Repensando o Budismo

Desde a minha adolescência, em diferentes períodos de minha vida, estive em contato com o Budismo. Sempre pensei ser o Budismo a filosofia religiosa mais próxima de minha visão da vida e de mundo. Nunca me considerei budista, por não possuir as três joias (Buda, Dharma e Sangha), ou seja, seguir um Mestre, conhecer a doutrina e praticá-la junto a uma comunidade budista. E, apesar de conhecer o Dharma (a doutrina) em suas linhas básicas, nunca me associei a um Mestre, me entreguei a uma prática disciplinada ou me integrei a uma comunidade. Mas, mesmo assim, no meu coração me considerava budista. Porém, agora, vejo que tenho concepções distintas da visão budista em alguns aspectos, como se sentisse a necessidade de “modernizar” a doutrina ou mesmo de adaptá-la ao meu ponto de vista. Mas o Budismo é tão profundo que qualquer contestação a ele pode encontrar respaldo em sua própria doutrina.

Por exemplo, dos quatro principais princípios do Budismo (dukkha = dor; anikka = impermanência; anatman = não-eu; e nirvana = iluminação) não tenho reparos apenas a dois.

O primeiro princípio é também a primeira das 4 nobres verdades: tudo é dor, a origem da dor é o desejo, eliminando-se o desejo a dor termina. Não considero que “tudo é dor e sofrimento”, não creio que estamos neste mundo para sofrer e pagar karma.

O Budismo considera como sofrimentos principais o nascimento, a velhice, a doença e a morte. Não lembramos do momento de nosso nascimento, mesmo que tenhamos o trauma de mesmo nome, portanto, nascer não é dolorido para o nascituro, ou melhor, mesmo sendo, não é um sofrimento digno de nota, já que se apaga logo. Um bebê recém nascido ainda não tem o cérebro desenvolvido a ponto de poder processar o acontecimento nascer e tornar-se um ser vivo no mundo externo, portanto, não logra “sofrer” o que não “entende”: só vivencia.

A velhice tampouco é sinônimo de sofrimento. Hoje os velhos vivem mais e são mais saudáveis que antes, e pesquisas mostram que a terceira idade é, para muitos, a melhor idade, ou seja, no período em que estamos com os filhos criados, livres do lado escravizante do trabalho e com uma situação financeira mais confortável (considerando a classe média e alta). A terceira idade é um momento em que temos mais paz, pois controlamos mais nossos ímpetos e arroubos, nos inquietamos menos, pois temos mais sabedoria de vida; e podemos usufruir mais das chamadas “coisas boas da vida”.

A doença é um sofrimento, aqui terei de concordar, porque muitos estados patológicos implicam em mal-estar, dor física, limitações, restrições e angústia psicológica. Mas hoje, com o avanço da medicina, a maior parte das doenças são tratáveis com sucesso, mesmo com procedimentos invasivos e dolorosos, como cirurgias. Portanto, tendemos a chegar a uma avançada idade com poucos períodos ou episódios de sofrimentos por doenças. Daí que o sofrimento por doenças é mais acentuado em pequenos períodos de tempo e em minorias, que em geral compreende os mais pobres, os azarados, os desleixados com o próprio corpo e com cuidados de saúde. Assim, as doenças não são, em geral, sozinhas, motivo para transformar a vida num inferno de dor e padecimentos, exceto para alguns.

Por último, a morte, em si, não é um sofrimento, morrer sim, em geral supõe um período de dor e agonia. Mas alguns são merecedores da chamada “boa morte”, ou seja, morrem quase sem sofrer. Sem entrar aqui na questão das experiências de quase-morte que, em sua quase totalidade relatam vivências positivas do morrer. E quem vive demais e chega numa velhice avançada ao extremo, tende a querer morrer, por já estar cansado da vida e de carregar um corpo decrépito. Daí que morrer é o coroamento da vida, é o ápice, o fecho da abóbada. E para quem acredita em vida após a morte, morrer é um novo nascimento, significa nascer para um novo mundo, de êxtase espiritual. Para os budistas, morrer implica em fusionar-se no Buda, ou seja, superar o egocentrismo e comungar com a totalidade, o que não é, em si, sofrimento.

Na doutrina budista os sofrimentos secundários são: a separação daqueles que amamos; o encontro e convívio com quem odiamos; a não realização do que desejamos; e não conseguir manter distância do que detestamos. É óbvio que as relações humanas são complicadas e nos causam preocupações e sofrimentos, mas também nos trazem profundas alegrias e felicidade, dependendo de com quem e como nos relacionamos. Assim, sendo as relações humanas boas e más, não podemos dizer que são causa exclusiva de dores.

Separar-se de quem se ama nos ensina o desapego e, quando nossos filhos saem de casa e vão viver no exterior, o que é causa de “sofrimento” também é causa de “satisfação”, em ver nossos rebentos se independizarem e seguirem rumo a suas carreiras, forjando suas vidas. Conviver com quem detestamos também é aprendizado, já que, muitas vezes, quem mais nos afeta pode ser quem mais nos ajuda a superar dificuldades pessoais e a “crescer”, como é comum no meio profissional. De outro lado, tendemos a ir atrás de nossos sonhos e realizarmos nossos desejos e, mesmo que muitos fiquem insatisfeitos, a frustração não é um sofrer intransponível, muito pelo contrário, é o que nos ensina a perseverar, a nos aperfeiçoarmos mais, a continuar lutando pelas causas que acreditamos. Enfim, lidar com os desejos é o cerne do aprender a viver e ser feliz. E matar todos os desejos, como proposto na vida monástica budista, pode ser uma névoa enganosa que nos manterá apáticos, alheios às grandes causas e incapazes de encararmos nossas questões mais íntimas.

Os demais princípios budistas me são mais aceitáveis. Concordo com a impermanência de todas as coisas, pois tudo passa, termina, se transforma em outra coisa, ou se esvai no vazio e no esquecimento. Nada é para sempre e eterno, exceto talvez o escuro, a luz e a vacuidade. Daí que houve um tempo sem tempo num lugar sem espaço, e deste nada brotou o movimento e a vibração, surgiram fluxos de energia que, mais tarde, se mostrariam como matéria e forma, enfim, coisas e mundos.

Concordo com a insubstancialidade de um ego. O eu que pensa tudo que o cerca não percebe que nada o cerca, que ele, como tudo que o rodeia, também rodeia, também é periferia do círculo, ou melhor, apenas um elo descartável da teia. Este eu não sabe que é feito de ilusões e falsas identidades, não percebe que não é seu nome, profissão, status, família, posses, crenças, opiniões e seu próprio corpo. Não percebe que se retirados os véus, um a um, nada sobra, ou melhor, resta apenas o vazio.

A inexistência de um ego nos remete ao quarto e último princípio budista, que afirma a realidade do nirvana, ou seja, do vazio. Creio ser o nirvana (a iluminação) uma experiência real e possível, apesar de nunca ter conhecido nenhum ser humano completamente iluminado, como Buda Sakyamuni supostamente o foi. Daí que, em vez de os budistas buscarem ter a experiência do nirvana, que dificilmente terão, seria mais útil e inteligente aplicarem a ideia de que “o nirvana e a meditação são o mesmo”, e de que “o homem comum e o iluminado são o mesmo homem”, aprendendo a serem felizes no aqui e no agora.

O nirvana é um vazio que esvaziou o ego, que mostrou, por uma visão, não sensorial, que este vazio é cheio de luz e consciência. O nirvana somos nós em nosso cerne de felicidade celestial, que é a identidade com o todo, em cada parte, cada um fazendo a sua parte em prol de um futuro melhor, no presente de cada instante.

 

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