mesmo que se esgote quando damos murros em ponta de faca.

                Vivemos no país e em nosso Estado momentos difíceis, poucas vezes crises econômicas aparecem conjugadas com crises políticas e morais. Isto de um lado poderia trazer esperanças de mudança, mas a crise é tão profunda que a maioria de nós não vê perspectivas, pois as alternativas que se desenham não são verdadeiras saídas e mudanças. E de nada adianta viver o trauma da mudança desestabilizadora, se o resultado não é essencialmente diferente do que originou a crise.

                É claro que, se cada um fizesse a sua parte, ficaria mais fácil, mas ao olharmos em redor vemos que poucos estão enfrentando o touro a unha. A maioria se aliena e acomoda, e o que é pior, se estivesse no lugar dos corruptos não faria diferente. Às vezes parece que este país não tem solução, e até que seu povo é parte do problema. Não estou dizendo com isto que os pobres são culpados por sua exploração e ignorância, e sim que a falta de uma educação mais efetiva e prolongada, assim como de instituições públicas mais eficientes em seus papéis sociais, leva a uma situação de degradação e deterioração que se reflete no comportamento das massas, e basta o exemplo dos linchamentos.

                Assim, vivemos a situação de que o progresso econômico não é garantia de avanços civilizatórios, já que parece que a barbárie também avança. E agora, com a crise generalizada, parece que até nossa democracia enfrenta dificuldades em se solidificar. Mais que nunca é preciso que tenhamos esperança, mas esperança ativa, indo à luta, sendo ativos, fazendo a nossa parte. Não podemos compactuar com a violência, o vandalismo e com toda e qualquer ação desestabilizadora. Mas tampouco a preservação democrática da legalidade e do Estado de direito pode significar que não possamos avançar também em aperfeiçoarmos os sistemas distorcidos que temos, que historicamente beneficiam as elites e penalizam os mais pobres e desfavorecidos de toda sorte.

                É preciso não tardar em sair às ruas, em se manter vigilante, em denunciar o que precisa ser denunciado, em criticar tudo o que tinha-se medo de criticar, pois se parece tarde para que vivamos num Brasil diferente para melhor, não é tarde para que deixemos uma herança positiva aos nossos filhos e netos, que merecem um país que avance, não só em sua economia, mas que logre gradualmente conquistas na democracia, na justiça social, nos direitos humanos, nas questões ambientais, no aperfeiçoamento do Estado, enfim, que possam viver num Brasil digno, justo e civilizado.

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