Há um tempo para cada coisa

            O inverno este ano foi rigoroso, mas agora estão já tendo dias mais amenos. É a primavera que aponta sua cara. E depois vem o verão, e depois dele, novamente o inverno. E assim o ano se foi, e os anos passam, por ciclos que se repetem até que passemos deles.

            Já viajei de modo a viver três invernos no período de apenas um ano: ah, que saudade do calor e da praia! Teria sido bem melhor ter tido três verões num mesmo ano. Sempre gostei de frio, e da estética do frio, de que fala o nosso músico Victor Ramil. Mas agora as coisas estão mudando, ou melhor, eu estou envelhecendo, e os velhos sofrem muito no clima frio. Daí ter passado a amar os verões, é claro, com ar condicionado nos ambientes fechados. E, de preferência, junto a uma brisa de praia.

            Mas os ciclos da natureza apenas reforçam os nossos ciclos interiores, já que todos nós temos por dentro paisagens geladas ou ensolaradas, dependendo de como somos e de como vai nossa vida. Aprendi com mestres espirituais que os iniciados nos mistérios aprendem a ter paisagens interiores de primavera, luz e cores, mesmo em meio a tempestades e furacões. Mas sei não só que é difícil ser assim, como que ser assim implica em parecer frio aos outros, algo que incomoda nas relações interpessoais e dificulta a inserção social. Todos preferem aqueles que vivem aos extremos, do riso e da euforia, da paixão e da raiva, da ansiedade e do nervosismo, diante das coisas que a sociedade considera importantes. E, ser constante, sem ciclos visíveis, parece um despropósito.

            Entretanto, acho que há uma outra maneira de ser espiritualizado e luminoso, sem parecer uma pedra de gelo, é vivendo cada estação como um momento diferente do caminho, em harmonia entre o dentro e o fora. Assim, como a primavera está vindo, a primavera em mim também está, estou começando a superar o frio, estou quase a virar a página deste inverno. Isto significa sair mais, ser mais sociável, sorrir mais, ser mais amigável e menos encasulado. E quando tais coisas se dão em nós como se dão na natureza, é natural, ninguém estranha, é como se tudo fosse como tem de ser. A chuva, o frio, as flores, o sol, o calor e o suor, a vontade de fazer e também o desejo de parar, e ficar apenas no parque a olhar o rio.

            Há um tempo para cada coisa, diz a Bíblia, de plantar, cultivar e colher. Já plantei, cultivei e colhi, mas acho que tenho mais a plantar e a colher, mesmo que o tempo de cultivar tenha ficado estreito. Quero colher o melhor do mundo e da vida, mesmo que dentro da medida em que contribuí ou tentei contribuir. Há um tempo para cada coisa, mas há coisas que urgem, que exigem seu tempo às pressas, e também eu tenho algumas pressas. Mas nada dará certo se não tivermos paciência, pois que os gestos necessitam de maturação para renderem seus frutos.

               Que este tempo de agora seja o que enseja o novo, preservando e incorporando o velho, tudo em harmonia, unindo passado e futuro. Quero olhar para a frente, fazer agora, o passado é aprendizado presente, não é para ser lembrado com saudosismo ou saudado como o tempo de glória. Quem não deseja o futuro não tem futuro, e quem não tem futuro tende a rejeitar o presente e suas oportunidades. Este é o momento do agora, é o tempo certo neste ciclo. Virá outro, e que venha, estou construindo-o desde agora. Há um tempo para cada coisa, mas podemos construir cada tempo e cada coisa, pois somos também no tempo, e todos os tempos são simultâneos.

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