O Véu de Maya

             Quando a filosofia Vedanta afirma que a existência material é uma ilusão, não o faz dizendo que a matéria não existe, e sim que não a vemos em sua verdadeira natureza. Não precisamos de filosofia ou religião para entendermos isto, porque a ciência nos explica de modo incontestável, ou melhor, o demonstra experimentalmente. A Mecânica Quântica descreve um mundo de partículas infinitesimais que se comportam aleatoriamente, mas que, se mostram num sistema ordenado e visível quando sob o nosso olhar. Assim sabemos que tal ou qual realidade é uma construção de nossa mente, ou melhor, que o real não se opõe ao ideal, porquanto as partículas “pensam”, em outras palavras, trocam informações, como nós. Assim, se em cada parte está o todo ou se o todo está em toda parte, isto significa que somos ínfimos e gigantescos, David e Golias simultaneamente. Mas faço tais digressões pensando no meu cotidiano, feito de gestos, ações e intenções determinados no espaço-tempo, objetivo e subjetivo. Sou dono de minhas decisões e escolhas, mas não controlo as circunstâncias, nem posso fugir das leis da natureza. Assim, existimos em parte a deus dará, jogados pela sorte probabilística.

            O meu mundo é uma ilusão, mas eu também o sou, e a negação de mim, a morte, sob certo prisma também não deixa de ser um fantasma vazio. Sei que vou morrer, mas isto me faz gostar mais da vida, e agradecer por estar vivo é um modo de vivenciara a ilusão de Maya, ou seja, de não sofrermos com a ignorância primordial, que nos fez criadores de mundos e “verdades”. Espiar para além do véu de Maya nos transforma, nos faz ver que a vida é feita principalmente das pequenas coisas e gestos, e que estar em paz consigo mesmo e ser compassivo com o sofrimento alheio é a melhor forma de viver. O mais é o esforço de entender todos os mistérios, de se manter lúcido, aberto ao novo, à inovação e ao descobrimento. Cada tempo é um, e cada um é reflexo de seu tempo. Mas há um quê de humano na perspectiva da eternidade, que está além da ilusão, que nos revela como luz e divindade. Sou grato à capacidade de ter consciência das miragens, de poder perceber o que é sonho e o que é realidade. Ou melhor, sou grato de saber que a realidade é um sonho, e de que os sonhos são reais enquanto nos retratam e revelam. O universo é isto: o mistério de ser. Nós somos isto: o milagre da vida. O mais é seguir em frente, sorrindo, pois nada melhor que um novo dia de sol.

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