Carta aberta aos bolsonaristas

Se você não é um dos chamados “olavistas”, e apoia o presidente Bolsonaro apenas porque o seu Governo vem concedendo a ajuda de R$ 600,00 mensais aos prejudicados pela pandemia de Covid 19, ou porque, como pequeno ou médio empresário, recebeste um empréstimo bancário com juros baixos, por conta da ação governamental, ou ainda porque, como religioso praticante, comunga da visão conservadora sobre as questões morais, convido a que reflita o que se segue.

Mesmo que você considere que o fechamento da indústria e do comércio, por decisão de governadores e prefeitos, em função do enfrentamento da pandemia Covid 19, tenha sido a causa do colapso financeiro de muitas empresas e da crise econômica sem precedentes em nosso país, cabe lembrar que:

  1. é falso o dilema de crise econômica versus isolamento social pois, a gripe espanhola, no início do século XX, já demonstrara que as cidades que resguardaram quarentena, se recuperaram economicamente mais rapidamente do que aquelas que, por não terem se fechado, tiveram sua cadeia produtiva atingida por óbitos.
  2. O chamado “isolamento vertical”, defendido pelo presidente, é completamente impraticável, tanto é que não foi tentado em nenhum país do mundo.
  3. O modo correto de não fechar o comércio e, ao mesmo tempo, evitar o avanço da pandemia, é simples, bastaria testar massivamente, colocando em quarentena somente aqueles que testassem positivo. Mas o Governo Bolsonaro não fez isto. Só são testados os que pagam pelos testes, ou pacientes com sintomas, e não todos.
  4. O Governo pagou por milhões de doses de cloraquina, que estão estocadas, sem uso, já que sua aplicação não tem respaldo científico, enquanto medicamentos essenciais e necessários nas UTIs do país estão em falta, provocando mortes que poderiam ser evitadas.
  5. Depois de termos tidos dois ministros médicos no Ministério da Saúde, um que foi demitido e outro que se demitiu por discordarem do presidente, hoje temos o Ministério da Saúde dominado por militares que nada entendem de epidemias e que, simplesmente, seguem diretrizes da presidência para ações sem nenhum respaldo científico.
  6. O presidente afirmou que a Covid 19 era uma “gripezinha”, e o Governo teve, no Ministério da Cidadania, um médico que declarou que a pandemia no país não chegaria a produzir mil mortes. Mas já atingimos mais de oitenta mil mortos, apesar da subnotificação.

O presidente Bolsonaro se elegeu sem debater suas ideias com os demais candidatos, mas fez inúmeras promessas de campanha, que vem descumprindo uma por uma.

Prometeu cumprir e fazer cumprir a Constituição, mas contrariamente isso, tem acumulado crimes de responsabilidade por descumprimento da Constituição, ao apoiar atos antidemocráticos que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF; por intervir na Polícia Federal; por ter sido eleito com ação comprovada de uma rede de fake news alavancada por robôs, e financiada ilegalmente por empresários seus apoiadores, sendo que, hoje, tal rede é comandada, com verba pública, desde dentro do Palácio do Planalto.

Prometeu acabar com a reeleição, mas eleito voltou atrás, colocando-se como candidato à reeleição, além de se comportar mais como candidato que como presidente.  

Prometeu “tolerância zero com a corrupção e os privilégios, mas quando no governo interviu na Polícia Federal para abafar investigações de crimes envolvendo os seus filhos, demitiu o ministro Moro que o denunciou, e fez a PF perseguir os seus inimigos políticos. Quando deputado federal teve em seu gabinete funcionários fantasmas e praticou, como seu filho Flávio, a chamada “rachadinha”, que é a apropriação indébita de recursos públicos através da retenção de parte dos salários de seus assessores. Além disto, seus familiares (ex-mulher e atual esposa) receberam recursos de milicianos (através do Queiroz), que serviram para comprar imóveis pagos em dinheiro vivo (crime de lavagem de dinheiro). O presidente escolheu para o cargo de Procurador Geral da República um nome de fora da lista tríplice, como era o procedimento, de modo a poder intervir mais diretamente no Ministério Público e na Operação Lava jato.

Prometeu acabar com o foro privilegiado e, seu filho Flávio, hoje senador, solicitou este foro e foi atendido, pela 3ª Câmera Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, sem que o presidente comentasse porque a família Bolsonaro havia mudado de posição.

Prometeu um Governo “sem toma-lá-dá-cá e sem acordos espúrios”, e agora vem se aproximando do antes considerado corrupto “Centrão”, fazendo acordos, negociando cargos, e liberando verbas públicas a deputados e senadores destas siglas, de modo a garantir maioria que dê aprovação a seus projetos.

Prometeu acabar com as indicações políticas e escolher ministros por critérios técnicos e, ao ser divulgado o vídeo de uma reunião ministerial, realizada durante a pandemia, ficou claro a todo o país o despreparo total da equipe ministerial como um todo, já que o presidente tem colocado ministros e secretários sem qualificação técnica e política, como: um militar na saúde; um antiecológico no meio ambiente; um nazista na Cultura, substituído por uma defensora da ditadura e da censura; um racista na Fundação Palmares; um evangelizador indígena na Funai; dois aloprados “olavistas” na educação, que agora ficou nas mãos de um pastor indicado pela “bancada evangélica”

Prometeu cortar 30% dos cargos públicos e privatizar estatais, e o presidente logrou cortar apenas 4,2% dos cargos, e nomeou assessores especiais em maior número que Lula, Dilma e Temer, conseguindo dobrar os gastos de seu cartão corporativo em relação à média dos últimos 5 anos. Quanto às privatizações, a pandemia vem demonstrando a imensa utilidade dos bancos públicos, e o diferencial positivo que é a existência do SUS. Por isto não faz sentido o Governo listar como privatizáveis hospitais públicos de referência, como, no RS, o Hospital Conceição e o das Clínicas.

Prometeu promover o crescimento econômico, através de reformas, mas sua primeira e declaradamente mais importante reforma, a da Previdência, só ocorreu por ação do Congresso Nacional e não por iniciativa do Governo. E, apesar de ter sido feita, não produziu nenhum efeito significativo na economia, contradizendo o discurso de que era um sacrifício necessário de todos os trabalhadores, como já havia ocorrido na Reforma Trabalhista durante o Governo Temer.

Prometeu alavancar o desenvolvimento econômico, porém, para tal é necessário que haja uma balança comercial favorável e investimentos estrangeiros no país, porém, o Governo vem minando a confiança dos investidores e importadores ao permitir o aumento do desmatamento na Amazônia, através do desmantelamento intencional da capacidade de fiscalização do Ibama (conforme declarado pelo próprio ministro do Meio Ambiente), da demissão de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), do incentivo à grilagem de terras da União e da permissão de exploração de terras de reservas indígenas.

Prometeu praticar comércio com o mundo com responsabilidade e, ao contrário disto, ministros do Governo, e o próprio presidente, afrontam lideranças estrangeiras, como a esposa do presidente francês, e o nosso principal parceiro econômico, a China. Fica difícil ter responsabilidade quando o ministro das Relações Exteriores acusa o Corona vírus de ser comunista, implementando uma política que tem nos ridicularizado no cenário internacional, transformando-nos em párias na política externa. Além disso, ao fazer um alinhamento automático com os EUA, sem obter nada em troca, tem colocado nossa diplomacia como um apêndice subalterno e submisso à vontade estadunidense.

Prometeu reduzir a carga tributária e não aumentar ou criar novos impostos e, ao contrário disto, o ministro Guedes, da Fazenda, vem insistindo em criar um imposto sobre as transações digitais, além de haver tentado taxar os desempregados para financiar a diminuição dos encargos sociais dos empregadores. E, as alíquotas do Imposto de Renda, que deveriam ter sido corrigidas, até agora não o foram, onerando a classe média brasileira. Isto sem falar na promessa não cumprida de uma alíquota única de 20%, com isenção para quem ganha até 5 salários mínimos.

Prometeu diminuir a violência urbana e combater o crime organizado, mas vem fazendo na prática o contrário, ao permitir o porte por parte de civis de armamento pesado, por afrouxar o controle e rastreamento de armas e munições por parte do Exército e da polícia, por aumentar exponencialmente o número de armas nas mãos da população, visando uma guerra civil, como o próprio presidente declarou, já que tais armas deveriam ser usadas no enfrentamento de seus opositores por parte de seus apoiadores. Com isso saem ganhando as milícias e o crime organizado, que terão mais armas em suas mãos, desviadas de seus proprietários legítimos. Além disto, o Governo tentou aprovar o excludente de licitude, que daria sinal verde a que as forças policiais do país matem mais do que vem matando, já que em 2020 cresceu em 53% a letalidade policial.

O governo do presidente Bolsonaro tem se tornado um pária internacional também no que tange à questão dos direitos humanos, já que vem desmontando e retirando representantes da sociedade dos órgãos nacionais de direitos humanos, além de vir votando com ditaduras, na ONU, nas questões relativas a estes temas, envolvendo a questão racial, a defesa da mulher, as questões LGBT, a violência policial, o sistema carcerário e a condenação da tortura.

Você que votou em Bolsonaro e que o apoia, pense, quem promete e entrega o contrário do que promete não merece a fidelidade de seu eleitorado. Por um Brasil melhor, pela defesa da democracia e de nossa Constituição: fora Bolsonaro!

 

Antonio Henriques – Brasil, 2020

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