O Brasil em marcha à ré

De início cabe esclarecer que não sou petista (nunca fui) e nem comunista, portanto, o que irei escrever não é bruxaria. Tenho pensado no tempo da ditadura militar, quando eu amava o meu país e tinha vergonha de ser brasileiro. Hoje me dou por conta que, apesar de continuar amando o meu país, voltei a sentir vergonha dele. Vejo que estamos entrando numa fase complicada, feita de passos atrás, como se, arrependidos dos avanços que tivemos, quiséssemos retroceder e reescrever a história.

O Governo Bolsonaro foi eleito baseado num discurso falso, de que existe uma ameaça comunista, quando não existe mais guerra fria e a URSS acabou. No Brasil os partidos “comunistas” são comunistas só no nome, pois quando eleitos jogam o jogo que jogou o PT, ou seja, respeitam a democracia e suas regras, e não defendem nenhum arroubo de revolução ou ditadura. Além disto, os partidos “comunistas” no Brasil são minoritários e, nas eleições de 2018, não alcançaram o coeficiente eleitoral mínimo e por isto ficarão sem fundo partidário. São eles PCB (Partido Comunista Brasileiro), PC do B (Partido Comunista do Brasil), PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados), PCO (Partido da Causa Operária) e PPL (Partido Pátria Livre). O PT (Partido dos Trabalhadores) nasceu marxista, mas antes de chegar ao poder já havia abandonado o marxismo.

Assim, fica claro que a proposta de uma “Escola sem Partido” é o contrário do que o nome indica, ou seja, é a escola dos partidários da extrema direita. Mas, mais que uma proposta de encarcerar a educação numa única ideologia, é a defesa de uma escola com censura, sem verdade e ciência (que requerem liberdade de pensamento e pluralismo no debate). Estamos voltando à ditadura militar, quando se doutrinava com Moral e Cívica e OSPB, não era permitido estudar Karl Marx em sala de aula, e os professores eram demitidos quando denunciados por espiões do SNI e do DOPS infiltrados em sala de aula. Eu mesmo tive vários desses falsos alunos. No Governo Bolsonaro, 35% dos cargos de primeiro escalão estão nas mãos de militares, ou seja, os militares literalmente voltaram ao Governo, e estão tentando reescrever a história da ditadura militar, transformando o execrável em defensável, como quando o presidente diz que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. E todos sabemos, com provas, que a ditadura muito torturou e matou.

Mesmo sem ser marxista, sei que é fundamental estudar Karl Marx, para melhor entender o funcionamento do capitalismo, o século XX e sua herança ideológica, econômica e política. Sem Marx não há como entender o trabalhismo, a social democracia e o keynesianismo, assim como seus contraditórios neoliberais, ou seja, não há como entender o mundo atual. Daí que defender uma “Escola sem Partido” é querer que a ignorância ocupe o lugar da inteligência e da busca do mais saber.

De outro lado, estamos marchando atrás quando direitos indígenas, dos quilombolas, dos deficientes, da população LGBT, das mulheres, dos apenados, dos trabalhadores, dos asilados e dos imigrantes, são retirados, diminuídos, restringidos, ignorados, ou acusados de serem injustos ou distorcidos. Permitir a exploração de terras indígenas é deixar os índios à mercê dos posseiros e garimpeiros, e a floresta amazônica nas mãos dos desmatadores. Retirar as cotas étnicas na educação é deixar de fazer justiça aos afrodescendentes e indígenas. Criar a carteira de trabalho “verde e amarela” e extinguir a Justiça do Trabalho é retirar instrumentos de defesa dos trabalhadores frente à exploração injusta do trabalho. Enfim, mesmo que hajam coisas a melhorar ou corrigir, não se justifica voltar atrás em vez de avançar. Não há como fazer justiça sem respeito aos direitos humanos, e como fazê-lo quando temos no “Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos” uma pastora evangélica que se mostra completamente despreparada e desqualificada, caricatural em suas declarações sobre azul e rosa, família, educação e outros temas?

Além disto, estamos retrocedendo em relação ao meio ambiente. O Brasil se retirar do Acordo de Paris sobre o clima e se recusar a receber em nosso território encontros sobre o tema ambiental é de uma ignorância atroz. A ciência não mente quando pesquisa o efeito estufa, os desastres ambientais aumentaram exponencialmente comprovando tais estudos, e só ignorantes conseguem dizer que a ecologia é um complô comunista (como diz o ministro das relações exteriores do Governo Bolsonaro). Alinhar-se com Trump, que chefia o país que mais contribui para o desastre ambiental, é colocar-se contra os 60 países que ratificaram o Acordo de Paris. E isto no momento em que vemos na TV derramamento de óleo nas costas do Rio de Janeiro, morte de abelhas por uso indevido de agrotóxicos, e quando temos uma taxa anual de 15 mil km² de desmatamento.

Alinhar-se com Trump, é também colocar-se contra os mais de 120 países que votaram na ONU a favor dos palestinos, enquanto Israel teve o apoio de apenas 20 nações. Mas apenas EUA e Guatemala aceitaram transferir suas embaixadas para a cidade de Jerusalém, como o Brasil pretende fazer, enquanto186 países do mundo se recusam a fazê-lo. Jerusalém não faz parte da Israel reconhecida pela ONU e foi conquistada e anexada na Guerra dos Seis Dias. Jerusalém Oriental deverá ser a capital do futuro Estado palestino, e Israel só poderia colocar sua capital em Jerusalém Ocidental após trocar terra por paz. Abrindo embaixada brasileira em Jerusalém estamos colocando em risco o bilhão de dólares que exportamos para o mundo árabe e a neutralidade que temos diante do terrorismo islâmico. O Brasil está virando o “Joãozinho do passo certo”, achando que todos estão errados, “se achando” o único dono da verdade.

O Governo Bolsonaro escolheu como marca a expressão “Pátria Amada Brasil”, o que parece uma ironia. Que amor à pátria é este que entrega a mais importante empresa nacional em tecnologia, a Embraer, aos americanos? A Embraer está sendo comprada pela Boeing por preço vil, considerando que somente os americanos terão parte na gestão da empresa resultante da fusão. Quando o Brasil decidiu comprar os caças suecos em vez dos americanos e franceses, é porque os americanos não concordavam em repassar tecnologia. Assim, a nova Embraer, se detiver novas tecnologias, elas não serão mais brasileiras.

Que pátria amada é esta quando o Governo se dispõe a deixar ser instalada no país uma base militar americana? Que país soberano permite que uma potência estrangeira coloque tropas e armas em seu território, quando isto é desnecessário (o Brasil não está sendo ameaçado por vizinhos e tem capacidade de se defender sozinho)? E, além disto, soldados americanos em bases no estrangeiro não estão submetidos às leis do país onde se instalam, tais bases são como que um território estrangeiro encravado em terras nacionais. Soldados americanos de uma base do Japão que cometeram estupros de japonesas não puderam ser presos e julgados pela justiça do país: o mesmo poderia acontecer aqui. E, além do mais, os próprios militares brasileiros não se mostram simpáticos à ideia.

Enfim, ser patriota é defender os interesses da nação. Em diplomacia é preciso ser pragmático, priorizando o interesse econômico do país e relativizando questões políticas e ideológicas. Falar mal da China, nosso atual maior parceiro comercial, é de uma estupidez atroz. Mesmo que se tenha opiniões de reserva ou desconforto em relação a certas relações comerciais, busca-se na mesa de negociações acertos e avanços, sem explodir as pontes que teremos de passar. E desde quando os EUA são o parceiro ideal e confiável que os demais não são?

Às vezes dá vontade de ir embora, de ir viver onde o dia a dia é mais seguro, e a economia sem altos e baixos permite o avanço gradual e o empreendedorismo sem grandes riscos. Seria bom viver onde há justiça social, educação de qualidade para todos, respeito ao meio ambiente e ausência de miséria. Mas gostaria que este país fosse o Brasil. O “ame-o ou deixe-o” da ditadura escamoteava o fato de que amar o país não é amar o seu regime de escárnio. Do mesmo modo, amo o meu país, e por isto não amo o Governo que agora nele se instalou. Por amor ao meu país vou lutar para que ele deixe de ir para trás, não regrida a um estágio primitivo, em que a ignorância, a força bruta e o baixo nível são idolatrados. Temos inúmeros problemas a resolver para tornar esta terra um lugar melhor de se viver. Mas não é dando marcha à ré que iremos avançar.

Relacionados

Compartilhe

Deixe aqui seu comentário

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com