O que um cão nos ensina

             Após relutar por anos, eu e minha esposa optamos por adotar uma cadelinha maltês. Deixando de lado o seu aspecto fofo, de “bola de pelos”, vi que conviver com seres vivos, compartilhando espaços, é um grande desafio, e enfrentá-lo traz grande aprendizado. Como filhote ela está descobrindo o mundo e brincando com tudo e a todo momento, ao mesmo tempo em que necessita ser educada.

              1º desafio: lidar com o seu lado instintivo, de agredir ou fugir quando se sente ameaçada, e protestar quando se sente presa. É difícil condicioná-la a fazer necessidades no lugar adequado, não morder cordões de sapatos e barras de vestido e calças, não afiar seus dentes nos móveis, ficar calma em seus deslocamentos de carro, e aquietar-se para dormir quando chega a hora. O seu instinto de cão de vez em quando a transforma num gremlin, pois o anjinho que pede colo e lambe, transforma-se num diabinho que rosna, morde, arranha, ataca e, às vezes, machuca, mesmo que de brincadeira. Cotidianamente ela morde seus brinquedos, e todo e qualquer objeto que se atravesse em seu caminho, enquanto corre enlouquecida de um canto a outro. Isto desperta em mim meu lado diabo e fera, manifesto na vontade de esganá-la. É claro que eu seria incapaz de fazer isto, tenho super-ego e autocontrole, educação e valores nobres – humanismo, ecologismo e pacifismo – enfim, sou do bem e amo tal bichinho. Porém, me incomoda ver que, mesmo sendo do bem, o mal existe dentro de mim, e perceber que podemos amar e odiar simultaneamente um mesmo ser, o que é próprio do humano.

             2º desafio: compreender e fazer-se entender, já que a comunicação entre nós carece da linguagem falada, no caso restrita a algumas palavras de comando: não, senta, pega, vem!… Mas tal limitação não me poupa de olhares recíprocos de incompreensão e estranhamento: que será que ela quer, pensa e sente? Por que ela não me entende? Entre os humanos não é diferente, pois muitas vezes nos desencontramos, como se falássemos línguas incompreensíveis.

             3º desafio: o estar junto, a rejeição e o abandono. O cão é um animal de matilha, que quer estar junto, compartilhando. Nós, humanos, queremos de um lado o grupo social e a companhia da pessoa amada, mas ao mesmo tempo necessitamos um certo isolamento periódico, para estarmos conosco mesmos. E compatibilizar interesses conflitantes sempre é desafiante.

             4º desafio: ser responsável sem stress. Quando cativamos um bicho ou alguém, como já apontara Exupèry, nos sentimos responsáveis por ele. Porém, isto traz saudade, preocupação, e sentimento de culpa pelo abandono ou pela rejeição, enfim, nos obriga a lidarmos com nossa consciência do outro. Seria o outro o meu inferno, no dizer de Sartre? Ou fonte de felicidade, se objeto de meu desejo e egoísmo?

             Em suma, ter um animal de estimação é um constante desafio por exigir-nos reflexão e superação. Ter filhos e filhas é, portanto, também desafio e superação, de modo equivalente e engrandecido. Com isto crescemos, aprendemos e vivemos mais intensamente, com escravidão ou liberdade.

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