Sobre a Criação Literária

Houve um tempo em que minha autenticidade natural de ser extravasava-se em forma de literatura. Apenas isto: literatura. Por que seria necessário outro rótulo? Foi-se o tempo em que me importava com o que diziam de mim ou do que fazia, hoje já não me iludo com especialistas e concursos literários. Sei que escrevo com absoluta honestidade intelectual e sinceridade criadora, e mesmo que não seja lido, não poderia deixar de escrever o que escrevo e da maneira que escrevo. A literatura em mim é uma questão de sobrevivência subjetiva e não uma questão de reconhecimento público. Eu acredito naquilo que penso, vejo e sinto, e abdicar de expressar o que me vem de dentro me faria enlouquecer ou até matar-me: eu sou minha referência essencial.

O problema da criação literária é sua solidão criadora, pois que ela demanda introspecção, concentração e silêncio (porque mesmo quando se cria em meio ao tumulto de vozes e ruídos, ela silencia o em torno). E mesmo quando a escrita surge aos borbotões, num rompante, nem sempre surge inteira, o que obriga que aos pedaços o todo vá se formando, e isto demanda tempo. E mesmo eu quisesse compartilhar o que fosse sendo gestado, cada parte do texto só exerce plenamente o seu valor na relação de conjunto, o que obriga que o que vai sendo feito seja mantido em segredo. E criar uma obra por anos sem compartilhá-la é de uma solidão imensa. E o pior é que, quando pronta e publicada, é como se a obra ganhasse as ruas e deixasse de ser de seu autor, ou seja, a solidão persiste. Em meio ao processo da escrita, no máximo se consegue quebrar eventualmente a solidão quando surge um outro criador com quem compartilhar. Eu tive, por exemplo, um amigo escritor, que acreditou na minha literatura e me apoiou. Seu nome era Américo Vallejo, e me escreveu ele em janeiro de 1969:

            “Por el momento, es necesario que cuides tu salud. Es necesario que estés sano, potente, para seguir escribiendo, para seguir puliendo tus cosas, para ir destruyendo tus errores y para ir canalizando tus valores y para saber – por fin! – qual es tu proprio lenguaje. En definitiva: ESTUDIO.”

             Ele me aconselhava a estudar, mas em português, além da a palavra estudo existe a palavra estúdio, que pode ser um atelier, um escritório, um laboratório, um local de criações e experiências, em suma, um local fechado, subjetivo. E assim era a minha literatura: eu mesmo por dentro. Hoje tento mais um encontro entre o interior e o exterior, o individual e o social, o finito e o infinito. Já que de certa forma encontrei a minha linguagem, mesmo ela sendo múltipla, posso sair à rua e à luz. Entretanto, a incorporação da objetividade ao meu trabalho não implica o abandono do subjetivo, ao contrário, foi no encontro com o mundo que me reconciliei comigo mesmo e amadureci como pessoa e artista.

Certa vez, o meu amigo Américo levou meus escritos juvenis a um crítico literário que solenemente disse-me:

            – Tua literatura é como a pintura de um céu onde não aparece a terra, e só se pode pintar nuvens a partir do referencial de uma janela.

E acrescentou ainda:

            – Tu emites juízos de valor, e a literatura não julga, narra, quanto menos adjetivos, melhor.

Fiquei na época impressionado com a analogia das artes plásticas com a literatura e com a convicção com que ele emitia o seu juízo. Tentei então tirar proveito de sua crítica, e até aprendi a inserir janelas em frente de paisagens. Mas quando buscava fundamentar sua crítica não encontrava o fundamento: por que não se pode pintar nuvens sem janelas? Por que é preciso um referencial terrestre? Por que os juízos de valor são proibidos?

Aos poucos fui me dando conta que todos os críticos e escritores possuem uma determinada concepção de literatura, e que só podem avaliar a produção alheia a partir do que eles pessoalmente gostam, pensam ou fazem. O referido crítico era um sujeito objetivo, realista, que provavelmente queria na literatura a denúncia da obviedade social, portanto, deveria ter dificuldade de entender e aceitar uma proposta que era antípoda da sua. Longe de mim querer contrariar aos críticos e leitores, que também são críticos. Quero tão somente não contrariar-me a mim mesmo, só isto.

O poeta checo Rainer Maria Rilke fala também da solidão da obra de arte, quando diz que “as obras de arte são de uma infinita solidão, nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica, só o amor as pode alcançar e mostrar-se justo com elas”. Daí que arte é para ser apreciada e acolhida, com amor.

Por isto só sei escrever sobre mim, mas daquele eu em mim que supõe os outros e até o vazio de todos. Às vezes quero usar as palavras como quem pinta uma tela de branco, quero que elas não sejam. E sinceramente acho que não só é válido pintar nuvens sem janelas como janelas sem paisagem como nuvens sem nuvens e janelas sem janelas. E não há quem me mostre onde começa e onde termina a literatura. Não há quem me prove sequer que é necessário escrever ou ler. Siga em frente, se tiver que ser…

 

 

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