Dos baús da memória: Nascimento

Tenho de fechar as portas, as janelas, meu estômago

Não posso ter fome de whisky, coquetel, não posso trair

Tenho de fechar meus ouvidos ao sussurro das mulheres de porcelana

Tenho de fechar-me no hoje para abrir-me amanhã

Hoje não posso gritar, não posso chorar, não posso me dar

Hoje estou fechado, mas o hoje morrerá

E amanhã eu nascerei da sede, e deixarei de ser só

Os desgraçados entrarão pela minha porta

E saciarão sua fome de pão, de amor, de paz

Então todas as minhas posses serão efetivamente minhas

Esperem-me, esperem-me e ajudem-me a chegar

Estou chegando como a morte

Necessária para um nascimento maior

Estou chegando no cantar dos pássaros, nas flores, no luar

Estou chegando de todos os lugares para todos os lugares

Estou chegando do amanhã para o hoje, do hoje para o amanhã

E na minha chegada não quero rosas nem abraços

Quero lágrimas de loucura pelo amanhã que me matarei se chegar tarde

Quero tiros de festim sobre o meu caixão

Pois minha morte criará nascimentos

Da loucura e das lágrimas moldem crianças

E que estas crianças nunca sintam a minha morte

Nunca tenham de esperar, nunca tenham de matar ou matar-se

E que estas crianças criem, cresçam, abram-se, completem-se

E que nunca tenham de chegar, como a morte

Fechadas no hoje da loucura dos tempos.

 

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