O Brasil e o tiro no pé

Tenho para vocês uma boa e uma má notícia. A boa é que o presidente Bolsonaro não conseguirá se reeleger. A ruim é que isto ocorrerá porque a economia não sairá de sua modorra. O resultado ruim terá contribuição externa: se avizinha uma recessão nos EUA e Trump terá dificuldades de se reeleger, a economia chinesa começou a definhar, a Alemanha também está entrando em recessão, e a Inglaterra, com o brexit, andará para trás. Como os argentinos votaram na direita, com Macri, e ele perdeu as prévias eleitorais, sinalizando a volta da esquerda de Cristina Kirchner com Alberto Fernandéz, Bolsonaro deve colocar as barbas de molho, pois por aqui não deverá ser diferente. Bolsonaro ofendeu nossos vizinhos, tentando apoiar Macri, mas seu tiro saiu pela culatra, porque seu “apoio” terminou por favorecer o candidato Fernandéz, e dificulta os negócios que temos com nosso maior parceiro no continente. No Brasil, como na Argentina, o povo depositou esperanças na direita, mas se a direita não consertar a economia e promover o desenvolvimento, o povo irá voltar atrás. Macri não salvou a Argentina, como Bolsonaro não salvará o Brasil, aliás, tudo indica que, pelo contrário, ele contribui para que as coisas piorem de vez.

O presidente Bolsonaro vem perdendo sua base de apoio, devido aos desvarios fascistas de sua língua chula e desafinada. Em 226 dias como presidente ele fez 244 declarações falsas ou distorcidas. Os militares estão sofrendo desgastes com a tentativa do presidente de reescrever a história da ditadura, que os militares prefeririam que fosse esquecida, sem falar do tratamento desrespeitoso que o capitão tem tido com os generais que se subordinaram a ele. Os empresários e economistas ultraliberais que apoiaram o presidente, estão começando a ver que ele trabalha contra a agenda econômica. Os que aderiram a ele pelo discurso anticorrupção, estão de cabelo em pé vendo um filho seu ser indicado a embaixador nos EUA, outro ser investigado por corrupção e lavagem de dinheiro, e envolvimento com milicianos assassinos (a mãe e a esposa de um assassino de Marielle trabalhou no gabinete do deputado Bolsonaro filho). E o que é pior, seu filho acionou o STF para barrar a investigação contra si, beneficiando os corruptos da Lava Jato. E Bolsonaro pai mantém em seu Governo ministros sob investigação, como o de Turismo, e tenta abafar o escândalo das candidaturas “laranjas” de seu partido, o PSL. Para culminar, os ministros que aparecem vêm perdendo força política, o da Educação pelo sucateamento acelerado das Universidades Federais e da pesquisa científica, o da Economia devido à falta de propostas claras para alavancar a economia, e o superministro Moro encolheu, quando vem à tona que foi tendencioso como juiz, se associando aos acusadores do Ministério Público, e quando o presidente tenta intervir na Polícia Federal para beneficiar seu filho enquanto investigado.

Bolsonaro falou mal da China, nosso principal parceiro de negócios, se aproximou de Israel e do corrupto Natanyahu, prometendo transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, fazendo com que o Egito, em retaliação, tenha cancelado um encontro de nosso ministro de relações exteriores com o seu presidente. Por recusa da Petrobrás, o Brasil reteve sem combustível um navio iraniano em nossos portos, para satisfazer os EUA, só o liberando por intervenção do STF. Com isto o Brasil corre o risco de perder o que exporta para o Oriente Médio: 21% do frango, 13% do ferro, 11% do milho, 9,4% das carnes, 9,1% de açúcar ou cana, e 9,3% da soja.

Bolsonaro tratou com desdém e deboche a 1ª ministra alemã, preferiu cortar seu cabelo a receber o ministro do exterior francês, ofendeu a ministra do meio ambiente da Noruega. Bolsonaro tem se colocado como um presidente motosserra, ao negar verbalmente dados científicos do INPE sobre desmatamento (quando dados só se desmentem com demonstração de fatos). Ele mudou as regras do Fundo Amazônia, fazendo com que Alemanha e Noruega deixassem de contribuir com recursos de 1,8 bilhão de reais, deixando o Ibama sem recursos para fiscalizar desmatamento. Além disto, em um ano, o Governo Bolsonaro aprovou o uso de 262 novos agrotóxicos na agricultura. Com isto uma rede de supermercados sueca comunicou que não mais venderá produtos brasileiros, deputados de diversos países europeus ameaçam não aprovar o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, e jornais europeus passaram a defender sanções econômicas contra o Brasil. Bolsonaro teve o desplante de defender o trabalho infantil, de ser contra o confisco de terras que utilizarem mão de obra escrava e de ser a favor da exploração econômica das reservas indígenas. Assim, até os ruralistas do agronegócio, que fazem parte da base de sustentação do Governo, estão temerosos de que perderão compradores para os seus produtos, carentes de selo verde e social.

A Reforma da Previdência foi “vendida” pelo Governo como uma panaceia que salvaria a economia, mas sua aprovação com folga em primeiro turno na Câmara não fez o PIB avançar nem a bolsa disparar, pelo contrário, no final de agosto sairão os números do IBGE que muito provavelmente confirmarão que estamos tecnicamente em recessão, devido a mais uma retração do PIB no trimestre. A Reforma da Previdência está saindo graças ao esforço do Legislativo, no que pese as ações em contrário do presidente. No 2º trimestre de 2019 tínhamos 12,8 milhões de desempregados e 11,5 trabalhadores sem carteira assinada, num quadro em que a renda média diminui, enquanto a informalidade e a concentração de renda aumentam. E, para piorar, a Reforma da Previdência e as mudanças da legislação trabalhista vão retirar renda e direitos dos trabalhadores, preservando o privilégio das elites.

Fica claro assim que Bolsonaro é um idiota carente de neurônios, pois vive dando tiros no pé, e o que é pior e triste, prejudicando o país e seus interesses. Está na hora dos eleitores de Bolsonaro fazerem autocrítica, a direita democrática e liberal errou em apoiar um fascista autoritário, prepotente, burro e caricato, que envergonha nossa nação perante o mundo. O povo brasileiro não merecia este falso profeta da nova política que, no pouco que tem de nova é pior que a velha. Se a economia continuar a encolher, e se depender de nosso presidente isto certamente ocorrerá, em 2022 Bolsonaro não será reeleito e, muito provavelmente, a esquerda será reabilitada. Mas se depender de mim, ganhará uma chapa de centro, com uma proposta conciliadora e distante dos extremismos, mas encabeçada pela centro esquerda, aliançada e apoiada pela centro direita.

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