A Revelação do Oculto

(Publicado em 1990) O Catálogo Brasileiro de Publicações registra no mercado editorial um grande número de obras publicadas no país sobre ocultismo. Uma onda de misticismo surge e temas como cristais, tarô, quiromancia e astrologia ganham destaque nos noticiários. Na verdade, o que vem sendo mostrado como um “novo”modismo é tão velho como a humanidade.

         

          1. O MISTICISMO Desde os primórdios da história, nas mais diversas civilizações, tem surgido um pensamento que podemos chamar de “místico”. Ele possui algumas ideias básicas, que se repetem nas mais diferentes culturas e épocas, vinculando-se, em parte, às grandes religiões. Daí se poder falar de um misticismo cristão, islâmico, judaico, hinduísta, etc. Misticismo é um nome genérico, que se aplica a todo o conhecimento que surja de uma experiência misteriosa, que esteja fora dos padrões explicáveis convencionalmente pela ciência, incluindo-se a experiência do divino. São ideias próprias das filosofias místicas as de unidade e ilusão. No dizer de Freud, a experiência mística equivale a um “sentimento oceânico”, porque nela é como se o “eu” abarcasse o meio circundante. Jung vê tal experiência como uma expansão de consciência que ilumina o inconsciente, fazendo com que o ego ceda lugar ao “Si”, centro de todo o campo psíquico.

          As ideias místicas estão presentes na história do pensamento e na literatura universal do mais alto nível; pena que quando se tornam populares o façam através da subliteratura. Rimbaud “acreditava em todas as magias”. Aldous Huxley afirmava que “toda a coisa que acontece é intrinsecamente semelhante a quem ela acontece”. Hermann Hesse escreveu: “Nada está dentro, nada está fora, porque o que está dentro está fora”.

         

          2. O OCULTISMO

          A novidade no modismo de cristais, tarôs, mapas astrais e outros exotismos, não é o fenômeno em si, mas sua massificação. Ocultismo é o nome genérico que se dá àqueles conhecimentos que escapam à compreensão do grande público e que não podem ser rotulados como ciência. Daí a expressão “ciências ocultas” – englobando a magia, a alquimia,  astrologia e, para muitos, erroneamente incluindo também todas as formas de adivinhação: cartomancia (cartas), quiromancia (mãos), belomancia (flechas), etc. Além das “mancias”, o público inda associa equivocadamente ao ocultismo a bruxaria, o mediunismo, o faquirismo e outras práticas, muitas vezes passíveis de charlatanismo, “comerciais”, explorando a credulidade e a superstição do povo.

          Da antiguidade até a Idade Média, não havia uma separação clara entre o filósofo e o cientista. Ocultismo se confundia com a ciência mesma: a magia deu origem à medicina, a alquimia à química e a astrologia originou a astronomia. No século XX, o ocultismo, depois de marginalizado pela ciência oficial, passa a ser até certo ponto reabilitado por uma série de estudiosos humanistas contemporâneos e até por alguns cientistas. O psicólogo Jung considerava a astrologia como a psicologia dos antigos e, através de sua Teoria da Sincronicidade, demonstrou que todos os métodos de adivinhação, mesmo não possuindo validade “científica” em suas previsões, se inserem no universo dos fenômenos psíquicos que possuem uma lógica e um sentido.

         

          3. O MODISMO E SEUS PROBLEMAS

          Não há lugar hoje, nesta “aldeia global” em que virou o mundo, para um ocultismo no sentido próprio do termo “oculto”: esotérico, próprio de poucos iniciados. Mesmo que a vanguarda científica e tecnológica e a especialização humanística sejam acessíveis somente a uma elite intelectual, as massas deverão cada vez mais, ter acesso à difusão vulgarizada de tais conhecimentos. Por isto, o que estava oculto está sendo revelado.

          Mesmo sem podermos impedir a popularização distorcida do ocultismo, não devemos permitir a charlatanice, a manifestação grosseira, o fanatismo “monástico” de seita, isolacionista. Para Franz Kafka, o problema da literatura ocultista é o de dar a impressão de que tudo já foi descoberto, de que existe uma ciência que conquistou o saber absoluto, guardado para acesso de “iniciados”. Ou a teoria ocultista é demasiadamente complexa e explica tudo, mesmo sem provas, ou é por demais simplista e não explica nada. Como para o ocultismo tudo possui significado, nada é por acaso. Assim podemos cair no extremo da mulher que reclamava do marido esoterista: “Que saco! Até a cor do batom que eu uso para ele tem um significado oculto…”.

          4. AS CAUSAS

          Quando nos perguntamos sobre o por que da onda mística e ocultista, percebemos que as causas são muitas. Talvez o principal motivo se encontre na crise das instituições: família, Igreja, Estado. A família, muitas vezes, não isenta as pessoas do sentimento de solidão. Daí a busca de um grupo que preencha comunitariamente a carência de fraternidade, solidariedade e amparo. Diante de igrejas que longe estão da moral moderna e do preenchimento de uma necessidade espiritual mais objetiva, principalmente de pessoas bem informadas e avessas a dogmas de fé, o misticismo atrai como uma espécie de religiosidade individual e subversiva. Ele permite uma liberdade quase absoluta de credos, interpretações e práticas.

          O Estado e a democracia não resolveram o problema da miséria, que aumenta a fome espiritual daqueles que desembocam no ceticismo político, como demonstram os percentuais de votos brancos e nulos de nossas eleições. A concorrência capitalista, a angústia do ateísmo contemporâneo, o consumo desenfreado, próprio de uma compulsão oriunda de um sentimento de carência, mostram o quanto estamos desamparados. Em suma, vivemos o conflito entre as necessidades materiais e exigências do cotidiano de um lado e a ânsia de fuga e alívio de outro.

          E como dizia o filósofo e matemático Bertrand Russell: “O Misticismo é válido como atitude diante da vida, não como doutrina acerca do mundo”.

Antonio Henriques

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