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Metodologias Ativas no Ensino Superior:

19 March 2018 | Nenhum comentário

RESUMO: Com o surgimento da pós-modernidade as gerações “Y” e “Z” passaram a comparecer em sala de aula com seus laptops, ipads e smartphones, obrigando os professores a competirem com a internet para não “darem aulas para as paredes”. As escolas e universidades que optaram pela proibição dos eletrônicos em sala de aula e mantiveram exposições dialogadas não lograram motivar seus alunos jovens. Assim, surgiu a tendência, adotada por muitas Faculdades, de implantar metodologias pedagógicas ativas, virando “o feitiço contra o feiticeiro”, tornando a internet uma aliada em vez de uma concorrente. Este artigo pretende refletir sobre a opção pelas metodologias ativas no ensino superior, analisando em que medida tal escolha vem ao encontro de uma melhor educação, tendo em vista o estudante do século XXI, conectado e multimídia. E para tal irá considerar as contribuições da psicanálise e da psicologia ao tema, assim como os avanços da neurologia na compreensão do funcionamento de nosso cérebro. Assim, de modo breve e introdutório, abordaremos autores como Sigmund Freud, Carl Rogers, Jean Piaget, Howard Gardner, Steven Mithen, Steven Pinker e Norman Doidge, para assim fundamentar a opção pelas metodologias ativas no ensino superior.   ABSTRACT: With the emergence of postmodernity generations “Y” and “Z” started to appear in the classroom with their laptops, ipads and smartphones, forcing teachers to compete with the internet not to “give lessons for walls”. Schools and universities have chosen to ban the electronic classroom and kept dialogued exhibitions failed to motivate his young students. Thus emerged the trend adopted by ESPM, to implement active teaching methods, turning “the spell against the sorcerer,” making the Internet an ally rather than a competitor. This article aims to reflect on the option for active methodologies in higher education, analyzing to what extent such a choice is offered to a better education, in view of the student’s twenty-first century, connected and multimedia. And for that will consider the contributions of psychoanalysis and psychology to the subject, as well as advances in neurology in understanding the functioning of our brain. Thus, brief and introductory way, we will cover authors as Sigmund Freud, Carl Rogers, Jean Piaget, Howard Gardner, Steven Mithen, Steven Pinker and Norman Doidge, thus support the option for active methodologies in higher education.   1.     Os professores frente aos estudantes das gerações “Y” e “Z” Os alunos jovens que chegam aos bancos universitários dominam bem as novas tecnologias, mas as usam quase exclusivamente para comunicação social e não como fonte de saber real. Escrevemos “saber real” porque é preciso distinguir informação de comunicação, jovens que se comunicam bem podem ser mal informados, mesmo acessando muita informação, desde que busquem na web predominantemente informações de entretenimento, que é o caso, segundo o Ibope (2010), dos jovens da geração “Z”[1]. O IBOPE pesquisou em 2010 a geração “Z”, que é composta de: 96% de solteiros, 84% de estudantes, 36% deles odeiam serviço doméstico, 31% já tiveram um 1º trabalho, mais da metade possuem um videogame, 71% utilizam frequentemente as redes sociais, e priorizam o entretenimento frente à informação. Parafraseando Mac Luhan, a geração “Z” usa das tecnologias de informação e comunicação como extensão de seus próprios corpos. Os estudantes que sentam nos bancos universitários hoje, ao mesmo tempo em que estão em suas salas de aula estão também conectados em outras realidades:...

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Maçonaria e Pós-Modernidade

5 March 2015 | 2 comentários

              Ao ser convidado a contribuir com uma análise da Maçonaria na contemporaneidade, pensei em fazer um estudo comparativo entre os valores de uma instituição milenar – a Maçonaria – e os valores da sociedade atual, associada ao fenômeno da pós-modernidade. De um lado cabe analisar como a Maçonaria tem persistido no tempo e qual será seu futuro, de outro, necessário se faz ver que atitude ela deve adotar em relação à contemporaneidade. Deve ser a Maçonaria um reduto de conservadorismo, resistindo às mudanças do tempo? Ou deve estar ela em constante processo de construção, renovação e adaptação à modernidade? Em suma: como uma instituição, supostamente milenar – a Maçonaria – poderá subsistir na pós-modernidade?               Todas as instituições milenares, como a Igreja Católica Apostólica Romana ou a Igreja Ortodoxa, são exemplos similares de modos de perpetuação no tempo, ou seja, de sobrevivência de seus valores antiguíssimos frente às transformações da história e das sociedades no decorrer dos séculos. Podemos supor que com a Maçonaria não seja diferente, pois se de um lado ela é resultante de uma tradição que remonta à antiguidade mítica, de outro possui uma história mais recente, que vai da Idade Média e Moderna até os nossos dias, em que podemos identificar as mudanças que foram se dando no tempo. Por fim, cabe ver a Maçonaria hoje, frente às profundas transformações da modernidade e pós-modernidade, refletindo sobre como ela se instala em nosso tempo.   I – O QUE É E COMO É A MAÇONARIA?             A Maçonaria hoje é essencialmente uma instituição filosófica, filantrópica, ritualística e mística, que prima pelo conhecimento esotérico, ou seja, aquele transmitido a poucos iniciados, e zela pela preservação da tradição espiritualista e moral de que se diz depositária. Na Constituição do Grande Oriente do Rio Grande do Sul – GORS está escrito, entre outras coisas, que a Maçonaria:   “Proclama a prevalência do espírito sobre a matéria.   Pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade. Condena a exploração do homem, bem como os privilégios e regalias  Afirma que o sectarismo político, religioso ou racial é incompatível com a universalidade do espírito maçônico. Combate a superstição, a ignorância e a tirania. Defende a plena liberdade de expressão do pensamento. Proscreve o recurso à força e à violência. Reconhece o trabalho como dever social. Considera irmãos todos os maçons.”              Por fim, considera como deveres maçônicos: “amor à família, fidelidade e devotamento à pátria, e obediência à lei”.             Por tais princípios a Maçonaria é espiritualista, democrática, pacifista, igualitária, defensora da ciência e da lei, portanto, conservadora ou revisionista, e nacionalista em seu respeito à pátria, apesar de se propor universalista. Ao manifesta-se contra o sectarismo religioso, político e racial, a Maçonaria posiciona-se também contra o fanatismo e o dogmatismo. Tanto é assim que ela defende a tolerância, “para que sejam respeitadas as convicções de cada um“, e combate a tirania, em outras palavras é contra a opressão e a ditadura, defendendo a liberdade e a democracia, ao menos na teoria, já que historicamente nem sempre isto aconteceu, como mais tarde demonstraremos.             Pode ser aceito como maçom quem acredite em Deus e esteja trabalhando, tenha sua vida e moral investigada...

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Anarquia e Democracia: a violência nos movimentos sociais no Brasil 2013

10 November 2014 | Nenhum comentário

RESUMO:             (Publicado em 2014) Eclodiu no Brasil em 2013 uma série de manifestações sociais de protesto que mobilizaram milhares de cidadãos, em sua maioria jovens, e que em grande parte terminaram em confrontos com a polícia e depredações. Os encontros eram agendados nas redes sociais, reunindo por isto uma massa heterogênea, com bandeiras díspares e sem lideranças identificáveis e expressivas. Este artigo trata de como o movimento surgiu e, dentro dele, que grupos são os responsáveis pelas depredações, tratando mais especificamente da minoria anarquista. Mostra como o Governo ficou acuado, os políticos desorientados, a população revoltada e atônita, e a mídia ensanduichada, vítima da repressão policial e alvo dos manifestantes. O texto analisa a filosofia anarquista e as táticas violentas, demonstrando que o grupo anarquista black bloc contradiz princípios libertários, portanto, entendendo a violência nas ruas como contrária ao convívio democrático. Em suma, o texto é uma crítica de esquerda à violência nos movimentos sociais, rompendo com o preconceito de que tal posição esteja eivada de conservadorismo e direitismo. Palavras-Chave: anarquismo, democracia, violência.   ABSTRACT:             Broke out in Brazil in 2013 a series of social manifestations of protest that mobilized thousands of citizens, mostly young, and mostly ended in clashes with police and vandalism. The meetings were scheduled in social networks, gathering for it a heterogeneous mass with flags disparate and without identifiable leaders and expressive. This article discusses how the movement emerged and within it, which groups are responsible for the vandalism, dealing more specifically anarchist minority. Shows how the government was cornered, politicians disoriented, the population revolted and astonished, and sandwiched media, victim of police repression and target of protesters. The text analyzes the anarchist philosophy and the violent tactics, demonstrating that the black bloc anarchist group contradicts libertarian principles, therefore, understanding street violence as contrary to democratic practice. In short, the text is a critical leftist violence in social movements, breaking with the prejudice that such a position is fraught with conservatism and rightsism. Keywords: anarquism, democracy, violence, vandalismo.   – Introdução:             No ano de 2013 eclodiu Brasil afora, abrangendo as capitais dos estados e as cidades médias, movimentos sociais de protesto, quando as ruas se encheram de centenas de milhares de cidadãos contestando e reivindicando. Quando a mídia começou a cobrir o que estava acontecendo, se defrontou com um fenômeno novo que, inicialmente, não soube interpretar. Como os protestos eram convocados ou combinados através das redes sociais, estavam à margem dos meios de comunicação tradicionais, que não foram capazes de perceber a insatisfação latente que eclodiria nas ruas. Além disto, inicialmente, muitos veículos criticaram os movimentos de protesto e os subestimaram, passando a defender e dar destaque e importância aos mesmos somente depois de repórteres terem sido vítimas da repressão policial.           Nascidos nas redes sociais, os movimentos de rua não possuíam lideranças reconhecidas, não contavam com a presença de organizações sociais instituídas e não carregavam bandeiras de consenso, já que as reivindicações eram diversas, dispersas e díspares. Portanto, era um movimento social desorganizado, composto de uma massa heterogênea, com múltiplas bandeiras coexistindo. Mas, no geral, havia convergência em torno de alguns pontos:             a) falta de representatividade dos políticos atuantes;             b) desconfiança e rejeição aos partidos políticos e organizações sociais;             c) descontentamento com os Governos instituídos (nas esferas federal, estadual e...

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Público versus Privado: subsídios ao debate

6 November 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 2010).  Resumo: O artigo “Público x Privado: subsídios para um debate” é uma breve reflexão sobre o tema, que aponta questões ideológicas e de preconceito que afetam tal relação, assim como as deficiências e virtudes da administração pública, e seu papel social. Entre público e privado não é preciso fazer uma escolha excludente, ambos podem e devem ser parceiros em projetos. O setor público necessita de gestores que sejam mais administradores e gerentes que políticos. O Estado necessita de um controle externo, que lhe permita uma administração mais ágil sem desvios e corrupção. Por outro lado, o setor privado necessita ser regulado pelo Estado em vista do interesse público. Ambos devem pactuar e colaborar para o desenvolvimento econômico e social. Palavras-Chave: público, privado, gestão, regulação. Summary: The article “Public Private x: subsidies for a debate” is a brief reflection on the subject, pointing and ideological bias that affect this relationship, as well as the shortcomings and virtues of public administration, and social role. Between public and private is not necessary to make a choice exclusive, both can and should be partners in projects. The public sector needs managers who are more administrators and managers who politicians. The state needs an external control, which allows you to manage it more agile without deviation and corruption. On the other hand, the private sector needs to be regulated by the state in view of the public interest. Both must transact and collaborate for the economic and social development. Keywords: public, private, management, regulation.               Introdução Este é um mero artigo de opinião e não uma obra científica. Mas sinto-me confortável em escrevê-lo, considerando ser funcionário público de carreira, ex-dirigente sindical, ex-gestor público nas áreas de educação, saúde, cultura e Casa Civil, além de possuir experiência também na área privada, como gestor e professor. O debate sobre o Público versus o Privado precisa ser depurado de dois erros: a ideologização e o preconceito, reforçado pelo senso comum.               1.     Preconceitos sobre o setor público: Existem preconceitos que precisam ser desfeitos no que tange à relação entre o Público e o Privado. Primeiro, não é preciso escolher entre um e outro, podemos pensar num modelo híbrido, em parcerias público-privadas, em participação estatal no privado, como faz a China e os outros países asiáticos. Segundo, não é verdade que o público sempre é ineficaz e que o privado faria melhor gastando menos. Muitas vezes o público é melhor que o privado, por exemplo, dentre as vinte e cinco melhores universidades brasileiras avaliadas em 2009, só duas são privadas (Inep-MEC). Há empresas estatais premiadas, como a Cia Carris da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, outras respeitadas, como os Correios e a Petrobras. E mesmo na administração direta, em diferentes áreas, encontramos inúmeras instituições com admiração e reconhecimento da opinião pública, pela qualidade de seus serviços.               2.     As deficiências e a inoperância do setor público: A meu ver o que faz a diferença entre o público eficiente e o ineficiente, primeiro é a deficiência: muitas instituições públicas são sucateadas por não serem vistas como prioritárias, carecendo de recursos financeiros, materiais e humanos. Há estatais, por exemplo, como certos portos, que arrecadam, mas o que arrecadam não fica disponibilizado em seu caixa, fica retido no caixa único do tesouro. Há instituições públicas da administração direta...

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O Que é Ser de Esquerda Hoje

20 August 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 2005) Vivemos novos tempos. A Europa unificou-se, a U.R.S.S. foi desmantelada por uma revolução popular, e com ela veio abaixo o Muro de Berlim e a Alemanha foi reunificada. Sem o tacão soviético, os demais países socialistas abriram suas economias e se tornaram capitalistas. Resta uma Coréia do Norte sob uma ditadura hereditária, cheia de famintos e miseráveis. Resiste uma Cuba de economia combalida, hoje quase caricata na pessoa de seu ditador discursador. Enquanto a China, a única que poderia contar, emerge como potência econômica capitalista, apesar de politicamente manter-se marxista, com partido único e repressão. E os U.S.A. são, indiscutivelmente, a única superpotência, econômica e militar, um verdadeiro império universal. Conflitos de cunho étnico e culturais surgiram em substituição aos confrontos ideológicos, na Iugoslávia, Irlanda, Chechênia, Cachemira, Afeganistão, Iraque e Palestina. O mundo islâmico, que em sua vertente fundamentalista tem ódio ao ocidente e à modernização, teve o capitalismo como inimigo no 11 de setembro, mas também o comunismo antes, no Afeganistão do tempo da União Soviética. O mundo certamente ficou mais complexo do que era, a visão maniqueísta de mocinhos e bandidos, produto da guerra fria, já não mais serve para explicá-lo. Do mesmo modo, os conceitos de esquerda e direita cada vez mais nos parecem inadequados.                 1. O QUE É SER ESQUERDA? O termo “esquerda” pode ter múltiplas significações e aplicar-se a uma gama ampla do espectro ideológico, como socialistas utópicos, anarquistas, marxistas e sociais democratas, chamados também de socialistas democráticos e trabalhistas. Tradicionalmente rotula-se como esquerda os seus extremos: o anarquismo e todas as formas de marxismo (leninista, stalinista, maoísta e trotskista). Esta esquerda hoje é chamada de retrógrada e radical, pois na globalização só é vista como viável a proposta social democrata, considerada uma esquerda moderna, democrática e progressista. Mas a social democracia também tem enfrentado crises e contradições, sendo acusada pelos marxistas de ser neoliberal e direitista. Se a opção marxista ao poder perdeu sentido e significado, a crítica de esquerda ao capitalismo, em parte continua válida, ainda mais frente às mazelas sociais resultantes do neoliberalismo globalizado. Porém, hoje a extrema esquerda atua mais como força de pressão, provocando mudanças, pois na democracia o eleitorado tende ao centro, tornando os partidos políticos de extrema esquerda só passíveis de participar do poder em amplas alianças. Basta lembrar do PCB ter virado PPS, e do papel que partidos como PSTU, PCO e PSOL, desempenham junto com parte da base do PT mais à esquerda. Outra forma de ação efetiva da esquerda, se dá no âmbito das ONGs, em que militâncias em prol de questões pontuais tendem a obter resultados positivos, pois a defesa de causas ecológicas e pacifistas, assim como a de todos os excluídos (índios, homossexuais, seringueiros, crianças de rua, sem teto, terra e emprego) sempre terão um certo apelo emocional junto à opinião pública. Mas a defesa das minorias e de questões locais ou de categorias específicas, não é próprio do pensamento de Karl Marx.                 2. A CRISE DA ESQUERDA: A esquerda, que parecia a detentora da verdade, da moralidade e da esperança, mostra cada vez mais uma cara feia de incompetência e maldade. A China, que invadiu o Tibet e fez a Revolução Cultural, é campeã na violação dos direitos humanos e na execução de penas de morte, e...

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A Revelação do Oculto

20 August 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 1990) O Catálogo Brasileiro de Publicações registra no mercado editorial um grande número de obras publicadas no país sobre ocultismo. Uma onda de misticismo surge e temas como cristais, tarô, quiromancia e astrologia ganham destaque nos noticiários. Na verdade, o que vem sendo mostrado como um “novo”modismo é tão velho como a humanidade.                     1. O MISTICISMO Desde os primórdios da história, nas mais diversas civilizações, tem surgido um pensamento que podemos chamar de “místico”. Ele possui algumas ideias básicas, que se repetem nas mais diferentes culturas e épocas, vinculando-se, em parte, às grandes religiões. Daí se poder falar de um misticismo cristão, islâmico, judaico, hinduísta, etc. Misticismo é um nome genérico, que se aplica a todo o conhecimento que surja de uma experiência misteriosa, que esteja fora dos padrões explicáveis convencionalmente pela ciência, incluindo-se a experiência do divino. São ideias próprias das filosofias místicas as de unidade e ilusão. No dizer de Freud, a experiência mística equivale a um “sentimento oceânico”, porque nela é como se o “eu” abarcasse o meio circundante. Jung vê tal experiência como uma expansão de consciência que ilumina o inconsciente, fazendo com que o ego ceda lugar ao “Si”, centro de todo o campo psíquico.           As ideias místicas estão presentes na história do pensamento e na literatura universal do mais alto nível; pena que quando se tornam populares o façam através da subliteratura. Rimbaud “acreditava em todas as magias”. Aldous Huxley afirmava que “toda a coisa que acontece é intrinsecamente semelhante a quem ela acontece”. Hermann Hesse escreveu: “Nada está dentro, nada está fora, porque o que está dentro está fora”.                     2. O OCULTISMO           A novidade no modismo de cristais, tarôs, mapas astrais e outros exotismos, não é o fenômeno em si, mas sua massificação. Ocultismo é o nome genérico que se dá àqueles conhecimentos que escapam à compreensão do grande público e que não podem ser rotulados como ciência. Daí a expressão “ciências ocultas” – englobando a magia, a alquimia,  astrologia e, para muitos, erroneamente incluindo também todas as formas de adivinhação: cartomancia (cartas), quiromancia (mãos), belomancia (flechas), etc. Além das “mancias”, o público inda associa equivocadamente ao ocultismo a bruxaria, o mediunismo, o faquirismo e outras práticas, muitas vezes passíveis de charlatanismo, “comerciais”, explorando a credulidade e a superstição do povo.           Da antiguidade até a Idade Média, não havia uma separação clara entre o filósofo e o cientista. Ocultismo se confundia com a ciência mesma: a magia deu origem à medicina, a alquimia à química e a astrologia originou a astronomia. No século XX, o ocultismo, depois de marginalizado pela ciência oficial, passa a ser até certo ponto reabilitado por uma série de estudiosos humanistas contemporâneos e até por alguns cientistas. O psicólogo Jung considerava a astrologia como a psicologia dos antigos e, através de sua Teoria da Sincronicidade, demonstrou que todos os métodos de adivinhação, mesmo não possuindo validade “científica” em suas previsões, se inserem no universo dos fenômenos psíquicos que possuem uma lógica e um sentido.                     3. O MODISMO E SEUS PROBLEMAS           Não há lugar hoje, nesta “aldeia global” em que virou o mundo, para um ocultismo no sentido próprio do termo “oculto”: esotérico, próprio de poucos iniciados. Mesmo que a vanguarda científica e tecnológica e a especialização humanística...

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Contracultura e Pop Art nos EUA e no Brasil

20 August 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 1990) Este trabalho nasceu de um estudo sobre as relações entre a Escola de Franckfurt e o Movimento de Contracultura. Perguntávamo-nos na época sobre como a contracultura influenciou as artes plásticas? E qual a maneira que o Terceiro Mundo, no caso o Brasil, poderia reproduzir um movimento que era a expressão de crise da sociedade industrial? Correlatos a estes temas tínhamos outros: a questão do pós-modernismo, a perspectiva libertária da descentralização contida na contracultura e, por último, a influência orientalista também presente no movimento contracultural. Sobre estas preocupações desenvolveu-se este trabalho, centrado mais nas primeiras questões. Como grande parte dele foi escrito quando de uma estada na Califórnia – EUA, a perspectiva estudada centrou-se em duas realidades sócio-culturais e geográficas: EUA e Brasil. E, apesar da pequena extensão desta monografia, temos consciência de que, face à complexidade e vastidão do tema, apenas iniciamos um caminho, esboçamos uma visão e abrimos o debate. 1 – O que é cultura? A palavra cultura origina-se do Latim (cultúra, cultús), significando de um lado o ato de cultivar, e de outro o de prestar culto a alguma divindade. Sabemos que a civilização em seus estágios iniciais não separa o plantar o alimento no culto a divindades identificadas com a natureza (a terra, a chuva, o sol, o rio), o que dá um sentido unitário ao conceito de cultura. Hoje, contemporaneamente falando, cultura diz respeito a toda produção humana surgida da realidade social, supõe, como afirma José Luiz dos Santos: “… tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade[1]“. A partir desta definição, cultura é uma realidade múltipla, podendo existir distintas formas de cultura. Porém, alerta José dos Santos que cultura pode dizer respeito também mais especificamente: “… ao conhecimento, às idéias e crenças, assim como às maneiras como eles existem na vida social[2]“. Esta segunda concepção leva-nos à idéia de que, se a cultura diz respeito também a um só domínio da vida social, podem coexistir numa mesma sociedade várias formas de cultura. Daí a idéia de que uma cultura alternativa pode romper com os valores tradicionalmente respeitados na “cultura oficial”, o que nos conduz ao conceito de contracultura. 2 – O que é contracultura? 2.1 — Suas origens A contracultura nasce, em primeira instância, da constatação da dinamicidade histórica da cultura que, por ser mutável e criação constante e livre, admire uma pluralidade avessa à idéia de algo único, irretocável e conservado por herança através da tradição e da educação. A contracultura surgiu da crise e da doença da cultura estabelecida, e supõe a superação do preconceito de que, o que está consagrado e vigindo é melhor do que o que possa surgir, haver existido ou estar marginalizado em relação à cultura oficial. A contracultura é um cadinho de aspectos dissidentes da cultura estabelecida, onde aglutinaram-se considerações econômicas, políticas, filosóficas, científicas e sociais. Em princípio, a contracultura surge como um fenômeno próprio das sociedades superdesenvolvidas, como uma reação social de contestação diante da abundância. Segundo Herbert Marcuse, a “grande rejeição” à sociedade industrial avançada é uma contestação que ultrapassa a política e recusa a “civilização”, considerada globalmente, de modo a buscar na prática formas de rompimento com a cultura estabelecida. A teoria de Marcuse retoma Freud refutando-o em parte. Dentro do...

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Sistemas Eleitorais e Representatividade

20 August 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 1991) 1. O VOTO PROPORCIONAL E OS PARTIDOS As eleições no Brasil, quer sejam municipais, estaduais ou nacionais, são realizadas pelo sistema do voto proporcional, em que o percentual de votos válidos dividido pelo número de cadeiras disponíveis dá o “quociente eleitoral”, ou seja, o número de votos necessários para cada partido ou coligação fazer uma cadeira. Se um partido fizer três vezes o quociente terá três cadeiras, se não atingir o quociente, ficará sem representação, e assim por diante. O quociente eleitoral cria alguns problemas para os partidos frente ao poder de voto dos seus candidatos, o que demonstra que o sistema de votação proporcional possui defeitos. Em Porto Alegre, por exemplo, em 1988 o ex-vereador Omar Ferri (na época no PMDB, hoje no PDT) elegeu-se vereador apesar de 90 candidatos com mais votos que ele não terem conseguido se eleger. Na mesma eleição, a atual deputada Jussara Cony (PC do B), não conseguiu se eleger vereadora, apesar de ter sido a candidata mais votada dentre todos os partidos. Nas eleições municipais de 1992, em Porto Alegre, o candidato tucano Regis Gonzaga ficou como o 10ºcandidato mais votado, mas não conseguiu se eleger porque o seu partido, o PSDB, não conseguiu fazer nenhuma cadeira dentre as 33 da Câmara Municipal.Enquanto o PC do B, apesar de ser um pequeno partido, conseguiu eleger como vereadora a sua candidata Maria do Rosário como a 4ª mais votada, porque concorreu coligado e colocando só dois candidatos na televisão e no rádio. Tais fatos ocorrem em função da soma dos votos da legenda ou da coligação, o que penaliza os candidatos bons de voto dos pequenos partidos, quando estes concorrem sozinhos.Ou premia candidatos que possuem poucos votos, mas que estando num pequeno partido, concorrem numa coligação e quase como candidatos nanicos do partido. O voto proporcional dá também um poder maior ao interior em relação às grandes cidades.O deputado José Serra, do PSDB de São Paulo, lembra que um município de 130 mil eleitores do interior de São Paulo elegeu 4 deputados (2 estaduais e 2 federais), enquanto uma zona de 800 mil eleitores da Capital não elegeu nenhum. Isto ocorre porque nas grandes cidades o voto é pulverizado. Nelas só existem jornais de circulação estadual, as pessoas gastam horas no deslocamento entre a casa e o trabalho, e não conhecem sequer o vizinho. Em contrapartida, no interior todos se conhecem, e os jornais e canais de TV são locais. Considerando-se o percentual da população brasileira que vive nas capitais, ~ preocupante tal deformação. Como o político interiorano tende a ser mais conservador que o dos grandes centros urbanos, isto talvez explique porque o perfil do nosso Congresso está aquém da sociedade civil organizada 2. PODER DA MÍDIA E O VOTO PROPORCIONAL Outro problema do voto proporcional é o de exigir que os partidos lancem como candidatos nomes conhecidos do grande público, mas nem sempre os melhores indicados por competência técnica, política e mesmo moral. Isto cria uma hegemonia natural dos comunicadores, o que é uma distorção preocupante, considerando-se que os profissionais de comunicação estão super-representados no poder, e os repórteres, em função disto, querem aparecer mais do que a noticia. Só no Rio Grande do Sul temos na política, oriundos dos meios de comunicação ou jornalistas, o senador José Paulo...

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De Carretéis e Discos Voadores (ou da correspondência entre Iberê e Mário)

20 August 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 1999) Na II Bienal do Mercosul, numa instalação feita numa carvoaria à beira do Guaíba, o público pode ver, dentre outras coisas, num buraco sem tijolo da parede, um vídeo rodando um filme documentário que retrata o artista Iberê Camargo pintando. Tal filme é uma das produções do artista plástico Joel Pizzini que produziu“o Pintor”, curta metragem de 1995, produção da qual participou o diretor de fotografia, artista plástico, arquiteto e cineasta carioca Mário Carneiro. Mário Carneiro conheceu Iberê Camargo em Paris, ficaram amigos, e juntos assistiram as aulas de Poliakof, assistente de André Lhote. Iberê chegou na Europa em 1948, onde estudou gravura com Carlos Petrucci, pintura com De Chirico, e freqüentou o atelier de André Lhote. Mário diz que De Chirico só influenciou Iberê do ponto de vista técnico, não pictórico e estético. Para Iberê, “os bons pintores são os que conseguem modificar a nossa visão”. Mário entende que De Chirico conseguiu isto, porque ninguém vai a Florença sem pensar em sua obra, assim como ninguém vai a Ouro Preto sem ver Guinard e à praia sem ver Panceti. Quando do retorno de ambos ao Brasil, em 1949, Mário Carneiro tornou-se aluno de gravura de Iberê. No mesmo ano Mário Carneiro retornou à Europa, onde estudou gravura com Friedlaender e, depois, em Paris, dedica-se à gravura e a estudar urbanismo. É deste período, anos 50 e 60, a correspondência entre ele e Iberê, composta de cartas cheias de considerações sobre pintura e técnicas de gravura, pois Iberê neste período tornara-se professor de gravura no Instituto de Belas Artes do RJ. Por isto Mário incluiu no seu livro uma espécie de Manual para Aprendizado da Gravura, feito por Iberê para subsidiar suas aulas. Tais cartas possuem um conteúdo extremamente denso de informações e conhecimentos de gravura, pintura e arte, o que atesta que Iberê Camargo foi um artista completo, capaz não só de produzir arte da mais alta qualidade, mas capaz também de ver e refletir sobre a produção artística sua e alheia, capaz de compreender, estudar e experimentar técnicas várias e de várias épocas, utilizadas pelos grandes mestres. Isto até certo ponto é raro, já que nossa época de narcisismo faz com que todos se voltem para si mesmos, querendo brilhar sem apropriar-se do conhecimento do próximo, querendo produzir arte sem capacidade de ver e ouvir. Iberê não era assim, ele possuía uma grande capacidade de compreender a pintura quando analisava ou copiava a obra dos grandes mestres, anotando meticulosamente todas as suas observações. Mostrou à Mário, por exemplo, que em geral, cada quadro tinha dois terços de sua área cobertos por meia-tinta e um terço dividido entre claros e escuros (que atraíam o olhar). Ensinava a pintar sempre acompanhando a forma e o volume: para que o quadro fique “de pé”, “com osso”, como na estética oriental. Notava que Rubens usava cores quentes na luz e cores frias na sombra, e áreas com gradações de cinza para diminuir o impacto do contraste. Também comentava sobre os cinzas coloridos de Goya, e ensinava: “quanto maior é o contraste entre o claro e o escuro, menor é o contraste de cor e vice-versa”. “Por isto Matisse não possuía preocupação com luz e sombra, em sua obra tudo é cor” – pensava Mário Carneiro, assimilando os conhecimentos que mais tarde usaria ao fotografar em cinema....

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A Civilização Ocidental frente à Pós-Modernidade: uma análise de valores

19 July 2013 | Nenhum comentário

(Publicado em 2013) INTRODUÇÃO O conceito de civilização, segundo Toynbee, diz respeito às sociedades que atingiram um grau de desenvolvimento econômico e cultural que as tornou complexas, isto é, compostas de classes sociais, dentre as quais algumas não estão diretamente envolvidas com a produção de alimentos. Civilizados são os povos que possuem classes sociais parasitas, ou seja, grupos sociais que consomem e não produzem (comem sem plantar, criar ou colher), em geral compostas de soldados, religiosos e administradores. E, além disto, possuem uma cultura rica e diversificada, que supõe alguma forma de escrita, arquitetura, religião e arte. Tal conceito não é garantidor de consensos, o que torna polêmicas algumas sociedades consideradas por alguns como civilizações, tais como a civilização africana e a latino-americana. Entretanto, há consenso de que os povos que habitam a Europa e as Américas integram e são herdeiros do que chamamos de civilização ocidental. E, mesmo para aqueles que aceitam o conceito de uma civilização latino-americana, incorporando valores indígenas à civilização ocidental, o fazem pensando mais nos países latinos em que os indígenas chegaram a constituir civilizações (como as Inca, Asteca e Maya), tornando-se a maioria de certas populações nacionais, o que deixa o Brasil de fora. Assim, não será tratado aqui acerca da cultura brasileira e de suas especificidades, mas apenas daqueles aspectos que nos inserem na civilização ocidental. A civilização ocidental fundamenta-se numa herança quádrupla: somos oriundos da tradição judaico-cristã e da cultura greco-romana. Entretanto, com o Iluminismo e o Humanismo acrescentamos a esta herança o cientificismo, o Liberalismo, a República laica e o capitalismo moderno, desembocando nas democracias ocidentais e na economia globalizada. Porém, como nenhuma civilização é uma tradição congelada no tempo, e todas as sociedades se transformam e são transformadas, nem mesmo a civilização ocidental pode ser vista como um todo homogêneo e imutável. A nossa civilização tem se transformado no tempo, cada idade histórica (Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Contemporaneidade) tem incorporado a ela novos valores e características, e extinguido ou modificado valores mais antigos e originários. Hoje vivemos a pós-modernidade ou a hipermodernidade, não importa o conceito usado, já que mesmo pensando na hipermodernidade como continuação (em vez de superação) da modernidade, tratamos de um período de tempo em que as coisas são, pelo menos superficialmente, diferentes. Ou se são iguais, o são num outro ritmo e sentido, em suma, são diferentes, independentemente do nome que se dê. A pós-modernidade surgiu como o desenvolvimento da civilização ocidental (judaico-cristã, grego-romana, democrática e capitalista) e consequência do progresso extraordinário da tecnologia, em especial os avanços na automação, no processamento das informações e na comunicação. Daí que, assim como o cientificismo, o liberalismo e o Estado Republicano e laico produziram as democracias modernas, e o capitalismo produziu a revolução industrial, a pós-modernidade produziu a revolução tecnológica eletroeletrônica e o mundo cibernético do big brother geral. Em outras palavras, a civilização ocidental foi acrescentando à sua estrutura original novos revestimentos, camadas sobrepostas de novas características, que reforçam, alteram, suprimem ou invertem aquilo que a caracterizava. Portanto, de modo a melhor explicitar tais mudanças e transformações, este artigo tratará de expor os valores de nossa civilização ocidental, confrontando-os com os valores de nossa sociedade pós-moderna, neocapitalista e pós-industrial. O que perdura de nossas bases civilizacionais ocidentais? Que mudanças ocorreram em nossos valores? Que valores...

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