O Eterno Feminino

                Como avançamos em nossa democracia e nos direitos humanos, todos temos de nos ater, por mandato de consciência, ao politicamente correto, o que inclui a admissibilidade da igualdade plena de direitos entre homens e mulheres. Entretanto, isto não exclui a constatação científica e popular de que homens e mulheres são seres diferentes em seus modos de sentir, pensar e ver o mundo. E, mesmo sabendo que toda e qualquer generalização é prematura e desviante da verdade universal, mesmo admitindo que existem homens e mulheres que se assemelham em seus modos de sentir e pensar ao seu gênero oposto, pode-se dizer que predominam as diferenças entre um e outro. Vejam, escrevo diferenças, mas sem incluir nenhuma noção de hierarquia entre um modo e outro de ser, simplesmente os gêneros são diferentes porque seus cérebros e hormônios não funcionam da mesma maneira. E como são as mulheres?

                Eu sou apaixonado pelo eterno feminino, talvez porque, segundo a concepção de Carl Gustav Jung, eu seja um homem que se individualizou bastante, ou seja, que incorporou em seu modo de ser sua ânima, o arquétipo feminino que mora no interior dos homens. Ou seja, segundo Jung, para sermos completos, homens e mulheres, devemos atingir o androginado psíquico, que não tem nada a ver com homossexualidade, e que é reconhecermos e sabermos lidar com nossa contraparte de outro gênero. E, se não lograrmos fazer isto, não saberemos respeitar, compreender e atuar em consonância com as demandas e expectativas do sexo oposto. Mas retomando: como são as mulheres?

                Segundo a vida tem me demonstrado, as mulheres são seres extremamente sensíveis, mesmo quando por fora parecem rochedos duros e insensíveis, em geral a frieza e dureza externa esconde uma fragilidade interna, e elas usam isto como estratégia de defesa para terem sucesso nos ambientes predominantemente masculinos. E como são sensíveis, admiram homens que também o são, e se emocionam com pequenos gestos de afeto e compreensão, cada vez mais raros neste mundo estressado da pós-modernidade. Como são sensíveis, são carentes de amor, daquele amor que o sexo sem compromisso não preenche. Não se trata de um compromisso no sentido institucional, de noivado, casamento e constituição de família, mas de compromisso no sentido de, como escreveu Saint-Exupéry, nos sentirmos responsáveis por quem seduzimos. Isto significa saber dar colo, abraço, fazer gestos de carinho, saber ouvir, já que as mulheres precisam falar de si e seus problemas, necessitam abrir-se e sentir-se acolhidas e compreendidas, o que os homens têm dificuldade de corresponder.

                Por serem extremamente sensíveis, sob o olhar masculino, as mulheres tendem a exagerar e dramatizar as coisas, engrandecendo questões que parecem aos homens ridículas e pequenas. Mas quando os parceiros homens demonstram incompreensão e desprezo pelas questões que lhes sejam trazidas, despertam nas suas mulheres mágoa, ressentimento e revolta. E, devido à grande capacidade de se sentirem feridas, é comum que grandes amores possam transformar-se em grandes ódios, pois os corações femininos traídos e feridos custam a cicatrizar. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres possuem uma grande capacidade de perdão, exercitado pelo amor maternal que despejam sobre os seus filhos, em outras palavras, todas as mulheres possuem um lado mãe, no sentido de serem capazes de acolher e proteger aqueles que amam ou admiram.

                O cérebro feminino é mais holístico, ativa mais zonas de massa encefálica para fazer ou sentir as mesmas coisas que os homens, daí a capacidade de fazer mais coisas ao mesmo tempo, frente à dificuldade masculina de desvincular-se daquilo em que estão concentrados para prestar atenção a outra coisa. Assim, as mulheres, muitas vezes sentindo-se não escutadas pelos homens, precisam que estes as olhem enquanto elas lhes falam, e interajam com suas opiniões e sugestões, mesmo que não tenham sido provocados por perguntas explícitas.

               As mulheres são mais comunicativas que os homens, e por isto carecem de muita vida social, daí um sentimento de infelicidade quando se associam a homens ciumentos e controladores, que lhes cerceiam a liberdade. E aqui reside o pior do machismo, o sentimento masculino de posse de suas namoradas e esposas, que lhes faz sentirem-se feridos em suas honras quando rejeitados e abandonados, dando-lhes a inclinação para a violência doméstica, quando não chegando ao cárcere privado e ao crime passional. Há também um machismo menos explícito, mas não menos desprezível, é aquele em que os homens se acham no direito de fazer piadas e assediar suas colegas de trabalho, ou de considerarem as mulheres menos merecedoras de promoção e valorização profissional.

                Na pré-história, provavelmente na fase em que os humanos eram coletores e caçadores, as sociedades coletoras produziram matriarcados e as de caçadores patriarcados, porque em geral o gênero que traz o alimento à tribo é que é valorizado. Hoje, o dinheiro é o equivalente do alimento, daí a dificuldade masculina de pagar salários iguais às mulheres, pois isto implicará na igualdade plena entre os gêneros. Assim, também fica explícito que a independência feminina passa pela independência financeira das mulheres, que necessitam não mais depender de seus homens. Nesta fase pré-histórica matriarcal, os deuses eram deusas e os sacerdotes eram sacerdotisas, depois gradativamente uma religião masculina veio a substituir a esta religião originária das feiticeiras. Depois disto, gradativamente passou-se à poligamia, depois com uma esposa principal até chegar na monogamia, feita sob medida para os homens, que tinham liberdade sexual plena enquanto o adultério feminino era punido com a morte.

                Hoje vejo mulheres galgando espaços na política mundial e vejo homens enfraquecidos diante de um feminino cada vez mais forte. No geral estamos marchando a um mundo mais igual, com menos desigualdade e injustiça, o que é promissor. Mas até que este futuro chegue temos muito ainda por fazer, principalmente nos países sem democracia, com mais desigualdade, e em terras dominadas pelo obscurantismo religioso, como nos países islâmicos que, mesmo quando desenvolvidos e modernos, não conseguem dar igualdade de direitos às suas mulheres.

                Enfim, mulheres podem ser boas e más, sinceras e falsas, bonitas e feias, como os homens, mas elas conseguem ser iguais de um modo sutilmente diferente. O feminino atrai, seduz, encanta, deixa uma magia no ar, como se algum mistério subsistisse. É que o aspecto feminino de Deus, antes de ter rosto, tem ventre e coração, o próprio planeta Terra é como a Grande Mãe, que nos gera, alimenta e recebe de braços abertos. Todos temos a aprender com o Eterno Feminino, pois enquanto não deitarmos no regaço da terra prontos para a entrega, é porque ainda não nos tornamos completamente adultos, crescidos, conscientes de nós mesmos, cientes de nosso dever. Finalmente é o feminino que, sob a forma de fogo, sobe como serpente pela coluna vertebral, acendendo os nossos centros energéticos e vitais, enchendo-nos de luz, inteligência e paz.

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