Contestando o Pessimismo Global

             Quando pensamos nos tempos atuais, prolifera o pessimismo. Os autores que tratam da pós-modernidade ou hipermodernidade, como quiserem chamar o nosso tempo, escrevem livros com títulos como: A Era do Vazio, O Mal-Estar na Pós-Modernidade, A Era da Decepção, A Era da Incerteza, A Era da Insegurança, e outros mais, todos tratando de uma época que, mais adiante, talvez se queira chamar de Nova Idade das Trevas. É preciso destacar que este enfoque predominantemente negativo vem de um olhar que destaca o patológico e o horror, como o faz a imprensa sensacionalista, pois estes mesmos autores não deixam de destacar, conjuntamente, aspectos promissores e positivos de nossa época. E, quando aceitamos ler outras leituras, vemos que há, de outro lado, otimistas, até exagerados como Domenico De Masi, frente ao nosso otimismo moderado.

            Não há como negar que nos últimos trinta anos o planeta vem passando por mudanças assombrosas, que alteraram profundamente o comportamento social e os valores predominantes. Mas as novas tendências, mesmo que predominantes e hegemônicas, não são absolutas, suscitam reações opostas minoritárias, que também passam a ser características de nossa época. Por exemplo, num tempo de ateísmo e irreligiosidade há, simultaneamente, o crescimento do fundamentalismo religioso. Numa época em que a juventude, a beleza corporal e a saúde são exaltados, e o ideal estético feminino está associado a magreza, vemos o crescimento da obesidade, inclusive a mórbida. Assim, vivemos uma era de contrastes e contradições, que comporta olhares díspares e contraditórios.

            Uma faceta de unanimidade quanto ao nosso tempo diz respeito à globalização, ao fato de o planeta ter ficado pequeno, todos influenciando todos, todos interagindo com todos, tanto no aspecto cultural quanto no econômico. Mas se isto traz uma concorrência mundial que favorece a produção de mão de obra baixa, força parcerias, aquisições e fusões, acelera o trânsito mercadorias e capitais, enquanto, ao mesmo tempo, torna os produtos rapidamente obsoletos, criando uma instabilidade mercadológica que traz ansiedade e angústia aos empresários e executivos. Se, de um lado, a globalização traz concentração de renda através do gigantismo das multinacionais, de outro lado produz uma distribuição de renda, ao ampliar o mercado consumidor, e fazer com que os locais de mão de obra baixa a qualifiquem gradualmente, gerando um aumento gradativo de renda e qualidade de vida. Os chamados países em desenvolvimento vêm incorporando pobres à classe média baixa em quantidades espantosas, diminuindo as diferenças entre o mundo rico e o pobre, e tornando um mundo antes bipolar em multilateral, complexificando a política mundial. Hoje, além dos interesses ideológicos, há os religiosos, os étnicos, os econômicos, os de tecnologia, os de poder de informação, e outros, tornando a estratégia das relações internacionais um xadrez mais intrincado e cheio de mazelas e truques.

            Diz-se que a população está envelhecendo, que haverá cada vez menos gente ativa para sustentar uma multidão de aposentados, inviabilizando os sistemas de previdência social. Também se diz que os recursos naturais estão se esgotando rapidamente, e que o desequilíbrio ecológico aumentará exponencialmente a quantidade de catástrofes naturais no planeta. Sabemos que, com o avanço tecnológico, cresce o desemprego funcional, fazendo com que os empregos que permanecem exijam cada vez mais capacitação e qualificação de mão de obra, de modo que, quem tem emprego trabalha demais, enquanto outros estão desempregados.

             Mas se a população está envelhecendo, a bomba da explosão populacional está sendo desativada, beneficiando o meio ambiente e a empregabilidade. Estamos envelhecendo, mas com mais saúde, ou seja, com maior capacidade produtiva. De fato falta revolucionar o mundo do trabalho, o que está começando a acontecer, com cada vez mais teletrabalho, e contratos por produção e não cumprimento de carga horária. Há quem pregue jornada de três dias semanais de trabalho (o multibilionário Carlos Slim), ou a ampliação do trabalho à distância, de modo que haja cada vez mais produtividade com menos carga horária de trabalho, sobrando tempo para a cultura, os esportes, o lazer, os cuidados de saúde, a sociabilidade, enfim, para uma vida com mais prazer e qualidade.

            É claro que um mundo mais complexo implica na multiplicação dos grupos, das reivindicações e dos conflitos, mas também faz com que o avanço de uns repercuta positivamente sobre os outros, de modo a que, cada vez mais, globalmente, se queira viver em sociedades democráticas que respeitam os direitos humanos. O desgaste das instituições tradicionais, como família, exército, governo, partidos políticos, escola e igrejas, é apenas reflexo das profundas transformações que estão atingindo tais instituições. A família hoje é multiétnica, não mais monógama, pelo menos na perspectiva temporal de uma vida. É sexualmente heterossexual ou homo afetiva, portanto, supõe a tolerância diante das diferenças, quer de idade, raça, nacionalidade, religião, etc. A Igreja, depois de amargar um retrocesso conservador nas gestões dos papas João Paulo II e Bento XVI, e de enfrentar os escândalos de pedofilia, hoje tem um papa carismático e popular que está conduzindo a Igreja, gradualmente, às mudanças modernizantes e moralizadoras que ela requer. A escola e as universidades tradicionais vêm perdendo terreno para os cursos rápidos e à distância que os novos tempos requerem. A formação educacional e cultural tende a ser cada vez mais múltipla, pluridisciplinar e transversal, voltada a um saber aplicável e devotada a uma verdade prática. O exército ao modernizar-se passa a exigir soldados especialistas em tecnologias bélicas e táticas de guerrilha, mercenários de empresas terceirizadas passam a ocupar o lugar dos antigos recrutas, e as batalhas passam a se dar com o uso de clones, robôs, computadores, satélites e ações que visam alvos específicos e pontuais.

            Num mundo assim, dominado pela tecnologia e pela lógica dos negócios, os governantes passam a ser mais gerentes que políticos, passam a ter menos margem de manobra, considerando o contexto global e de momento em que seus governos se inserem. Cada cidadão torna-se mais desconfiado dos poderosos de plantão, percebe que o capital especulativo é tão volátil quanto é inflamável o moral dos governantes, e que o sistema político, econômico e de informações, joga um jogo sujo, que enoja as pessoas comuns. Assim, todos tornam-se mais exigentes, atentos e fiscalizadores, melhorando a democracia.

            As crises que se multiplicam, com imigrantes ilegais, guerras civis, refugiados, separatistas, desemprego e outras mazelas, não são definitivas, e apesar do alto custo humano, tais distúrbios tendem à estabilidade e à paz, mesmo que provisória e instável: é só lembrar da ex-Iugoslávia, da Primavera Árabe, da Chechênia, da Cachemira, da Irlanda do Norte, das Farc, do terrorismo internacional e seus atentados, etc.

            Há conflitos que tendem a perdurar no tempo, como algo sem solução definitiva, como a Palestina, a Síria, o Iraque e o Afeganistão. Mas no geral, mesmo que a ferro e a fogo, há uma tendência de modernização e ocidentalização do mundo islâmico, e de acomodação das potências mundiais em suas áreas de influência, já que cada vez mais fica claro que nenhum confronto terá vencedores, todos perdem devido à imbricação global. E como hoje há várias grandes potências, todas com poder atômico e interesses econômicos, como os EUA, a Rússia, a União Europeia e a China, a geopolítica tende a ter mais latidos que mordidas. É claro que a China Popular, com seu totalitarismo absoluto, e a Rússia, com sua herança autoritária, não poderão exercer no mundo uma influência pró democracia e respeito aos direitos humanos. Mas os países em desenvolvimento que passam a ter mais peso no xadrez da política mundial, como Índia, Brasil e África do Sul, tendem a pesar a favor de bons ventos, de modo que o conflito ideológico entre esquerda e direita tende a se dar agora mais ao centro e não mais entre os extremos.

            Alguns falam de desencantamento, do fim das utopias, da decadência do Ocidente e do capitalismo, de uma crise dos valores humanistas, etc. Mas tal fato não fez desaparecer a esperança e o otimismo, pois a maioria de nós hoje vive melhor que nossos pais e avós. E se somos mais realistas, nosso realismo não implica em negar os avanços inegáveis que vemos por toda parte. Daí que, mesmo que  o nosso progresso ocorra com recuos e desvios, vemos e sentimos que há um futuro melhor à frente.

Relacionados

Compartilhe

Deixe aqui seu comentário

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com