Olhos nos Olhos

            Quando a minha cadela maltês me olha, com seus olhos negros e tristes, ficamos os dois, olho no olho, tentando entender o que cada um está pensando. O olhar penetra e acentua a questão da comunicação. Mas considerando que um cão é um ser animal, movido por instintos, sua capacidade de pensar deve ser restrita a questões essenciais e comandos básicos, como, por exemplo: será que ele vai devolver o osso que tirou de mim? Será que vai me levar para passear? Eu quero comida! Será mesmo que os cães, satisfeitas as necessidades básicas, estão felizes? Se isto é assim, por que nós, os humanos, que somos supostamente mais inteligentes, não conseguimos ser felizes nas mesmas circunstâncias? Há também a hipótese de que os cães sintam como nós humanos, ou seja, tenham momentos de angústia, vazio existencial e tédio, e talvez seja isto que eu vejo às vezes nos olhos tristes de minha cadelinha.

            Nós humanos falamos, e quase não nos olhamos olho no olho. Mas um dia vivi a experiência de um Sessin, um retiro de budismo Zen, da Escola Sotô, em que se fica convivendo com um grupo de pessoas durante dias, comendo, dormindo e meditando oito horas diárias, mas tudo em silêncio, sem trocar palavras. A questão não é a proibição, porque ninguém é castigado se quebra a proposta em algum momento, mas a comunicação silenciosa. É extraordinário e, ao mesmo tempo, maravilhoso, perceber que a comunicação silenciosa tende a ser mais íntima que a feita de palavras. Quando não temos o suporte da fala para nos comunicarmos, instintivamente usamos mais os gestos e o olhar, olhamos olho no olho, e isto faz a diferença. É incrível percebermos que as palavras não fazem tanta falta, e todos sabemos que muitas vezes elas atrapalham mais do que ajudam, e que podemos nos sentir mais íntimos no silêncio. É um efeito semelhante ao da luz de velas. Lembro de uma aula de francês em grupo quando faltou luz, e a aula transcorreu à luz de velas, e foi a aula mais interessante dentre todas, porque os papos passaram a ser mais íntimos, sinceros, naturais, e não aquela fala estereotipada e polida das relações sociais formais.

            Tais considerações fazem com que eu pense, às vezes, que o olho no olho com minha cadela supõe uma intimidade que permite uma espécie de telepatia. É o equivalente a vivermos anos ao lado de alguém, de modo que, ao pensarmos algo, sem verbalizá-lo, o outro como que capta no ar e fala sobre a ideia sem que a tenhamos externado, pelo menos por palavras. Freud diz que a intuição parece um pensamento instantâneo, imediato, mas que no fundo é um raciocínio mediado no inconsciente, pois preocupações ou questões que nos ocupam são trabalhadas inconscientemente durante períodos até bastante longos e, repentinamente, aparecem na consciência como uma lâmpada que se acende, uma ficha que cai, um insight momentâneo.

            Assim, voltando aos olhos dos cães, talvez não sejam completamente diferentes dos olhos humanos, mesmo que seja verdade de que os cães enxergam em preto e branco e, suponho eu, devem formar imagens olfativas muito fortes, que talvez se mesclem com suas percepções visuais e auditivas. Ao olhar os olhos de minha amada, olho no olho, nem sempre consigo captar suas angústias e pensamentos, mas certamente é fácil perceber quando há algo que precisa ser dito, ou quando há algum sentimento ainda não compartilhado. Sempre pensei que dificilmente eu seria traído sem perceber, porque quando se presta atenção, quando se olha olho no olho, como que penetramos na mente do outro e nos tornamos capazes de pensar o que estão pensando.

            Favor os ciumentos malucos não usarem o que escrevi como desculpa para tecerem fantasias de traição inexistentes. Os ciumentos em geral são egoístas e possessivos, consideram-se donos do outro e se sentem feridos quando o outro deixa de amá-los ou passa a amar a outrem, mas não percebem, como se diz, que “o ciúmes é proporcional à capacidade de traição”. Os doentiamente ciumentos no fundo não sabem amar, pois quem transforma rapidamente amor em ódio não ama de verdade, ou melhor, “ama” o outro cego por seu narcisismo, e por isto ficam transtornados e fantasiando justificativas para as suas agressões gratuitas e sádicas.

            Em outras palavras, pensar na cabeça de outro só consegue quem pensa com sua própria cabeça, aqueles que se deixam levar pelos preconceitos e padrões sociais de conduta e valores não serão capazes de tomar decisões maduras e altruístas. Quem ama perdoa, ou pelo menos é capaz de amar a ponto de liberar o outro a tomar um novo rumo, segundo sua escolha e sentimento. Neste sentido eu “amo” a minha cadela, porque me dedico a ela exigindo muito pouco em troca, respeitando suas necessidades, instintos, personalidade e limitações. Daí que quando olho nos olhos negros dela fico tentando penetrar em sua cabeça, intuindo o que quer e sente: será que ela sabe que é um cão? Quem sabe ela se pensa humana? E nós, que nos sentimos humanos, será que não percebemos que somos também animais? E como tal precisamos atender nossos instintos e também sermos adestrados, porque a vida em sociedade e a racionalidade que desenvolvemos nos exige instintos sob controle. E quando a besta nos domina, ficamos com olhar vidrado, vendo as coisas através de nosso ódio, incapazes de nos comunicarmos de modo racional, incapazes de ver olho no olho o outro que nos olha, a alma que habita dentro, cheia de amor, e que só precisa de um olhar de assentimento para sair pra fora, à luz. Hoje, façam um teste, olhem nos olhos dos seres que amam, e observem o que acontece, deixem fluir, só isto.

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