Stockinger: a perenidade do bronze, a beleza agreste dos cactos e a grandeza simples das pedras

(Publicado em 1999)

O artista Francisco Stockinger está fazendo 80 anos, e uma exposição tríplice o homenageia no MARGS, na Usina do Gasômetro e no Centro Municipal de Cultura. Tal mostra é bastante representativa do conjunto de sua obra, abrangendo dos anos 50 aos 90, e inclui Guerreiros, Sobreviventes, Cavaleiros, Amazonas, Centauros, Touros, Pedras, Nus, Flores, Gabirus e outras figuras, atestando a riqueza e variedade de sua obra, quer em materiais, temas ou formas. Acostumados com artistas mitificam suas obras, surpreendemo-nos com o Xico, uma pessoa cativante que, ao falar, desmistifica o seu trabalho e a si mesmo como artista. Stockinger é, ao mesmo tempo, uma pessoa simples e o mais importante artista gaúcho vivo, é também um dos maiores escultores do Brasil, o contraste de sua importância e simplicidade faz sua presença e obra dignos de reverência.

Stockinger é brasileiro naturalizado, nascido na Áustria em 7 de agosto de 1919, filho de pai austríaco e mãe inglesa, desde 1921 residente no Brasil e desde 1954 em POA. Ao optar por viver aqui, o Xico abriu-se de tal forma à nossa cultura e realidade que sua obra tudo tem de nossas raízes. O RS, em sua história e formação cultural, foi marcado pela vastidão do espaço pampeano e pelos conflitos de fronteira e com o Governo Central. O imaginário do Xico reflete tal gaúcho, através da poética do guerreiro viril e livre, e através do cavalo e do touro.

O touro representa a fecundidade da terra, pois seu principal papel é cobrir as vacas. O cavalo participou da história do RS e se fazia presente nas lides do campo. Ser cavaleiro é ter sob domínio o cavalo, os instintos, é ser alguém superior, possuidor de virtudes físicas, morais e espirituais. Assim são os guerreiros do Xico, não exprimem medo, violência ou ódio, mostram-se com as armas engalanadas, como num desfile comemorativo de vitória ou duelo medieval, exibem orgulho, honra, altivez e arrogância.

Na maior parte de sua produção, Xico utilizou o bronze, o ferro com madeira e a terracota. Mas o mármore, o basalto e o granito, levaram-no à abstração. Xico produziu pedras dos anos 60 aos 90; sucederam-se paisagens lunares, colunas, sanfonas e bancos, onde contrastam peso e leveza, vazio e cheio, polido e bruto, acabado e inacabado, em volumes que parecem pesar e dobrar-se sob seu próprio peso, e que lembram objetos de culto. Suas flores são esculturas em ferro, com discos e hastes formando margaridas que lembram o sol. Com elas Xico exalta a vida, mas o faz com uma matéria inorgânica, dura, fria e escura, que ele pinta com cores vivas. Já suas figuras femininas possuem, em geral, uma sensualidade própria de fêmeas, e carregam um ar de liberdade e companheirismo, mas nos anos 60 surgiram também mulheres disformes, com rugas e densidades.

Na série Sobreviventes, dos anos 60 e 70, Xico utilizou ossos junto com ferro, madeira e outros materiais de sucata, compondo figuras deformadas, com membros descarnados e amputados, o grotesco como arte. Nos anos 90 surgiram Os Gabiru, ou seja, “famílias” de nanicos catadores de lixo, seres no limiar da condição humana e da sobrevivência. Tais figuras são de grande impacto dramático, não só através da imagem universal da mãe com o filho morto, mas também na representação do abraço que consola e nos sem rosto e identidade. Xico nos obriga a olhar para aqueles que costumamos desviar na rua. Sua denúncia, nua e crua, nos faz pensar: que responsabilidade temos nisto? O que nos cabe fazer?

Stockinger, aos 80 anos, afirma que “o importante é fazer o que se gosta e ser feliz com isto”, o mais é trabalho constante e olhar agudo, que lhe permite destruir as peças que não estejam à altura de sua visão. Xico é um perfeccionista que produz arte com o mesmo afinco com que coleta cactos, em meio à inóspidas paisagens e caminhos de pedras. O Luiz Fernando Veríssimo escreveu sobre a sua paixão pelos cactos: “O Xico (…) tem um pouco de cacto, alguma coisa áspera e espinhenta…”. Seu lado áspero é seu modo de ir direto ao ponto, sem rodeios, e sua obra reflete isto, tem, como ele, uma beleza rara, expressão da vida que desabrocha e floresce, mesmo em condições adversas.

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