O cinema e o vídeo

            O cinema, no dizer de Gilles Lipovetsky, hoje é uma tela global, no sentido de que ele está onipresente em todas as telas: celulares, ipads, PCs, smarts TVs, ou seja, nunca se fez tanto cinema quanto agora. Concordo com ele neste ponto, porém, Lipovetsky esquece de que o cinema, desde o seu início era fotografia (24 quadros por segundo, antes menos), e fotografia química, com celulose, químicos sensíveis à luz, laboratórios de revelação e uma pós-produção complicada, de montagem feita à mão, com tesoura e fita adesiva. E como as câmeras eram pesadas e de mobilidade limitada, filmava-se em estúdios, com cenários, etc. Tudo isto implicava numa produção cara, complexa, que exigia uma grande equipe trabalhando no projeto. Até o lançamento da película era difícil, porque implicava em muitas cópias feitas em laboratório, por isto não se lançava um filme em muitas salas simultaneamente, as cópias passavam de sala de cinema em sala de cinema, se desgastando, a ponto de projetar-se filmes que se rompiam, incendiavam-se e incluíam pontos pretos e defeitos de som. Cabe lembrar que neste ponto houve grandes avanços, o cinema mudo virou sonoro (sem mais música ao vivo dentro da sala de projeção), o preto e branco virou colorido, mas o rolo de acetato e celulose, assim como a química permaneciam. O cinema mudo era filho do teatro, com mímica, maquiagem e expressão corporal exageradas, depois fundiu-se no cinema quase todas as artes: pintura, fotografia, teatro, música, dança e literatura. E assim os filmes passaram a ser a melhor maneira de contar uma história, ou pelo menos o modo mais envolvente. As salas de cinema eram verdadeiros templos, gigantescas para abrigar multidões ávidas de rir, chorar e se assustar em suas cadeiras. E, com grandes diretores e roteiristas, o cinema passou a ter movimentos e tendências expressivas, como as artes plásticas, surgindo o expressionismo alemão, a nouvelle vague francesa, o neorrealismo italiano, o surrealismo espanhol, etc. Mas isto sem deixar de ser Hollywood a meca do cinema como indústria, feito para ganhar dinheiro e para entreter as multidões.

            Paralelo ao cinema nasceu a televisão, primeiro ao vivo, depois, com a invenção do videocassete, uma evolução do gravador sonoro, passou-se a poder separar produção de exibição e a reprisar-se programas, ampliando os canais e os horários com programação. Mas o vídeo desenvolveu-se com uma linguagem diferente do cinema, exibindo atores mais próximos da câmera, com mais diálogos e menos ação e panorâmicas. Mas com o surgimento dos computadores a fotografia química foi substituída pela fotografia digital, a Kodak que o diga, já que erroneamente continuou apostando além da conta nas câmeras tradicionais, com seus filmes e revelações. E aí aconteceu, rendendo-se à hipermodernidade o cinema também virou cinema digital. Com o avanço das tecnologias digitais a pós-produção dos filmes passaram a ser feitas em computadores, permitindo efeitos especiais hiper-realistas e extraordinários e, com isto, o cinema passou a poder não só a contar histórias com mais realismo, mas a também contar histórias fantásticas, criando literalmente mundos de fantasia. Isto alterou a animação, surgiu com mais qualidade o 3D, com câmeras menores e mais leves e móveis. Enfim, o cinema deu um salto tecnológico que o alterou profundamente. Mas com isto o cinema fundiu-se com o vídeo e as salas de cinema fundiram-se com as salas de estar onde as pessoas assistem televisão.

            Hoje nas salas de cinema se come pipoca, hambúrguer, pizza, batatas fritas, se bebe refrigerante, se atende celular, se navega na internet com smartphones, acende-se luzes nas caras do vizinho ao lado, conversa-se em alto som, como se se estivesse em sua própria casa. O cinema como saída para assistir um filme, virou tortura e incomodação. Daí muitos, como eu, preferirem em geral assistir filmes em casa, nas telas LCD ou de plasma, com filmes comprados ou disponibilizados pela TV a cabo ou antena, ou locados como CD ou blue-ray.

            O cinema caro, feito para as grandes multidões continua existindo e sendo produzido por Hollywood, mas são os blockbusters, filmes cheios de efeitos especiais e ação, portanto, feitos para entreter com seus mundos de fantasia, e caros pela quantidade de horas de trabalho em computadores e pelos atores e atrizes de primeira grandeza. Só que agora eles faturam não só como cinema, mas também no licenciamento de brinquedos, roupas e outros produtos com a marca de super-heróis, monstros e outros personagens. Mas o cinema tradicional, no sentido de uma narrativa que apenas conta uma boa história, continua existindo, e existe globalmente.

            O quadro mundial também vem se transformando, o Japão e a Rússia não são mais os representantes do cinema asiático, a China tem lançado filmes caros, e a Índia conseguiu produzir em Bollywood mais filmes que Hollywood nos EUA. O cinema europeu continua forte, e tem conseguido boas bilheterias, e a América Latina deu um salto de qualidade, principalmente com produções argentinas, mexicanas e brasileiras. A animação também se transformou com o uso dos computadores, e hoje produz não só desenhos animados, mas bonecos animados em 3D, e não só para o público infantil, mas para espectadores de todas as idades. Enfim, o cinema não morreu, apesar de não parar de se transformar, principalmente numa lógica de modernização: heróis que tem algo de anti-heróis, heroínas de ação em lugar de heróis, e filmes politicamente corretos para públicos de nichos, como gays, idosos, adolescentes, etc.

            Enquanto o cinema incorporou o vídeo, em contrapartida os seriados de televisão, produções tradicionais de vídeo, como as novelas, veem produzido seriados com a lógica do cinema, com superproduções, como “Games of the trones”, e roteiros criativos e originais, abrangendo todos os estilos possíveis: comédia, drama, policial, terror, ficção científica, aventura, etc. Ou seja, além do cinema-vídeo há hoje o vídeo-cinema, tudo junto, se fusionando. Sem falar nos documentários, que são produzidos hoje às pencas, como vídeo e como cinema, para públicos que cada vez mais optam por se informar e educar através das mídias imagéticas.

            Este é o admirável mundo novo, atingindo o coração da indústria cinematográfica, criando a onipresença do cinema em todas as telas, mas fazendo este pagar um preço por isto.

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