Onde está a poesia?

 

            A pergunta título tem, na sua ausência em nosso mundo pós-moderno, um sentido descritivo do que nos transformamos. O romantismo, que outrora era parte indissolúvel da civilização ocidental e sua cultura, desapareceu quase por completo. A ênfase romântica nos sentimentos em vez da razão foi transformada na ênfase nos instintos básicos, o amor foi reduzido ao sexo, o pão de cada dia transformado em ganância por riquezas, a sofisticação da elegância virou ostentação, o refinamento de como agradar ao ser amado e seus ritos deu lugar a uma troca superficial de favores e interesses, tudo fugaz e sem fundamento ou propósito.

            Na sociedade pós-moderna os poetas estão passando fome, as editoras não publicam poesia e os leitores não mais a leem. No cinema, a narrativa lenta com fotografia de esmero estético, que dava tempo para sentirmos e pensar no que sentíamos desapareceu. Ninguém hoje quer pensar, respirar entre uma cena e outra e, o que é pior, quer tudo mastigado, direto, sem requinte e metáforas. A morte da poesia é a morte das metáforas. Os cérebros jovens, hoje, não mais buscam o sentido oculto, o segundo significado, o que está por trás, só veem o que aparece e salta aos olhos, ou melhor, só escutam o que grita e ensurdece, não mais os murmúrios e sussurros.

            A literatura e a música transformaram-se em modismo descartável, todos leem e escutam e veem o mesmo, de modo a poderem comentar com o círculo de suas relações de amizade, uma amizade superficial e feita de pequenas tribos e interesses comuns, e só. Todos postam fotos na internet sobre o que viram, ou melhor, sobre o que viram através do visor da câmera de seus celulares porque quem fotografa e tuita e navega enquanto vê, em verdade não vê. Muitos dão as costas ao palco para fotografar-se com o espetáculo ao fundo, ou seja, dão as costas ao espetáculo, ofendendo o artista que lá está: é mais importante mostrar que se viu que ver, o parecer é mais importante que o ser.

            Pode parecer que este texto seja o de um velho ranzinza, ignorante das novas tecnologias e deslocado entre os jovens, e em parte talvez o seja. Mas também este texto pretende fazer refletir sobre alguns aspectos de nosso viver contemporâneo, protestando contra os que matam a poesia, tentando resgatá-la. E junto com ela o amor, a amizade sincera, os gestos de carinho e seus rituais, em suma, a autenticidade e a metáfora. Quero rimar amor com flor, amizade com cumplicidade, coleguismo com companheirismo, e fazer germinar novamente a semente da gentileza, do cavalheirismo, da solidariedade, da filantropia e, principalmente, da educação refinada, que respeita os outros e a natureza, que percebe o que as pessoas em volta são e necessitam. É preciso querermos ajudar, melhorar o mundo, nos tornarmos melhores, e isto supõe olhar o pôr de sol no rio, cheirar o perfume das flores, ver o brilho das estrelas e a palidez da Lua. Enfim, necessitamos de mais poesia, de modo a sermos a metáfora viva do belo e do bom.

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