O Mundo dos Sonhos

            Quando Freud publicou sua “Interpretação dos sonhos”, fez um levantamento comentado de tudo o que havia sido escrito sobre o tema até então, para depois acrescentar sua teoria, que viria a servir de base a outras interpretações. Particularmente prefiro a interpretação de Carl Gustav Jung, pois sei que os símbolos que aparecem em sonho não são apenas um disfarce de algo que está atrás, mas possuem significados em si mesmos. Sei também que o inconsciente é mais rico e vasto do que a psicanálise ortodoxa faz supor, e minhas noites com sonhos são uma prova disto. Apesar do que, Freud tinha razão ao demonstrar que a imensa maioria dos sonhos são meros reflexos de momentos do dia, quando estávamos em vigília, e vimos imagens, pensamos coisas, escutamos vozes e seus significados, de modo que há também no inconsciente muito lixo a ser deletado, o que os sonhos também fazem.

                Mas há os sonhos que sonhamos acordados, o que nem todos conseguem transformar em metas, buscando plasmar a realidade. Na meia idade tendemos a olhar para trás e fazer um balanço dos sonhos que tínhamos e do que alcançamos de fato. Mas também olhamos para a frente, vendo o tempo que nos resta e o que é possível ser feito nele. Daí o desafio de mudar, assumir um outro rumo. Nesta hora muitos trocam de profissão, emprego, cônjuge, cidade, optando por arriscar em vez de ficar sonolento na segurança do já estabelecido. Estes terão uma velhice mais saudável, diz Jung, pois mesmo que não consigam, tentaram, fizeram a vida valer a pena, enquanto que os demais não quiseram correr o risco, e podem padecer arrependimentos e frustrações.

                Há também, com o passar dos anos, uma certa adequação à realidade, no sentido de que mudamos o modo de pensar e ver as coisas e, consequentemente, também mudamos o nosso querer. E coisas que pareciam desejáveis já não despertam mais nossa disposição, enquanto que outras vão ocupando espaços cada vez mais nobres. Vejo também uma tendência de passarmos a valorizar até coisas que odiávamos, de modo a buscar um certo clima de apaziguamento diante do mundo e das pessoas, ou como afirmam os jungueanos, incorporamos em nós nossa sombra, nossa anima/animus até chegarmos num Self de totalidade: nada mais nos é estranho, dentro somos toda a humanidade, tudo tem a ver conosco.

                Quando perguntamos a uma criança: que queres ser quando crescer? – apontamos para a ideia de que a profissão ou atividade são definidoras do que somos. Mas quando adultos nos damos por conta de que o que fazemos e nossa profissão é apenas um pedaço, o ser que somos é muito mais, supõe mais como reagimos, como sentimos, como pensamos e o que pensamos e, é claro, como atuamos, o como e não no que atuamos. O modo de agir é como repercutimos no mundo, são as pegadas que deixamos na estrada percorrida, são as plantas que desabrocham das sementes semeadas. Em outras palavras, o amor que colhemos nos diz quem somos frente aos demais, quem lembrará de nós quando nos formos.

                Esta noite eu tive um sonho, na vida tive muitos, e ainda continuo tendo, e o que é incrível, ainda continuo correndo atrás de alguns. Se assim não fosse, a vida não teria a graça que tem, o colorido do novo, a surpresa do instante, e não nos ensinaria a paciência, a perseverança, a esperança, todas as coisas perenes e que nos ajudam a subir e até a cair com sabedoria. Esta noite  eu tive um sonho, depois eu conto.

 

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