Autocontrole e Maturidade

O psicólogo C. G. Jung defendeu que o processo de individuação se dá, não só por terapia e auto esforço, mas também ao natural, pelo passar do tempo, pela maturidade. Para ele individualizar-se equivalia a se tornar mais completo, incorporando a si aquilo que algum dia não reconhecemos como nosso, ou que reprimimos ou rejeitamos como a encarnação do mal. Assim, a sabedoria dos mais velhos implica na aceitação deles de que “nada que é humano lhes é estranho”, que eles são ou foram capazes de tudo e qualquer ato, por mais tresloucado ou transgressor que fosse. Isto significa também compreender melhor a diversidade das pessoas e aceita-las como são, ou pelo menos compreende-las no sentido de tolerar suas ignorâncias, infantilidades, maledicências e agressividade.

Mas a sabedoria dos mais velhos também se faz com autocontrole. Com o tempo aprendemos a domar o cavalo bravio de nossas emoções, ou como se diz modernamente, avançamos no controle da raiva. E, como ensina o budismo, aquilo que inicialmente controlamos, com esforço e vigilância constante, com o tempo superamos e transcendemos, no sentido de que o controle passa a se dar ao natural, sem necessidade mais de esforço. Aprendemos também que o controle das grandes raivas passa pelas pequenas irritações e contrariedades do cotidiano, que vivenciamos no dia-a-dia do trânsito, das salas de espera, dos atendimentos deficientes e de má vontade, na incompetência do próximo, na preguiça e na corrupção dos que se acham espertos, enfim, quando o outro passa a ser, por equívoco nosso, o culpado de nosso mau-humor.

Entretanto, o objetivo da vida não é ser controlado, ao contrário, é viver deixando ser e estar, o controle é uma escada que nos leva para cima, mas que precisa ser deixada de lado quando já galgamos um patamar superior. É difícil compreender isto, que precisamos avançar em sabedoria para voltarmos à inocência e paz da ignorância, já que voltar atrás é impossível. E hoje, quando os adolescentes são infantis, os adultos são adolescentes mimados e os velhos querem voltar à juventude impossível, ou pelo menos conservá-la, através da saúde e da constante atividade e prazer de viver, é mais difícil alcançar a maturidade sábia. Daí os caminhos que se abrem na espiritualidade, na ciência e no saber, no sentido de aprendermos a viver bem, de bem com a vida, e também com o mundo e as pessoas que nele vivem.

Pena que a nossa sociedade não seja receptiva a aproveitar a sabedoria dos mais velhos, que os jovens não tenham a percepção da riqueza que as gerações anteriores vão deixar-lhes. Se assim fosse, os velhos seriam mais ativos e presentes, o que seria bom para eles e para os que com eles convivessem. Certamente assim teríamos mais compreensão das diferenças e menos ódio, o que parece ter crescido em nossa sociedade, que quando avança um passo parece precisar retroceder dois, só para compreender que a história é sábia. Mas para aprender com o passado, precisamos saber interpretá-lo sem nossos preconceitos. Pois de nada adianta substituir uma ideologia por outra, uma crença estúpida por outra também tacanha, alimentando o ódio e a guerra, em vez da paz e da compaixão solidária. Oremos, quem sabe orar ou crê em orações (e quem não crê pode ao menos pensar positivamente num querer ascendente), para que nosso povo e país possa trilhar o amor e não o ódio, que saiba controlar a raiva, que aprenda com a maturidade da idade, de modo que possamos usufruir um futuro melhor que o presente: as novas gerações merecem!

 

 

 

 

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