Considerações sobre o evolucionismo

            Santo Agostinho foi precursor de Darwin quando, séculos antes, defendeu que o mundo não é perfeito porque a Criação ainda estava em curso, e que, portanto, dia a dia melhoraríamos até chegar à perfeição. Charles Darwin com sua obra “A Origem das Espécies” demonstrou que os seres vivos evoluem devido à sobrevivência dos mais aptos (e não dos mais fortes), ou seja, existe uma espécie de seleção natural. Mas em Darwin o evolucionismo não é teleológico, não se encaminha em direção a um ponto, como em Teilhard de Chardin com seu Ponto Ômega. Em outras palavras, espécies desaparecem porque a seleção natural supõe o ensaio e o erro, ou seja, alguns ramos ou trilhas evolucionistas não dão certo devido a fatores ambientais, genéticos, dos indivíduos ou das espécies.

            Assim, quando no Espiritismo, Alan Kardec, baseado em Darwin, defende que as almas evoluem, ou seja, reencarnam sempre e cada vez melhores, desconsidera o aspecto ensaio e erro. Se o espírito de Hitler está evoluindo em sucessivas reencarnações, significa que ele foi pior em encarnações anteriores a que ele nasceu sob o nome Hitler. E mesmo que encontremos seres históricos piores que Hitler, antes dele, dificilmente encontraremos seres piores que estes seres se continuarmos a regredir a nossa busca e análise. Em outras palavras, se no evolucionismo nem todos os ramos de descendência dos seres vivos possuem continuidade, por que no sentido espírita deveria ser diferente?

            A polêmica entre os criacionistas e os evolucionistas é uma falsa disputa, não só porque uma teoria científica, comprovada experimentalmente, não pode ser contestada por uma doutrina religiosa cientificamente absurda, mas porque hoje Einstein esvaziou tal polêmica. Na teoria da Relatividade o espaço-tempo é relativo, portanto, muda conforme o observador, tornando todos os tempos (passado e futuro) contemporâneos (só existe o presente). Em outras palavras, um segundo de tempo é, dependendo do observador, o mesmo que quase uma eternidade de tempo, portanto, o instante de criação divino não contradiz a evolução que se dá em milênios de transformações das espécies no Planeta.

            Quando Herbert Spencer aplicou as ideias de Charles Darwin à vida social, trouxe até nós o preconceito da ideologia de direita que considera, no capitalismo, a sobrevivência dos mais aptos, como se os pobres fossem culpados de sua pobreza, por falta de trabalho, esforço, inteligência, estudo, inovação, empreendedorismo, etc. É claro que tal conclusão é falsa, porque uma criança pobre e uma rica não partem suas jornadas de vida do mesmo patamar de condições. Uma criança que nasce na favela, por exemplo, tem uma casa de dois cômodos para seis pessoas, nela não há livros, jornais, computador, internet; tal criança nunca viajou, estudou línguas, praticou esportes, frequentou academias; estuda em uma escola onde faltam professores e condições adequadas a um bom aprendizado. Como comparar tal criança a um filhinho de papai que possui tudo e todas as condições positivas faltantes ao outro?

            É preciso lembrar que um míope ou portador de catarata, sob a ótica da seleção natural, morreria cedo e não deixaria descendentes. Enxergando mal cairia num abismo, seria devorado por um predador, não encontraria o seu alimento ou tomaria um fruto venenoso como saudável. Mas com a tecnologia dos óculos e o avanço da oftalmologia, os portadores de má visão sobrevivem e procriam, transmitindo aos descendentes sua má visão. O mesmo raciocínio se aplica a outras doenças ou deficiências, daí que, quanto à espécie humana Darwin ficou para trás. E se isto significa que, como humanos, não mais evoluímos no sentido de melhoria, apenas de mais aptidão obtida artificialmente, através da ciência e da tecnologia: não significaria também que, sob o ponto de vista dos valores morais e da inteligência, podemos estar degenerando?

            Há aqueles que opõem causalidade e acaso, considerando o evolucionismo uma manifestação das leis causais. Porém, conforme demonstrou Jacques Monod, quando várias sequências de causas se entrecruzam o produto final é o acaso. É como a meteorologia, na qual sabemos todas as causas das mudanças climáticas, mas são tantas, que a complexidade resultante nos leva a errar a previsão do tempo. Em outras palavras, o erro surge do acaso.

            Na Mecânica Quântica também não podemos dizer que a matéria exista em lugares determinados, apenas calcular probabilidades de que a encontremos em determinado ponto. E, como para saber, por exemplo, a trajetória de um elétron, temos de alterar sua energia, não podemos saber de sua energia e trajetória simultaneamente, daí o princípio de incerteza de Heizenberg. E, na física teórica temos que, no interior de um buraco negro, na singularidade, o efeito possa ocorrer antes da causa. Em outras palavras, hoje se concebe um universo físico e uma realidade biológica eivados de incompletudes, incertezas e indeterminismos lógicos.

            Em suma, evolucionismo entre nós é sinônimo de otimismo, mas o mais apto não é necessariamente o melhor, apenas o mais eficiente sob o ponto de vista de condições práticas e objetivas. Daí que, o pessimismo não está de todo descartado da concepção darwiniana, o que nos leva a perguntar: será que o homem está hoje melhor que ontem? E o mundo, no futuro, será melhor que agora? Quem viver, verá!

 

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