A solidão do não poder

            Enquanto eu escrevo este texto, os principais partidos políticos da base de sustentação do presidente Temer estão reunidos para decidir se e quando desembarcam do Governo. E, independentemente da edição ou não do áudio gravado pelo Joesley, da JBS, o Governo do presidente Temer acabou. Desde o início de seu mandato ele não tinha o apoio do povo, amargando índices de rejeição iguais ou maiores que o de Dilma no auge do processo de seu impeachment. Tinha como mérito sua profunda inserção no Congresso Nacional, ou seja, uma grande capacidade de negociar acordos e apoios. Mas considerando que este Congresso que aí está, na sua maioria envolvido na Lava jato, não passa de um grande balcão de negócios escusos, a inserção de Temer no Congresso em verdade é um demérito e não mérito, porque quem é bom de apoio é certamente também bom de negociatas. Daí que não tem como sua reputação resistir à delação do Joesley, já que um presidente, no exercício de seu mandato, receber na calada da noite um criminoso e ouvir do mesmo relato de seus crimes e nada interromper e assentir é comprovação de cumplicidade.

             Cabe lembrar que já havia outras delações contra o Temer, uma delas feitas pela Odebrecht, em que o então vice-presidente estava em meio a reunião com o Marcelo Odebrecht tratando de recursos para campanha eleitoral. Que um empreiteiro faria num Comitê de Campanha, em meio a uma campanha eleitoral, em reunião com o vice-presidente da República? E esta reunião foi assumida pelo Temer como existente, contradizendo Eduardo Cunha, que também estava presente. O presidente Temer ainda há pouco se contradisse em relação à babá de seu filho, mostrando-se enrolado até com denúncias de menor importância, e reagindo com inabilidade política. Um presidente a todo momento dar discursos em sua defesa, explicando-se como não criminoso, já é um marketing negativo sob o ponto de vista político. São mais espertos os que não se explicam, como o Padilha, o Jucá e o Moreira Franco, ministros de Temer, ou mesmo Lula, que mais ataca que se defende.

            Mais significativo que o desabamento da bolsa quando da delação foi um novo desabamento quando do discurso de Temer, afirmando que não renunciaria em hipótese alguma. Isto significou que, para o mercado, agora com Temer é pior do que sem Temer. Assim, sem apoio das ruas, sem apoio do mercado e das elites (empresários, banqueiros e investidores), certamente também ficará sem apoio no Congresso. Assim, teremos Temer pendurado num pincel, desabando do andaime do poder. Fala-se da solidão do poder, mas no caso amargará ele a solidão da perda de poder, ou seja, aos poucos será abandonado pelos seus. Fez bem Roberto Freire em entregar o cargo de ministro da cultura de saída, pois quem tem reputação a preservar não pode vacilar.

            Resta ver como cairá Temer, se por renúncia, voltando atrás de suas palavras; por impeachment, processo longo e desgastante; ou no próximo dia 6 de junho, quando do julgamento do TSE sobre a chapa Dilma-Temer, o que poderia, dependendo de interpretação do STF levar a eleições diretas. Todos nós queremos eleições diretas, mas creio que o caminho de uma PEC, ou seja, alterar a Constituição para permitir isto, é uma má escolha. Não pelo resultado, já que diretas é o que queremos, mas pelo caminho de sinalizar ao exterior que nossa instabilidade política também é jurídica, a ponto de mudar-se a Constituição por casuísmo.

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