O Sorriso Amarelo

Nada representa melhor nossa vida do que o “riso amarelo”. Amarelo não porque é uma obra de Van Gogh, mas porque o que mais fazemos na vida é engolir em seco, dar a volta por cima e sorrir amarelo, como que dizendo: que fazer? Não que nada possa ser feito, sempre fazemos tudo o que é possível, mas nem tudo está ao nosso alcance, por exemplo, a opinião pública predominante, refletida nos políticos escolhidos pelo voto e que exercem o poder, e a mídia que faz o jogo dos fortes. Como vivemos numa era de extremos, fica cada vez mais difícil o diálogo, o consenso, o entendimento, por isto se diz que a democracia está em risco.

Mas o riso amarelo é também a resposta ao fato de que os privilegiados sempre escapam, no sentido de que conseguem manter seus privilégios, ou seja, nem sempre o bem é recompensado. É triste concluirmos que a mentira tem pernas longas, por exemplo, foi feita uma reforma trabalhista na promessa de que a retirada de direitos trabalhistas era o preço que os trabalhadores teriam de pagar para que fossem gerados milhões de empregos. Foi feita a reforma, e o desemprego não se alterou, continua estratosférico. Agora dizem que a reforma da previdência salvará a economia nacional, mas ninguém combinou com os adversários, ou seja, nada garante que tal reforma traga de volta investimentos estrangeiros e nacionais ao país. E o que faremos se a reforma da previdência ocorrer e a economia continue estagnada? Provavelmente esboçaremos um sorriso amarelo.

Enquanto isto, aumentam os venenos que consumimos na comida cotidiana, e uma ministra do governo que aí está assumiu que a carne de frango rejeitada pelo Reino Unido, por conter salmonela, foi colocada no mercado interno para que os brasileiros a consumissem. E teve a cara de pau de dizer que a salmonela contida nela não era de um tipo que fizesse mal à saúde. Resta saber se a ministra comeu os frangos da marca devolvida, certamente não.

Enquanto isso, gastamos milhões pagando salários de juízes corruptos “punidos” com aposentadoria compulsória. Pagamos ainda auxílio moradia para quem tem moradia e quando somos os sem moradia não recebemos auxílio algum. Sem falar da educação, que está na lanterna dos rankings mundiais, e mesmo assim tem corte de recursos. Ou da política externa, que debocha dos países estrangeiros que nos auxiliam com verbas para a preservação do meio ambiente através do Fundo Amazônia, enquanto o desmatamento no país cresce 77%. Mas é preciso sorrir, porque seremos parceiros da OTAN, o que nos dará acesso à compra de armamentos com preços melhores. Pena que o meu sorriso seja amarelo!

Por fim, sorrimos amarelo quando vemos que um pseudo-herói, que teve segmentos expressivos da população saindo às ruas em seu apoio, e que, como juiz “imparcial” que julga ações levando em consideração acusação e defesa, estava atuando na surdina como um auxiliar ou comandante do Ministério Público. E que pensar de supostos corruptos hoje presos que, mesmo provavelmente sendo culpados, não tiveram um julgamento justo, considerando a fraqueza das provas e o vício do processo? Que pensar de ações criminosas que mudam os rumos da história? Isto é politicamente válido e correto? Ou o politicamente correto hoje é o que é considerado abjeto e absurdo? E frente a isso, só resta mesmo é um sorriso amarelo.

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