A Vida como Obra Inacabada

            Inspirado num sonho, vim por me dar conta que há duas maneiras básicas de encararmos a morte, quando ela advém na velhice, ao final de uma vida inteira. Novalis escreveu que “a filosofia é a preparação para a morte”. Assim, como filósofo, sempre me achei mais preparado que outros para tal evento, mesmo considerando o que diz a filosofia do Yoga clássico: que até os mais sábios vacilam na hora da morte. Ou seja, que ninguém está devidamente preparado para ela. Apesar disto, achava que a morte deveria ser considerada, no dizer poético de Saint Exupéry, “o fecho da abóboda” da catedral da vida, o coroamento de todas as vivências e aprendizados. Porém, nisto está suposto que a morte se daria como o acabamento de uma obra, o que é um modo básico de encará-la na velhice, ao final de uma vida inteira. Mas há outro modo de encarar a morte.

            Obviamente aqueles que morrem jovens, por acidente ou morte repentina, certamente vão da vida deixando projetos inacabados, sonhos irrealizados e ações pela metade. Mas independentemente destes, aprendi que a maioria daqueles que se vão na velhice avançada também viveram uma vida plena de incompletudes. Viver é, mesmo que não gostemos ou queiramos, deixar coisas a meio caminho, desistir de sonhos, mudar de projetos, e acabar com relações e afetos sem uma conclusão que apare arestas. Viver, em suma, é deixar lastro pelo caminho, abandonar coisas e pessoas, desistir de empreitadas, mudar de ideia e esquecer de coisas, de modo que, ao final, não há um fecho de abóbada. Nossa vida é muito mais um tijolo na construção coletiva, e muitas vezes um tijolo não importante, ou até abandonado no canteiro de obras.

            Não estou dizendo com isto que a vida é inútil ou que não vale a pena viver, pelo contrário, quanto mais aprendemos a mudar, abandonar, largar, desapegar, mais vivemos a vida em plenitude, porque a essência dela, se é que ela tem uma essência, é a mudança, é o ir e não o chegar. Morrer, chegar, é interromper a caminhada, não é o fim do caminho. Assim, aprender a morrer é aprender a deixar a vida inacabada sem um gosto de frustração ou de fracasso, ou de cansaço de quem desiste. Deixar a vida inacabada é também um aprendizado, é saber seguir em frente mesmo quando as malas se perderam pelo caminho. Não estou pensando em morte, e sim na vida, e nos livros inacabados, nas ideias não desenvolvidas, nos projetos não realizados, nos amores não consumados, enfim, em tudo que ficou e ficará pela metade, como este texto.

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