Os fins não justificam os meios: os caminhoneiros e o Brasil

            Os caminhoneiros do Brasil decidiram parar, em protesto pelo preço excessivo do óleo diesel, pela volatilidade dos preços reajustados todo o dia segundo a cotação do dólar e do barril de petróleo, e pela cobrança de pedágio nas estradas de um terceiro eixo suspenso. E passamos a ver, por toda parte, manifestações de apoio aos caminhoneiros, e muitas outras categorias profissionais também protestaram: motoristas de aplicativos, de vans, petroleiros, motoboys, etc. Penso que grande parte deste apoio veio em função de alguns poucos fatores comuns: o desalento com os políticos mergulhados num mar de corrupção; o Governo fraco, impopular e terminal de Temer; a profunda crise econômica, com seus reflexos no desemprego, no empobrecimento da população e na precária situação dos serviços básicos sociais; e por fim a revolta contra ações e propostas do Governo Temer, como a Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência (não viável por enquanto), a nova política de preços da Petrobrás em relação aos combustíveis, e os subsídios fiscais de um trilhão de reais dados às petroleiras estrangeiras. Se não fosse este caldo de momento, provavelmente a população teria uma outra atitude diante da greve dos caminhoneiros.

Cabe lembrar que, por volta de apenas 30% dos caminhoneiros parados eram caminhoneiros autônomos, ou seja, os demais eram motoristas de grandes transportadoras, e que só aderiram à greve porque tiveram o apoio e o incentivo dos patrões, já que as empresas transportadoras poderiam facilmente demitir os motoristas grevistas e contratar outros. Uma greve provocada e mantida por patrões de grandes empresas sempre leva em conta o interesse de alavancar o lucro dos patrões, já que seus empregados são assalariados, com salários não afetados pelo custo do frete. Portanto, a justiça da causa tinha uma dimensão bem mais restrita que a greve em si.

De outro lado, o Brasil vive uma profunda crise de valores, pois os meios não justificam os fins, e os interesses e direitos individuais e de grupos não podem se sobrepor aos interesses coletivos. Em muitas democracias do mundo, como nos EUA, o protesto e as manifestações são livres, o direito de greve é garantido, mas absolutamente ninguém e nenhum grupo pode bloquear ruas ou estradas. Quando manifestantes nestes países fazem bloqueios, independentemente do grupo ou da causa em jogo, imediatamente a polícia intervém desbloqueando as vias e prendendo, se necessário, todos os que insistem com o bloqueio. O direito de greve não pode se sobrepor ao direito de ir e vir e, assim como há direito de aderir à greve, existe também o direito de não aderir a ela. Grevistas de qualquer categoria profissional podem cooptar, pacificamente e no convencimento, seus pares para aderirem à greve, mas não podem obrigá-los. Vi na TV grevistas cortarem os cabos de uma carreta para ela não poder seguir, obrigando o motorista que queria trabalhar a abandonar sua carreta em plena via. Isto é crime, não é digno de trabalhadores que mereçam ser chamados como tal.

Os argumentos acima não são indícios de uma ideologia direitista, pelo contrário, sempre fui e continuo sendo alguém de centro esquerda. Não sou contrário às greves, muito pelo contrário, fui líder sindical e dirigente do maior sindicato de meu Estado. Mas quando fazíamos greves, não bloqueávamos o trânsito durante passeatas, não impedíamos os colegas que quisessem trabalhar furando a greve e, o que mais simbólico, quando nos retirávamos de um acampamento de protesto na praça, pagávamos uma empresa de paisagismo para recuperar os danos ocasionais feitos na praça. Naquela época, anos 80, nós trabalhadores, lutávamos contra uma ditadura assassina, mas com ética. É indignante a corrupção que crassa no país, principalmente junto à classe política, mas se queremos lisura e honestidade de nossos políticos, também temos de ter uma moral ilibada.

Fazer greve supõe também uma pauta clara e explícita de reivindicações, assim como a indicação, por parte dos trabalhadores, de quem são seus representantes, escolhidos para negociar suas demandas. Greves com pautas abstratas e vagas, com reivindicações múltiplas de diferentes subgrupos, e sem lideranças representativas, que possam refletir nas bases suas negociações, são um indício de desorganização e bagunça.

O país ficou um caos, a população como um todo saiu prejudicada, a própria economia, já recessiva ou com crescimento pífio, piorou com os efeitos da greve sobre a cadeia produtiva, distributiva e de consumo. Os combustíveis subiram de preço nas bombas devido à escassez, faltaram insumos básicos. Supermercados ficaram com falta de produtos, hospitais ficaram sem oxigênio, sangue, médicos, cirurgias foram suspensas, paciente em hemodiálise ficaram em risco de morte. Animais ficaram sem ração, estações de água ficaram sem os químicos para purificar a água usada pela população, os pobres ficaram sem transporte público, aviões sem combustível obrigaram o cancelamento de voos. Escolas e universidades fecharam, milhões de litros de leite foram jogados fora (num país em que há subnutrição). Enfim, o interesse público ficou extremamente atingido, e isto é inadmissível. Quando setores essenciais fazem greve, como na saúde por exemplo, precisam garantir a manutenção das emergências, sob pena de serem responsabilizados pelas mortes ou prejuízos aos pacientes.

Em resumo, os grevistas e o Governo erraram, por não garantirem os direitos básicos da população brasileira, feita refém de uma categoria profissional. A causa é justa, a greve é um direito, mas não é um cheque em branco que permite tudo: a liberdade tem limites e democracia não é sinônimo de bagunça. Caminhoneiros, não se ganha prejudicando neste nível a população: nós também temos direitos!

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