Amar e Servir

Todos nós deveríamos, em algum momento, exercer uma atividade que nos fizesse servir os outros. No poema “Tabacaria”, um heterônimo de Fernando Pessoa pensa que “se casasse com a filha da lavadeira, seria feliz”. Isto porque teria uma esposa que veria o mundo de modo simples, sem complicações. Talvez por isto sempre me senti atraído pelas garçonetes sorridentes. Se elas sorriem e estão felizes em serem gentis e servir, certamente saberão melhor amar a quem amam, e a se sentirem plenas com pouco, já que aparentam não serem afetadas por seus baixos salários. Quisera eu ser assim, satisfeito com o que tenho e recebo, grato com a oportunidade de fazer alguém sorrir e ser feliz, servindo. Que é o amor senão um tipo de serviço? Palavras lindas e poéticas não declaram um amor mais intenso do que gestos de carinho e cuidados. Como escreveu Saint Exupéry: “somos responsáveis por quem cativamos”. Amar é estar a serviço do ser amado, fazendo-lhe feliz, agradecendo por sua existência e afeto.

Portanto, ser garçon ou garçonete é um bom começo. Servir com amor ao ser amado é ser grato a Deus pela vida, é não querer mais do que se tem. Ou melhor, é querer mais, mas sem sentimento de insuficiência, é ser fiel por absoluta certeza de que um amor sincero, profundo e pleno, não tem espaço para escapadelas, aventuras, mentiras ou escondimentos. E quando escrevo “servir”, não é no sentido de ser “servo’ e submisso, ou seja, não é fazer por obrigação, acomodação ou subordinação. Não serve bem quem não escolheu servir, quem não sorri, quem não se sente vivo e pleno, servindo. Por isto escrevi sobre as garçonetes sorridentes, sorriso é fundamental! Mas não serve o “sorriso Mc Donald’s”, ensaiado, falso, caricato. Estou falando sobre o riso que brota do coração, sobre a felicidade que temos com a simplicidade da vida, e que jogamos fora com nossas frustrações, insaciedades, ambições, taras, vícios e defeitos. Somos seres cheios de ódio, ressentimentos e mágoas, assim, destilamos veneno em nossso sangue, pensando que viver é ansiedade e stress, depressão e tédio, que somos o centro do universo ou o cu do mundo. Por isto é difícil respirar fundo, olhar nos olhos dos outros, sorrir quando olhamos, estendendo a mão a quem precisa e abraçando quem carece de um abraço. Ah, se eu casasse com uma garçonete sorridente seria feliz! Ah, que babaca sou, pois eu é quem precisa sorrir e servir. Assim já sou feliz, e tenho comigo o sorriso da garçonete que serve com amor a quem ama. Assim eu amo, saciado e pleno, grato pelo que tenho e sou.

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