O Egoísmo do Sujeito

            Jean-Paul Sartre retoma a ideia de Edmund Husserl de que “toda consciência é consciência de alguma coisa”, afirmando que a consciência é, em si, o não-objeto, um vazio, um nada. Para Sartre, do mesmo modo o sujeito é somente frente a um objeto ou a um outro sujeito. Porém, os outros não são sujeitos, são tomados por mim como objetos, são meros objetos de meus interesses, conhecimento e intenções. Assim, somos uns dos outros meros objetos, o homem coisifica o próprio homem.

            Entretanto, deste modo pode-se concluir que o sujeito em si não existe, ser alguém supõe ser por outros ou para outros, ser reconhecido ou reconhecer-se como tal. Este existir para supõe intencionalidade, no dizer de Husserl, ou implica em desejos, na visão de Freud. Para o pai da Psicanálise o desejo se curva sobre si mesmo, ou seja, se realiza e frustra ao mesmo tempo, ou melhor, nunca se realiza completamente, e por isto se realimenta. Para Sartre, “o homem é uma paixão inútil”, pois quer ser Deus quando Deus não existe. De modo equivalente penso que o desejo possui camadas, superficiais e profundas, como o desejo de uma bebida tem por trás a sede. Assim, o sujeito não é o puro nada, porque atua como alguém ou algo. E sua consciência só é um vazio que se enche de coisas sem intencionalidade, pois com objetivos e intenções não se está vazio, pois tentamos nos preencher na exteriorização, através da projeção.

            Esta tese de Sartre hoje parece mais verdadeira que antes, porque para que se dê a coisificação dos outros é preciso descartar todo e qualquer altruísmo ou ética civilizatória, exige-se um egoísmo absoluto, onde o outro jamais é visto como um semelhante, um sujeito outro, centro de uma vida consciente. E hoje vemos a barbárie no dia-a-dia das notícias, a crueldade pura e simples, o matar por motivo torpe, banal e leviano, a corrupção que penaliza os mais pobres e que não traz remorso aos criminosos. Enfim, vivemos numa sociedade em que o mal-estar se dá sempre que cruzamos outrem, mais do que nunca Sartre tinha razão quando colocou na boca de um personagem seu que “o inferno são os outros”.

            Quando o próximo pode ser o grande inimigo, não há espaço para a bondade e o espírito de fraternidade. Assim, a solidariedade vai pro brejo, a política deixa de abrigar idealistas, o heroísmo desaparece. Somos todos, cada vez mais, egos centrados no próprio umbigo, sem visão pra frente, sem antevisão, pura maldade egocêntrica e sociopata.

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