Os gurus e as mulheres

O Sri Prem Baba, que seria palestrante em Porto Alegre, no Diwali – Festival das Luzes 2018, cancelou sua apresentação, em função das acusações de assédio sexual que recebeu de algumas discípulas. A primeira história a vir à luz trata de um casal de discípulos que solicitou ajuda do guru em função de uma crise conjugal, e o mestre, ao ajudar a esposa, seduziu-a, transformando sua ajuda num caso que passou a ter, por dois anos, com a mulher casada. A esposa foi aconselhada por sua terapeuta a contar para o seu marido, o que ela terminou fazendo, e o marido revoltado, junto com outros maridos e esposas, terminou por tirar satisfações do guru. Prem Baba não desmentiu a história, pelo contrário, declarou-a fato, mas desculpou-se dizendo que foi uma relação consentida e não assédio. E até podemos concordar com ele. Porém, isto não o livra da culpa de ter agido erradamente, com desdouro.

Considero que todas as relações amorosas saudáveis são horizontais, ou seja, se dão num patamar de igualdade entre o casal participante. Quando a relação supõe uma verticalidade, ou seja, quando um dentre o casal está ou se coloca numa posição acima do outro, dá-se uma relação de poder (que soma zero, ou seja, o poder que um tem é o poder que o outro não possui), o que configura o assédio. O assédio não deixa de ser clichê: o executivo e a secretária, o professor e a aluna, o médico e a enfermeira ou paciente, o psicanalista e a analisada, o rico e a pobretona, o político e a militante, o padre e o coroinha, o gigolô e a prostituta, e, como no caso que nos interessa, o guru e a discípula, não importa de que religião, filosofia espiritualista ou seita. Em outras palavras, o mestre que ensina aos discípulos, alunos ou seguidores, está numa posição privilegiada, o que lhe traz responsabilidades outras.

A melhor maneira de entender os limites éticos do comportamento de um professor, mestre ou guru, é compará-lo com a relação analítica da psicanálise. Segundo Sigmund Freud, o analisado tende a transferir ao médico suas projeções psíquicas, “apaixonando-se” por seu terapeuta, transformando-o ora num pai, amigo, esposo ou amante ideal. Mas o médico que ceder à tentação e tiver um caso com pacientes, além de “estragar” o tratamento, trazendo dano a estas ou estes, estará infringido o código de ética médica, podendo ter sua licença cassada, e em alguns países, podendo ser processado a indenizar com muita grana os pacientes prejudicados.

É claro que um professor e uma aluna que se apaixonem e queiram levar a sério uma relação amorosa podem fazê-lo, sem problemas, se esperarem ser superada a relação professor-aluna, se ambos forem adultos e passarem a se relacionar amorosamente fora do ambiente escolar, quando não mais um ensina e avalia o outro. Do mesmo modo um psicanalista e sua paciente, teriam de cessar a relação analítica (a terapia deve ser transferida a outro profissional), dar um tempo, e só então iniciarem uma relação não profissional. Os gurus estão numa situação análoga.

É fácil a um guru, mestre, monge, lama, padre, pastor, pregador, médium, o que seja, seduzir alguém. O reverendo Jim Jones chegou a levar seus seguidores, primeiro, ao interior da floresta, e depois ao suicídio coletivo. É comum e banal haver assédio sexual, abusos e até estupros, num ambiente supostamente espiritualizado, religioso ou casto, ainda mais quando se dá um jogo de segredos, confissões, culpas e vergonhas, e quando se separa os gêneros nas atividades diárias e se prega uma castidade imposta. Não é à toa que a Igreja Católica tem vivido o inferno em função dos demônios travestidos de padres, perpetrando abusos sexuais e estupros de menores e vulneráveis.

Prem Baba errou em manter por dois anos em segredo uma relação amorosa com uma mulher casada. Ele traiu o marido da amante, traiu a amante, por não assumir publicamente seu amor por ela (se é que este existia, já que poderia ser apenas sexo sem compromisso), e traiu seus discípulos, por arvorar-se uma castidade falsa e um status de superação da carne que inexistia. Como mestre teria de assumir somente relações transparentes, assumidas perante sua comunidade espiritual. Teria ele de ter orientado a esposa em crise em seu casamento, a superar sua crise, harmonizando-se com o seu marido ou separando-se. E eticamente ele só poderia ter uma relação amorosa ou sexual com ela quando ela já fosse uma mulher livre, descasada.

Quem sou eu para dar lições de moral a gurus considerados iluminados? É claro que todos nós volta e meia erramos e cometemos atos em nossa vida que terminamos por lamentar mais tarde. Mas é um princípio básico da espiritualidade não infringir sofrimentos a outros, portanto, se Deus é amor, este amor não pode se dar ferindo e provocando dor. Aliás, sexo é algo natural, que não é problemático no mundo animal, porém, na sociedade humana o amor tende a preservar a sexualidade de desvios de conduta criminosa, pois quem ama não fere. Sexo livremente consentido entre pessoas adultas é lícito e aceitável, mas, como assinalei ao início, desde que a relação se dê na horizontalidade, entre iguais, o que não é o caso de um guru com sua ou seu discípulo.

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