Ame-o ou deixe-o

            Na época da ditadura militar o Governo propagandeava – ame-o ou deixe-o – incentivando os descontentes a irem para o exílio e, de modo enganoso, associando o nacionalismo e patriotismo ao endosso ao regime autoritário. Hoje poderíamos resgatar a mesma opção num outro espírito. E, quando penso no amor que tenho por meu país percebo que se fundamenta na vontade de fazê-lo melhor e não de aceitá-lo como é. Mas, cada vez mais me convenço de que ou o amo como é ou desisto dele, porque hoje descreio de que ele possa lograr se fazer melhor de maneira significativa em médio prazo. Considerando as nossas elites e os nossos dirigentes, certamente podemos mudar para pior, e não melhor.

            A campanha eleitoral de 2014 foi um estelionato eleitoral, pois se prometeu o que se sabia que não seria cumprido, e fingiu-se uma situação ficcionada, construída como peça publicitária e não como retrato da realidade. Virada a página e ganha as eleições, o Governo tirou a máscara e anunciou o assalto, tirando o que parecera ganho. O povo saiu às ruas, mas sem resultados, porque afinal, sem Dilma teríamos Temer, Renan e Cunha, todos réus ou investigados, com exceção da presidente, afogando-se num mar de lama e no desgoverno. As elites reclamam, mas não serão afetadas substancialmente. Os políticos aprovam o que está na contramão do interesse popular, e os poderosos cobram a conta dos pobres e assalariados. E o que é pior, sabe-se que sem a ganância de ganhar as eleições, o Governo teria feito o dever de casa antes da casa cair, e o dano ao país e aos brasileiros seria bem menor.

            Cabe pensar: se eu tivesse nascido num país desenvolvido minha vida seria melhor? Se eu vivesse em tal ou qual lugar teria tido melhores condições para me desenvolver e seria hoje mais valorizado e respeitado? Aqui não vige a meritocracia nem o talento construído com esforço próprio, pois o que mais vale é um padrinho poderoso. Penso nas novas gerações, em nossos filhos e netos: se eles estudassem no exterior provavelmente teriam uma educação de mais qualidade e seriam mais competitivos globalmente. Aqui eles têm uma grande chance de serem assassinados, assaltados, violentados, aviltados, além de não terem uma polícia e uma justiça que lhes garanta direitos básicos. Aqui eles certamente trabalharão mais e ganharão menos, com menos condições para crescerem profissionalmente e se sentirem realizados. Aqui eles não dormirão tranquilos frente às perspectivas futuras, pois tudo é incerto quando as regras do jogo vivem mudando durante o jogo, quando os velhos não são valorizados e os fracos e pobres veem apoios serem retirados.

            Enfim, tento não ser pessimista e luto por tornar melhor este país. Entretanto, não deixo de pensar, às vezes: como seria se eu fosse embora? Nossos jovens já estão partindo, talvez esteja chegando a vez dos velhos. Ame-o ou deixe-o é falso, pois amá-lo não significa amar seus maus governantes, e também porque mesmo deixando-o não vou deixar de amá-lo.

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