Relato de Vida

Quando escutamos ou lemos relatos sobre a experiência de quase-morte, em geral aparece neles a narrativa de que, na transição da vida para o mundo do além, vemos nossa vida, do nascimento à morte, como num filme tridimensional, em que estamos em cena e ao mesmo tempo assistimos, como nos sonhos. E todos dizem que o foco não é o que fizemos, e sim a repercussão nos outros do que fizemos, e que pequenos gestos podem se revelar mais importantes que grandes feitos.

Isto é interessante e deve ser levado em consideração quando pensamos em escrever nossa autobiografia, ou seja, pensar na repercussão nos outros equivale a pensar no público leitor. Para quem se escreve: para quem lê ou para nós mesmos?

Escrever para nós mesmos é válido e extremamente transformador e importante, porque equivale a um processo de autoterapia. É como no divã do analista, quando narramos nossa vida, e nossos problemas imediatos, muitas vezes sem nos darmos conta do que tais episódios ou problemas implicam, sem ver o que está por trás. Cabe ao analista auxiliar no processo de descobrirmos o que nos levou a agir ou sentir desta ou daquela maneira, fazendo cair as fichas, de modo a que nos transformemos no processo. É claro que o relato de nossa história ao analista é linear, supõe um tempo horizontal, enquanto o que realmente importa são os momentos significativos, e nestes instantes cabe um mergulho vertical ou corte. Daí que, o tempo da narrativa analítica parece linear mas é um gráfico com altos e baixos, como a vida. Assim, escrever um relato autobiográfico é equivalente, terminamos por colocar para fora coisas reprimidas e, ao vê-las manifestadas percebemos o que nos afetou, o quanto afetamos outros e, consequentemente, quem somos efetivamente. Assim, escrever tal relato nos torna melhores, independentemente de ser lido por alguém.

Porém, quando nossa vida nos ensinou muitíssimo, pode, provavelmente, ensinar também a outros. Daí que um relato autobiográfico pode ser também transformador a quem o lê, quando logra fazer vibrar as cordas interiores que temos dificuldade de acessar. Porque afinal, pensar só em si mesmo é ser egoísta e, no momento da morte, devemos ser grandes o suficiente para nos descolarmos do egocentrismo, e percebermos o que fizemos a outros, o que estamos deixando, qual é nosso legado e, com desapego, nos despedirmos com uma paz altruísta e libertadora.

Fiz um livro bastante autobiográfico, chamado “Memórias da Tempestade”, mesclando memórias e ficção, mas o fiz pensando em autoterapia. Hoje me dou conta que cabe transformá-lo em uma novela curta, que respeite o leitor, extraindo o sumo numa linguagem de comunicação e não num solilóquio. Vou chamar a novela de “O Anjo da Tempestade”, e um dia vou publicá-la como e-book. Mas o que interessa aqui e agora é perceber que um balanço de nossas vidas deve ser feito de preferência enquanto estamos vivos, pois após a morte certamente teremos de fazê-lo obrigatoriamente na transição dos mundos. Isto reforça a ideia espiritualista de que estamos aqui para aprender e amar, aprender no sentido de ampliação de nossa consciência, e amar no sentido de nos abrirmos à unidade de todos os seres e coisas. Fazer, portanto, um retrospecto de nossas vidas, auxilia nesta tarefa. Tentem contar, inclusive o inconfessável, a uma folha em branco ou a uma gravação de áudio. Aposto e garanto que não se arrependerão.

Relacionados

Compartilhe

2 Comments

  1. TIAGO LUIZ C. SOARES

    Professor, lendo agora seu texto percebo e lembro que existem Mestres e Mestres. Existem os Mestres que repassam a informação em forma de conhecimento, como instrutores da Universidade, com o objetivo de que o aluno absorva o máximo de conteúdo e demonstre o que aprendeu nas provas. Mas também existem aqueles Mestres que alem do conteúdo, conhecimento e informação passadas, deixam uma marca no pensar de cada aluno. Esse segundo Mestre que me refiro eu relaciono ao senhor, que foi meu professor de filosofia na ESPM, há mais de 15 anos. Lembro dos nossos debates em aula e agora lembro de um texto retirado do Livro da Dra. Elisabeth Kübler Ross, o qual acabei comprando mais tarde: “Sobre a Morte e o Morrer”. Um Livro que após ter lido várias vezes ainda o estudo na busca de entende-lo em sua plenitude. Mas também lembro do seu livro “Memórias da Tempestade”, o qual inclusive estive no lançamento na Feira do Livro, onde foram lidos alguns trechos de capítulos, e que acabei adquirindo na época. Obrigado Mestre!

  2. henriques

    Obrigado Tiago, alunos como você é que dão sentido à profissão de educador. Abraço,

Deixe aqui seu comentário

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com