O Legado de Marx

Hoje, duzentos anos após o nascimento de Karl Marx, ainda cabe escrever sobre marxismo. Como escreveu Jean-Paul Sartre, “o marxismo é a cultura do século XX”, portanto, fica praticamente impossível compreender o século passado sem o referencial marxista. Mas não é só isto. Em pleno século XXI ainda o marxismo é um referencial, não só pela sobrevivência de comunistas de todos os matizes, ainda lutando contra o capitalismo e tentando a revolução sonhada; mas porque muitos conceitos de Marx, mesmo atualizados, não perderam de todo a sua pertinência e importância, ainda mais frente ao neoliberalismo e ao neofascismo contemporâneos. Isto sem falar de que o comunismo real sobrevive, de modo adaptado, alterado e até caricato, em países como Coréia do Norte, China, Cuba, Vietnã e Laos, e ainda vários países com governos comunistas, entre os quais Sri Lanka, Venezuela e Nepal.

Apesar de Marx ter ficado ultrapassado, como seria esperado de um pensador de duzentos anos atrás, não ficou completamente. Prefiro imaginar Marx como um médico que faz um diagnóstico e prescreve um tratamento. Marx acertou em cheio no diagnóstico e, pode-se dizer, que errou redondamente na prescrição do tratamento.

O diagnóstico dele é a crítica que fez do capitalismo, considerado uma doença, por fundar-se na exploração da mão de obra proletária pela classe burguesa, detentora dos meios de produção, do capital privado e do poder de Estado. Para Karl Marx, a exploração no capitalismo se dá através da mais-valia, que é a diferença entre a produção e o custo dos salários. Em outras palavras, o trabalhador produz riquezas que não tem acesso, apropriadas que são pelos capitalistas. Acertou Marx quando percebeu que no capitalismo, com o crescimento da economia e das empresas, se dá uma taxa decrescente de lucro, obrigando ao aumento da mais-valia, o que pode ser feito de várias maneiras. Ou através do achatamento salarial ou aumento das horas trabalhadas (sem a remuneração correspondente), ou através do aumento da produtividade (outra forma de aumentar a exploração), ou ainda através do enxugamento dos custos de produção. Acertou também quando mostrou que o capitalismo levava à concentração da renda (errou quanto a isto em relação ao campo, como demonstrou Kautsky), pois ainda hoje os países capitalistas vêm aumentando suas riquezas, fazendo os ricos mais ricos, sem retirar da pobreza os mais pobres. Acertou ainda quando defendeu que o capitalismo enfrentaria sucessivas crises, mas errou quando pensou que tais crises seriam crescentes, levando à derrocada do capitalismo e à ascenção da sociedade comunista, via revolução armada.

Errou Marx feio em relação à proposta de solução do problema capitalista. Pregou uma revolução armada para derrubar a classe burguesa dominante, de modo a implantar uma “ditadura do proletariado”, ou seja, um Governo policial e forte que possa abolir o capital privado, estatizando as terras e fábricas (meios de produção) e o sistema financeiro (bancos). Sem capital privado não haveria burguesia capitalista e, na concepção de Marx, assim acabaria a exploração da mão de obra, os trabalhadores trabalhariam para o Estado Socialista e seriam justamente remunerados, ganhando acesso aos produtos de seu trabalho, acabando a miséria e a pobreza. Doce ilusão! Marx não acabou com o capital, apenas o estatizou, e assim a exploração continuou desta vez feita pelo Estado Socialista. Quando a extinta URSS direcionava metade de seu PIB para a corrida armamentista e espacial, fazia isto com o excedente da exploração da mão de obra dos operários e agricultores. Quando o sindicato solidariedade na Polônia fazia greve, eram trabalhadores protestando contra o patrão Governo, ou seja, contra o Partido Comunista. Daí que, distorcido, o comunismo real produziu gulags, extermínios em massa e outros absurdos e desvios em nome da classe trabalhadora. Por isto soa ultrapassado e contraditório que, numa democracia ocidental, possam disputar eleições partidos ditos marxistas, ou seja, que defendem revolução armada e ditadura, o que se opõe a um sistema democrático, com liberdades individuais e respeito aos direitos humanos.

Marx não percebeu também que, com medo da revolução comunista, o capitalismo terminou por fazer concessões que melhoraram a vida da classe trabalhadora. Hoje, na sociedade pós-industrial, os trabalhadores não vivem mais a alienação econômica, possuem acesso ao lucro, assim não querem fazer revolução e virar a mesa, querem, pelo contrário, progredir dentro do sistema capitalista. Um operário do ABC paulista, por exemplo, tem carro, casa própria, filhos na universidade e frequenta shoppings. Mas se o capitalismo incluiu o trabalhador qualificado, manteve na miséria ou na extrema pobreza os excluídos do sistema. Hoje, no Brasil, há um discurso marxista torto que considera vanguarda revolucionária os sem educação, sem saúde, sem teto e sem terra. Para Marx os excluídos são marginais, não proletários, e para ele, marginal não faz revolução. Daí que a nova esquerda vai colocar no lugar do proletariado revolucionário as minorias do capitalismo: negros, índios, estudantes, GLBTs, imigrantes e outros segmentos.

O marxismo também sobrevive nos seus derivados, como são a social democracia alemã, o socialismo democrático francês e o trabalhismo inglês. A centro esquerda percebeu que burgueses e proletários podem convergir num pacto em prol do desenvolvimento econômico e social, baseado na democracia política. Isto é Marx na aspiração de uma sociedade (mesmo que capitalista) menos desigual, na busca de fazer-se justiça social dando à classe trabalhadora uma vida digna e próspera, evitando a excessiva e perniciosa concentração de renda.

Países em desenvolvimento, como o Brasil, com o primeiro e o terceiro mundo dentro de suas fronteiras, simultaneamente, terão de enfrentar o desafio de crescer com distribuição de renda. Pois excluir os desfavorecidos é uma trava ao desenvolvimento, só enfrentando a miséria e a pobreza, dando educação, segurança e saúde ao povo, se pode acreditar no progresso. Que consigamos enfrentar tal desafio, de modo a deixar aos nossos netos um país menos desigual e injusto. E ter consciência disto significa, ao menos em parte, reconhecer o legado de Marx.

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