A Memória e a Morte

            Foi-se desta vida a minha ex-companheira e mãe de meu único filho, Zali, uma mulher que ajudou outras mulheres a se tornarem mulheres de verdade, deixando de serem apenas reflexo ou apêndice de seus homens. Seus conhecimentos de astrologia a fizeram conhecedora profunda da alma humana, e sua espiritualidade, feita de bondade e lapidada pela prática do Yoga, a tornaram uma pessoa que irradiava paz e luz, a ponto de muitas pessoas dela se acercarem para beber de sua sabedoria.

            Sua vida teve vários capítulos, e em cada um deles ela foi talvez um personagem diferente, acumulando experiências. Foi filha, estudante, colega, professora, esposa, militante, atriz, discípula, companheira, mãe, avó e, principalmente, guru de toda uma geração de meninas e mulheres.

            Participei com meu filho dos rituais de sua despedida e, obrigados pela necessidade, tivemos de lidar com as lides burocráticas de pós-morte. Isto me fez refletir sobre o significado e o alcance de uma vida, e sobre a morte, como vivência de quem fica. Ao partirmos, deixamos para trás memórias armazenadas nas pessoas que conviveram com quem partiu, que podem ser boas, ruins ou neutras. Mas há um número grande de memórias que partem junto com quem se vai, de modo que muitas histórias de vida se perdem, e muitas versões de fatos conhecidos jamais serão conhecidas. Por fim, todos os detentores de memórias comuns também se vão, e aquela pessoa se perde no vazio, e neste caso só fica a sua obra: filhos, netos, livros, pinturas, criações de todo tipo e ordem. Mas de muitos nem isto fica, somente a certeza de que tudo o que vier a acontecer no futuro terá sido, indiscutivelmente, consequência do passado. E que, portanto, ninguém se perde no sentido de uma existência inútil, relativamente tudo é útil, tudo tem sentido e nada é em vão.

           Os bens materiais que ficam, são apossados por outros e não guardam necessariamente a memória de seus antigos donos. Daí que as coisas menores se tornam grandes e importantes, pela carga de memória que possuem, já que são mais íntimas que as grandes posses, contêm uma escolha pessoal, um toque, uma vibração, um cheiro. E por isto nos emocionamos quando as manipulamos.

            Partiu uma grande amiga e irmã espiritual, já que recebemos iniciação e ensinamentos juntos, vivemos experiências místicas juntos, como se as nossas duas energias somadas abrissem portas sutis, juntos vivemos inúmeras experiências mundanas e transcendentais. Fica a memória de tudo o que foi vivido, fica da morte uma certa dose de vida, já que nada se perde e tudo se transforma. Fica o filho e os netos, sementes germinadas que plantamos juntos. E quando as pessoas sonham com ela, e os seres queridos sempre se manifestam nos sonhos, ela aparece luminosa, atestando sua estatura transcendental, própria de planetas superiores. Adeus, que tenhas uma boa viagem, viajante!

 

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