MEMÓRIAS DA TEMPESTADE

A obra MEMÓRIAS DA TEMPESTADE consiste num romance, que mescla ficção, ensaio e memórias. O personagem central é, simultaneamente, ator, narrador e sujeito reflexivo: ele vive, conta e reflete sobre o vivido. Há um equilíbrio entre narração, descrição e reflexão. No livro afloram temas como: amor, sexualidade, racismo, violência, juventude, drogas, religião, espiritualidade, política, velhice, doença, morte, o sentido da vida e outros. Os capítulos são subdivididos em blocos, que algumas vezes possuem autonomia e flertam com outros gêneros literários, como o conto, a crônica, o ensaio e a poesia, compondo um mosaico de universalismo pós-moderno. A obra abre e fecha com uma citação de “A Tempestade” de Shakespeare, e dois personagens (Ariel e Miranda) possuem nomes retirados da peça. Em seu primeiro romance Antonio Henriques se revela como um escritor maduro e original, certamente uma surpresa agradável no panorama da literatura brasileira contemporânea.

LEIA UM TRECHO

Trecho do Livro “MEMÓRIAS DA TEMPESTADE”

Aquilo que nós chamamos “morte” foi para mim a descida por um túnel escuro e circular, em que deslizava em direção à luz do seu final. Conforme me movia, lento e leve qual nuvem levada pelo vento, percebia que tal túnel conduzia a um outro mundo: luminoso, claro, brilhante e ofuscante em equivalência à luz do sol. Meu corpo não possuía peso nem densidade, era uma névoa resplandecente e transparente, a pairar no espaço como um meigo beija-flor. Um silêncio em mim soava de modo similar a um zumbido de abelhas ou ao dobrar de sinos ao longe. Chegando ao final do túnel, me vi envolto numa luz dourada e me deparei com alguém que me esperava. Era um ser diáfano, que irradiava um sorriso amoroso enquanto vinha ao meu encontro. Havia uma serenidade tão grande e uma paz tão profunda no ar que eu diria estar no céu, que para mim sempre existiu em meu sentimento de felicidade. Foi quando percebi que tal ser, semelhante a um anjo, era uma mulher… Então presumi que estava morto, mas sem que este pensamento me inquietasse. Veio-me à mente minha esposa e meu filho, e um desconforto percorreu meu ser como um estremecimento. Desejei voltar, fechei os olhos e me vi de olhos abertos num quarto de hospital. Acordei de um profundo sono, mas continuei sonhando. Não sentia o peso do meu corpo e os objetos possuíam uma luminosidade própria, que brotava de dentro, como se não houvesse uma fonte emissora de luz. Percebi então que tudo vibrava e que as coisas não tinham mais aquela estaticidade própria da matéria. Passou por minha mente a consciência de que estava enfermo e de que o meu estado poderia equivaler à morte. Um tremor invadiu-me com a impressão de que o desconhecido me assediava e ameaçava. Tentei tocar as paredes próximas, que foram atravessadas sem esforço, como se a matéria fosse uma etérea nuvem, visível à distância, mas transparente e impalpável na proximidade: aterrorizado estava. Lembrei-me de um texto sagrado: “olhou para todos os lados e não viu senão a si mesmo: o que temer então?”. Olhando ao redor, fui me acalmando e relaxando. Respirando fundo pensei: seja o que seja, valerá a pena penetrar noutro mundo e conhecer o obscuro e o estranho, comprovar e aplicar os meus conhecimentos ocultos. Principiei então a testar as características místicas de uma realidade mágica, estudada por mim em antigos alfarrábios. Pensei firmemente numa árvore e a vi adquirir forma sobre a minha cabeça. Desejei estar numa rocha à beira-mar da praia de Cabo Branco, e eis que instantaneamente me vi lá, admirando o oceano de ondas espumantes. Olhei então para o meu corpo, velho e decrépito, e desejei ser de novo jovem. E fui me transformando até adquirir a aparência que tive aos trinta anos. Compreendi então que não estava mais num universo de matéria física, que meu corpo de carne e osso provavelmente se decompunha numa cova qualquer de um cemitério da cidade onde eu vivia. Estremeci por dentro uma vez mais, não propriamente de medo, mas compreendendo a fascinante experiência pela qual passava em absoluta solidão. Desejei então ter alguém comigo, e senti ao meu lado a presença do meu Mestre, que pondo a mão sobre o meu ombro, disse como quem pensa dentro da minha cabeça: – Sê bem-vindo! Agora poderemos estar juntos sem interferências – e sorriu, irradiando luz de seu olhar e boca. Tu tens buscado o conhecimento acima de tudo, e já conheces o suficiente para saber que não é nos livros ou na experiência alheia que se encontra a sabedoria. Percebeste que é vivendo que alguém se torna sábio, meditando na vivência, não num sentido de fixidez temática ou de trabalho intelectual, mas de modo a que não nos encontre dormindo o cardume durante a pescaria. Conhecer é um ato instantâneo e direto, não transmissível, só compartilhável. (…) Por isto não te envaideces com o que fazes, simplesmente cumpres teu dever com resignação e afinco, sabendo que és canal de Deus na natureza e que faz parte da criação a imperfeição, não como erro, mas como aquilo que permite o movimento, o processo da verdade, a transformação. – Estou vivo? – perguntei assombrado e feliz. – Sim, teu corpo físico dorme agora, mas em breve acordará, voltarás novamente no mundo dos vivos para cumprires com uma determinação que te darei. Agora estás doente, mas recuperarás devagar a tua saúde, para que possas executar um trabalho até a hora de tua definitiva morte. Deixo-te a tarefa de redigires tuas memórias, o relato de tuas vivências, reflexões e descobertas, acrescidas do que aprenderes nestes planos de regozijo e sofrimento. (…) Ergueu-se, então, e me apontou um vulto que caminhava nas areias, ao longe. – Vá lá – ordenou-me. E esquecido da minha capacidade de locomoção instantânea me pus a correr, leve, contra o vento, vendo o vulto diáfano e brilhante crescer na minha direção. Era uma linda mulher que não identifiquei de imediato, mas que despertou em mim uma alegria imensa, com a certeza de uma familiaridade íntima e ancestral. Sem rodeios fui ao seu encontro e lancei-me em seus braços. Assombrosamente nossos corpos se interpenetraram mutuamente, mas sem a frustração do abraço ou da impossibilidade do toque e do tato. Faíscas coloridas de luz eram lançadas de nossos etéreos corpos. Finalmente nos separamos e, calmos ante a majestosa paisagem, caminhamos lado a lado ao largo da praia. – Tu não lembras quem eu sou? Perturbado e feliz, girei a cabeça manifestando o meu esquecimento. Ela então parou-me e aproximou seus dedos da minha testa, e assim, minha visão se abriu: – Eu lembro! Tu és a mulher dos meus sonhos, meu anjo protetor – lhe disse, tendo em mente a memória das esperanças e bênçãos recebidas dela em tantos momentos difíceis. Ela assentiu sorrindo, em silêncio, pela abundância de emoções e compreensões. Assim percorremos sem pressa o trecho que faltava ser vencido do caminho da praia. Ao final me disse seu nome: Miranda. A partir de então passei a ser seu aluno aplicado, nas lições que me ministrou sobre o mundo em que estávamos, até em determinado momento pensar: – Será que isto não passa de um sonho? O que me autoriza a pensar que Miranda seja real? Pode ser que eu esteja enlouquecendo? Quem sabe tudo não passa de uma alucinação? Olhei para ela que, me estendendo a mão, clamava: – Não! Por favor, não! Se duvidares, quebrarás o encanto, e não será mais possível caminharmos juntos sobre as águas. Acredita, por favor, creia em mim… E enquanto ela falava, sua imagem foi se apagando e ficando distante, até desaparecer completamente num sussurro, vago ponto na distância. E me vi sozinho, rodeado de trevas e vazio. Nada havia à minha volta: estava esvaziado, qual pura negatividade de ser. Então compreendi que todos nós vivemos no mundo dos nossos pensamentos. E ao me dar conta disto, tratei de consertar o estrago feito, fixando minha atenção em algo positivo, procedente e valioso, de modo firme e persistente. Apaguei de mim as futilidades, dúvidas e idiotices, e formei em meu coração e mente, sem vacilação, a imagem radiante de Miranda. E a vi tomar forma diante de mim, linda e luminosa, enquanto sua voz suave cantava em meus ouvidos: – Obrigado, amor, por acreditares, agora não só existo, como será viável nós dois juntos. E será aquilo que construirmos em nosso coração: te amo muito – disse, me abraçando através de mim, entrando em meu corpo etéreo, enquanto eu cedia imerso em seu carinho… Agora tenho de ir-me. Vi sua imagem afastar-se aos poucos. Desceu-me um sono instantâneo. Fechei os olhos e, ao abri-los, estava em meu corpo físico num leito de hospital, e junto a mim, meu filho Ariel. – Ufa, finalmente acordas. Temíamos por ti, meu pai – disse meu filho com lágrimas nos olhos, agarrando minhas mãos com força. Com dificuldade falei: – Estou bem, sob qualquer condição, Deus está comigo. (…) O anjo da morte estava junto de meu leito de moribundo há meses, porém, decidira ele que não era ainda a hora de eu partir, era preciso que eu sofresse mais, que sobrevivesse ainda. A minha consciência se embotava mesclando alucinação e realidade, fazendo com que eu sonhasse acordado. De algum modo eu passara a viver em dois mundos, ao mesmo tempo entre os vivos e os mortos. (…) Para mim, as emoções e os sentimentos nunca foram fatores de equilíbrio, daí a excentricidade, pois os homens não gostam de aprofundar as coisas. Preferem a acomodação obesa diante da agitação da superfície, já que não sabem encarar obstáculos assumindo riscos. O essencial na minha vida não é o que vivi, tampouco o que amei ou o que fiz. O principal reside no que restou do que fiz e que me foi possível, e que aponta para além do que fiz e pretendi. Para lá da ação encontramos a reflexão e, além desta, a intuição, a visão direta, a revelação do sagrado. Recordar é não só lembrar dos feitos, mas principalmente, compreender o sentido e a direção deles a partir dos seus efeitos. O fato não é apenas ação, é toda e qualquer dimensão verdadeira, mesmo a travestida de paixão e loucura. (…) Escrever nada tem a ver com pintar ou esculpir. Preferiria pintar este relato em vez de escrevê-lo, mas sei que isto seria impossível. Eu preciso falar, e escrever é quase um modo de dizer… (…) Eu sempre fui um artista, mas da forma e da cor, não dos sons nem das palavras. Contudo, ao sentir aproximar-se a minha hora, torna-se extremamente necessário para eu contar a minha história. Não que ela seja excepcional ou grandiosa, mas é minha. Preciso repassar minhas experiências para filtrar meu aprendizado, pois levarei comigo apenas a essência do vivido. Através do relato da minha vida poderei reconstruir-me a mim mesmo. Quem aprende, muda, não reprisa erros nem repete experiências. (…) Por isto é chegada a hora de não só falar de mim aos outros, como até de obscenamente despir minha alma. Hoje não me sinto mais vulnerável por decidir despir-me em público. Vim ao mundo nu, e não há porque guardar segredo do que não é sagrado. Mesmo aquilo que é divino pode e deve vir à tona, já que “tudo o que está oculto um dia será revelado”. Não se pode guardar a vela acesa numa gaveta, pelo contrário, deve ela ser colocada sobre todos para que ninguém se furte de sua luz. Tal necessidade de dizer é-me humilhante, mas já que me é imprescindível a palavra, que ao menos ela me seja veraz e corajosa. Há em mim o ímpeto de jorrar sem medo, de contar o que nunca pensei saber. Mas quero começar do início…

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