Maçonaria e Pós-Modernidade

              Ao ser convidado a contribuir com uma análise da Maçonaria na contemporaneidade, pensei em fazer um estudo comparativo entre os valores de uma instituição milenar – a Maçonaria – e os valores da sociedade atual, associada ao fenômeno da pós-modernidade. De um lado cabe analisar como a Maçonaria tem persistido no tempo e qual será seu futuro, de outro, necessário se faz ver que atitude ela deve adotar em relação à contemporaneidade. Deve ser a Maçonaria um reduto de conservadorismo, resistindo às mudanças do tempo? Ou deve estar ela em constante processo de construção, renovação e adaptação à modernidade? Em suma: como uma instituição, supostamente milenar – a Maçonaria – poderá subsistir na pós-modernidade?

              Todas as instituições milenares, como a Igreja Católica Apostólica Romana ou a Igreja Ortodoxa, são exemplos similares de modos de perpetuação no tempo, ou seja, de sobrevivência de seus valores antiguíssimos frente às transformações da história e das sociedades no decorrer dos séculos. Podemos supor que com a Maçonaria não seja diferente, pois se de um lado ela é resultante de uma tradição que remonta à antiguidade mítica, de outro possui uma história mais recente, que vai da Idade Média e Moderna até os nossos dias, em que podemos identificar as mudanças que foram se dando no tempo. Por fim, cabe ver a Maçonaria hoje, frente às profundas transformações da modernidade e pós-modernidade, refletindo sobre como ela se instala em nosso tempo.

 

I – O QUE É E COMO É A MAÇONARIA?

            A Maçonaria hoje é essencialmente uma instituição filosófica, filantrópica, ritualística e mística, que prima pelo conhecimento esotérico, ou seja, aquele transmitido a poucos iniciados, e zela pela preservação da tradição espiritualista e moral de que se diz depositária. Na Constituição do Grande Oriente do Rio Grande do Sul – GORS está escrito, entre outras coisas, que a Maçonaria:

  1.   “Proclama a prevalência do espírito sobre a matéria.
  2.   Pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade.
  3. Condena a exploração do homem, bem como os privilégios e regalias
  4.  Afirma que o sectarismo político, religioso ou racial é incompatível com a universalidade do espírito maçônico.
  5. Combate a superstição, a ignorância e a tirania.
  6. Defende a plena liberdade de expressão do pensamento.
  7. Proscreve o recurso à força e à violência.
  8. Reconhece o trabalho como dever social.
  9. Considera irmãos todos os maçons.”

             Por fim, considera como deveres maçônicos: “amor à família, fidelidade e devotamento à pátria, e obediência à lei”.

            Por tais princípios a Maçonaria é espiritualista, democrática, pacifista, igualitária, defensora da ciência e da lei, portanto, conservadora ou revisionista, e nacionalista em seu respeito à pátria, apesar de se propor universalista. Ao manifesta-se contra o sectarismo religioso, político e racial, a Maçonaria posiciona-se também contra o fanatismo e o dogmatismo. Tanto é assim que ela defende a tolerância, “para que sejam respeitadas as convicções de cada um“, e combate a tirania, em outras palavras é contra a opressão e a ditadura, defendendo a liberdade e a democracia, ao menos na teoria, já que historicamente nem sempre isto aconteceu, como mais tarde demonstraremos.

            Pode ser aceito como maçom quem acredite em Deus e esteja trabalhando, tenha sua vida e moral investigada sem reparos, e seja aceito sem nenhum veto pela comunidade de irmãos. O ingresso se dá através de um ritual de iniciação extremamente teatralizado, com preparação, interrogatório, juramentos, viagens simbólicas, vestes ritualísticas, palavras e signos de reconhecimento, etc. N o ritual o candidato fica imerso física, emocional e mentalmente, o que é extremamente impactante e um dos pontos fortes da tradição maçônica.

            A Maçonaria é também resultante de uma corrente pitagórica, pois herda dos matemáticos gregos uma mística numérica, exacerbada na concepção ritualística. Três são os graus simbólicos, três mestres formam um Capítulo e sete uma Loja. Nos ritos de cada Loja, os comandos são reprisados por três vozes: o Venerável Mestre, o Primeiro Vigilante e o Segundo Vigilante. Atrás do assento dos Veneráveis vê-se o Olho que Tudo Vê, inscrevendo a Santíssima Trindade dentro de um triângulo pitagórico. Às vezes, no triângulo, vê-se inscrito o místico Iod He Vau He, nome de Deus em letras hebraicas, feitos só de consoantes, pois suas vogais foram perdidas, colocando em dúvida o verdadeiro Nome de Deus e sua correta pronúncia. Sobre o altar dos Juramentos vemos o Livro da Lei ou Palavra Divina, representado por uma Bíblia judaico-cristã (poderia ser o Alcorão em comunidades muçulmanas), e sobre ela, o esquadro e o compasso, símbolos maiores da Obra maçônica: a construção de um templo espiritual no coração de todos os homens.

            Os templos possuem 12 colunas laterais unidas por uma corda com 12 laços, sob um teto pintado como um céu estrelado, representando os 12 signos do zodíaco e o universo, organizado como um cosmos em torno do sol espiritual (o fogo central dos pitagóricos), unido pela irmandade dos maçons (os laços). Em diferentes ritos há diferentes números de graus, sendo o Rito Escocês Antigo e Aceito o que possui mais graus: trinta e três.

 

II – SOBRE ALGUNS DOS LANDMARKS

            O termo “landmark”, originário da demarcação dos limites de propriedade da terra, no dicionário maçônico de Gervásio de Figueiredo é traduzido como “baliza”, “limites” e “ termos”. Na Maçonaria este é o nome que se dá aos seus princípios fundamentais, conforme foram eles definidos pelas Potências Maçônicas. Segundo uma versão comumente aceita, o termo foi extraído da Bíblia por James Anderson (Provérbios 22:28, e 23:10; Deuteronômio 19:14 e 27:17, e Jô 24:2) autor das Constituições Maçônicas de 1721. Mesmo alegando-se que tais princípios originaram-se da mais antiga tradição judaica, egípcia ou mesopotâmica, provavelmente eles se originaram na Idade Moderna e sofreram diferentes formulações desde lá. Alguns consideram tais princípios flutuantes, portanto, não essenciais, dificultando a defesa de uma Maçonaria detentora de uma tradição remota, sagrada e imutável. Não nos interessa tal debate, queremos apenas listar quais são os principais landmarks, e mostrar como eles podem ser vistos hoje.

            1. Crença em Deus como Grande Arquiteto do Universo.

            Crer em Deus é pré-requisito para alguém ser iniciado na Maçonaria, porém, as grandes religiões orientais – Hinduísmo, Budismo, Taoísmo, Xintoísmo – não possuem a idéia de um Deus criador, o que é próprio apenas das três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), ou seja, as religiões orientais, assim como as tradições xamânicas, indígenas e negras, tampouco compartilham a visão de um Deus Arquiteto do Universo. A concepção maçônica de Deus é de origem judaica, pois além de possuir a idéia de um Deus Criador de todas as coisas, remete a mais que isto, vê Deus como um pai severo, que exige um comportamento moral estrito e castiga as fraquezas e desvios.

            2.    Que Deus se expressa como Sabedoria, Força e Beleza.

            A concepção maçônica de criação remete à Cabala judaica, em sua concepção de emanação, expressa na Árvore Sefirotal, com seu Deus Imanifestado, oculto e sem rosto e nome, e suas emanações, que remetem não só a uma hierarquia Angélica (Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potestades, Virtudes, Principados, Arcanjos, Anjos), mas também a uma série de atributos divinos que estão associados à prática das virtudes entre os humanos. No topo da Árvore Cabalista está Kether (a Coroa), Binah (a Inteligência) e Hochma (a Sabedoria), os três maiores atributos de Deus, que remetem às idéias de força, beleza e sabedoria.

            3. Crença na imortalidade da alma

                        Tal crença vincula a Maçonaria à tradição religiosa e filosófica ocidental, já que a idéia dualista de ser humano, possuidor de um corpo mortal e de uma alma imortal, vem de Platão e do neoplatonismo em seu viés místico, de forte herança pitagórica. De outro lado, a tradição judaico-cristã, apesar de em sua origem não remeter ao dualismo platônico, contempla também a idéia de uma alma imortal. No oriente não temos uma idéia de alma imortal, já que, por exemplo, os princípios budistas de impermanência de todas as coisas e de insubstancialidade de um eu, desfazem a possibilidade de haver um ser humano egóico sobrevivendo além da presente vida. Em outras palavras, a Maçonaria, apesar de se dizer e propor universal, tem dificuldade de assimilar os povos orientais em sua doutrina, por ser ela um tanto impermeável às principais idéias da espiritualidade oriental.

            4. A Lenda do Terceiro Grau.

            A lenda do terceiro grau remete a uma história que se passa na antiguidade judaica e mesopotâmica, mas por conter a ideia de morte e ressurreição, associa-se a todos os ritos iniciáticos. Os povos ocidentais e os orientais, as civilizações desenvolvidas e os povos primitivos das sociedade ágrafas, todos, indistintamente, relatam mitos ou histórias, e dramatizam ritos, que contém a ideia de morte e ressurreição. Variam as concepções e formas de ressurreição, mas uma mesma ideia sempre está lá, o que nos lembra Osíris, Jesus, Vishnu e seus avatares. Em suma, o rito e a lenda do terceiro grau é o que há de mais universal e essencial na Maçonaria, daí sua importância.

            5. Os três graus simbólicos.

            São eles – aprendiz, companheiro e mestre – o que remete ao canteiro de obras, onde há o mestre de obra, o pedreiro e o servente de pedreiro. Em verdade o mestre de obras na Maçonaria Operativa medieval era o arquiteto ou engenheiro civil de hoje, com a diferença de que, quem fosse mestre (arquiteto) havia sido antes aprendiz (pedreiro). Daí a ideia de que todos são iguais, ou melhor, irmãos, e de que o trabalho enobrece.

            6. Os modos de reconhecimento entre maçons: sinais, palavras e gestos.

            Os maçons devem tratar seus irmãos como tais, mesmo que estes não sejam irmãos de mesma Loja ou Potência, daí a necessidade de sinais de reconhecimento, extensivo também aos graus, para que cada maçom possa identificar o nível de avanço e conhecimento de seu irmão. Há uma história que ilustra os deveres de cada irmão. Conta ela que um maçom em viagem adoece, e diz a um estalajadeiro para cuidá-lo até a morte e lhe dar sepultura digna, que depois, colocando sobre sua porta um signo maçônico, outro maçom lhe remuneraria por seu trabalho. O estalajadeiro assim procedeu, e um maçom em viagem, ao ver o signo, indaga sobre o motivo deste, e ao ouvir a história que o estalajadeiro lhe conta, o remunera pelos cuidados do irmão doente e por seu sepultamento. Indagado se o conhecia, respondeu: “Não, mas era meu irmão”.

            7. Os objetos simbólicos: esquadro, compasso e as sagradas escrituras.

            Cada objeto maçônico oriundo dos canteiros de obras possui duplo significado, já que remete à Grande Obra, ou seja, à ideia de que lapidar a pedra bruta, fazendo-a polida, até transformá-la em pedra filosofal, é uma representação simbólica do trabalho que o iniciado nos mistérios maçônicos faz sobre si mesmo, remete à transformação interior que a maçônica produz em todos os que vivenciam seus mistérios.

            8. A tese de que todos os seres humanos são essencialmente iguais, com diferenças meramente circunstanciais.

            Tal preceito remete ao filósofo Jean-Jacques Rousseau e à idéia de que “todos os homens nascem livres e iguais”, o que preparou caminho à doutrina socialista, pois segundo ela as diferenças seriam dadas pela propriedade privada. Daí a defesa de um modelo igualitário, de início utópico, depois marxista e, finalmente, hoje social democrata. Apesar disto a Maçonaria se colocaria contra o comunismo, por seu materialismo e por associá-lo ao ateísmo. A Maçonaria também não adotou a crítica utópica à propriedade privada, devido à profunda inserção da filosofia Liberal em sua doutrina. Mas não seria absurdo dizer que, por seu humanismo, a Maçonaria deveria postular uma posição social democrata, que defende um capitalismo com propriedade privada, liberdade, democracia, porém, com menos diferenças sociais. Em vez de assumir a defesa explícita de um capitalismo com distribuição de renda, a Maçonaria terminou por dar demasiada ênfase a uma visão assistencialista, e todos sabemos que a filantropia é muito mais paliativa que solução, já que dar o peixe não é o mesmo que ensinar a pescar.

            9. Que sete maçons constituem uma Loja.

            Novamente nos defrontamos com a influência pitagórica, que dá aos números um poder mágico e excepcional. Porém, a valorização do número sete remete também à tradição judaica, expressa no candelabro de sete braços, e ainda aos “sete espíritos ante o trono” do Apocalipse cristão que, em verdade, deriva do zodíaco pagão, que na Antiguidade compreendia sete luminares: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

            10. A preservação dos segredos da Maçonaria.

            Modernamente deu-se uma relativização dos segredos, já que em qualquer esquina podemos encontrar livros e outras publicações sobre Maçonaria, algumas contendo “segredos” antes cuidadosamente preservados. Modernamente é lenda o assassínio dos traidores que revelem os segredos, já que a Maçonaria, com sua moral rígida de obediência à lei, não poderia cometer crimes para preservar os seus segredos: ela não é uma máfia. Porém, divulgados abertamente, os segredos maçônicos perderiam o seu conteúdo mais precioso, já que o verdadeiro segredo não está na letra da doutrina, mas em sua prática e vivência, ou seja, no espírito místico e iniciático que se traduz em estudo, reflexão e prática consciente.

            11. Toda Loja deve ter um cobridor guardando a porta externa do Templo.

            Dá-se aqui ênfase à preservação dos segredos, como um reforço do sentido interior, subjetivo ou intersubjetivo da vivência em Loja, em que o mundo da materialidade fica do lado de fora, devidamente vigiado.

            12. O Governo da Fraternidade Maçônica por um Grão Mestre e da Loja por um Venerável Mestre.

            Aqui defende-se a tradição iniciática, em que a transmissão do conhecimento espiritual se dá de boca a ouvido, ou seja, a partir da relação entre mestre e discípulo. Os Grãos Mestres e os Veneráveis Mestres são os que presidem a assembléia de irmãos, ou seja, são escolhidos democraticamente dentre o conjunto dos mestres.

            13. Todos os maçons devem trabalhar em Capítulos ou Lojas (em equipe).

            A Maçonaria não é um conhecimento que possa ser assimilado solitariamente, já que faz parte dele a vivência da fraternidade, o que implica, obrigatoriamente, a vivência em grupo, com todos os méritos e dificuldades que isto traz.

            14. De que os landmarks não podem ser modificados.

            Aqui reside a preocupação de que a essência da Maçonaria possa ser deturpada ou perdida. Diríamos nós que ela em verdade se perde em cada irmão que não se mostra digno de tal consideração pela Irmandade. Porém, não é de todo simples pensar em que a Ordem Maçônica possa modernizar-se e, ao mesmo tempo, preservar uma tradição antiqüíssima sem alterações substanciais. E sobre isto trata este texto.

 

 III – O QUE É E COMO É A PÓS-MODERNIDADE?

            A modernidade esteve associada à revolução industrial, à linha de montagem e ao iluminismo, ou seja, à promessa da ciência moderna de libertar a humanidade da miséria, da superstição e das catástrofes naturais, produzindo uma vida de conforto e bem-estar. Porém, o iluminismo desembocou na 1ª e 2ª guerras mundiais, no nazifascismo, no holocausto e nas bombas de Hiroshima e Nagasaki, ou seja, mostrou que não conseguira cumprir suas promessas, tendo transformado um sonho em pesadelo. Da crise de realidade da modernidade surgiu a pós-modernidade.

            Mesmo que muitos vejam a pós-modernidade como uma hipermodernidade, ou seja, como uma etapa da modernidade e não um momento posterior, essencialmente diferente, o que importa é que todos vejam o momento atual como diferenciado do que havia antes, e tentem explicitar estas características. Ajudam a entender a época atual autores como: Michel Maffesoli, Jean Baudrillard, Giles Lipovetsky, Zigmud Bauman, David Harvey, Jameson, George Soros, Domenico De Masi e outros.

            1.      A Globalização:

            A pós-modernidade está associada hoje à globalização, a um estágio da economia em que a informatização, os capitais voláteis e os transportes rápidos, deram uma velocidade inédita aos negócios, criando uma acirrada concorrência mundial por matérias primas, energia, capitais, investimentos, produtos, enfim, por riquezas que, rapidamente trocam de mãos, trazendo insegurança generalizada. Usamos tênis de marca americana made in China, andamos num carro francês fabricado na Argentina, mas cujas peças vieram da Coréia. Escutamos músicas de um país, gravado noutro, e mixado também noutro. Vivemos numa cidade, trabalhamos noutra e tiramos férias numa terceira, viajando rápida e freqüentemente. O poder não mais está centrado no Estado, na nação ou nos partidos políticos, e sim na economia, mas diluído no conjunto de interesses das multinacionais e grandes grupos financeiros, que representam os interesses de milhões de acionistas. Somos afetados pela bolsa mundial, pela crise imobiliária americana e dos bancos europeus. Doenças infecciosas podem correr mundo e nos atingir, o terrorismo virou fenômeno global. Padecemos uma insegurança política, econômica e pessoal.

            Vivemos uma cultura do excesso, do sempre mais e do descartável, das coisas, vontades e sentimentos, intensos e urgentes. É uma sociedade marcada pela velocidade, nela as mudanças ocorrem em um ritmo alucinante, provocando turbulências. Vivemos num mundo de imagens fragmentadas, de estímulos sensoriais vários, captados sem o tempo da reflexão: cinema, televisão, telões, monitores de computadores, telinhas de celulares, i-pods, etc. Correspondemo-nos por e-mails e conversamos através do MSN, vemo-nos através de oceanos, aproximando o distante e distanciando o próximo, porque substituímos o contato direto e as visitas por frias mensagens virtuais. Tudo é banalizado, devido às facilidades de se obter e descartar, e devido ao excesso. Por exemplo, a violência que se repete todos os dias não mais chama a atenção, a miséria que dorme pelas ruas e nos ataca nos semáforos, passar desapercebida. Os jovens estão alienados, não por falta de consciência social, mas por pessimismo, apatia e falta de solidariedade. Eles usam roupas e tênis de marca, sonham em consumir produtos de luxo, mas não possuem um projeto de vida. As identificações de grupo não mais são de classe ou ideológicas, são mais propriamente identificações de tribo, ONG ou gangue. Todas as maravilhas e todas as patologias encontram espaço na Web: nela todo dia ocorrem crimes virtuais, às vezes conectados a crimes do mundo real, como as drogas, a pedofilia, a antropofagia e suicídios coletivos.

            2.      Os Relacionamentos:

            Hoje as pessoas cada vez mais estabelecem uniões sem a formalização do casamento legal ou religioso, se unem e separam com grande facilidade, enfileirando casamentos sucessivos. Todos possuem meio-irmãos e irmãs, filhos de casamentos anteriores, seus ou de seus consortes. Mulheres optam por terem filhos sem marido e casais optam por não terem filhos, e até morarem separados. Aumenta o número de pessoas sozinhas, por opção ou não.

            Com a revolução industrial, a mulher tornou-se operária, trabalhando ao lado de seu homem, enquanto a mulher burguesa foi preservada no lar, à espera do marido, como um objeto de desejo. A mulher em geral passou então a ser definida como um ser passivo, emocional, ligado à natureza, a casa e a família; e o homem passou a ser definido como um ser ativo e racional, gerador de cultura, ao qual corresponde o mundo de fora, da labuta e do Estado. No decorrer do século XIX o belo reino da mulher se transforma numa gaiola. No início do século XX, Freud tira a sexualidade da zona de tabu; nos anos 60 surge a pílula e o amor livre do movimento hippie; a homossexualidade sai do armário com o movimento gay e o movimento feminista passa a denunciar o estupro e a defender o aborto. Hoje há a pílula do dia seguinte, e inúmeros avanços na tecnologia do corpo: cirurgia plástica, silicone, lipoaspiração, bioplastia, e até cirurgia de mudança de sexo. Há uma erotização precoce das meninas, que mais parecem minimulheres. A homossexualidade é assumida já na puberdade, com erotismo explícito em locais públicos. Artistas se declaram bissexuais e é comum erotismo e pornografia na TV. A sexualidade se dilata no tempo, devido aos tratamentos hormonais e ao Viagra e similares. A engenharia genética cria bebês de proveta, pesquisa células-tronco, faz clonagem, enfim, vivemos no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

            As crianças hoje, desde cedo, via Web, entram em contato com outras línguas e realidades, inclusive com conteúdos perigosos, como a pornografia e o crime. Elas preferem comprar brinquedos que brincar. Os jovens vivem hoje uma infância e juventude com educação permissiva, sem limites, devido aos pais ausentes e invisíveis, o que joga no colo dos professores a tarefa de dar limites a quem não respeita autoridade e regras. Com menos autoridade, a educação tornou-se permissiva, o que leva a banalização da violência e das drogas, assim como a uma infantilização tardia, muitas vezes com uma permanência na casa dos pais até mais tarde. A infância se estende até a adolescência, os jovens e muitos adultos são infantilizados: assistem desenho, lêem Harry Potter, não assumem responsabilidades que exijam esforço e sacrifício. Muitos adultos se comportam como adultescentes, se vestem como seus filhos, de quem querem ser “amigos” em vez de pais. Querem dar limite aos filhos, mas eles próprios não se dão limites.

            Vivemos a Era do Ficar, do amor descartável, feito para ser usado e jogado fora, como objeto de consumo.  Os jovens hoje migram de uma festa pra outra, e “ficam” como vários parceiros ou parceiras numa mesma noite. Eles freqüentam raves que podem durar dias, em locais afastados que permitem tudo: drogas, nudez, sexo, contato com a natureza. A Iniciação sexual ocorre precocemente, com alto risco de gravidez, muitas vezes com parceiros menores que apenas “ficaram”, ou seja, nascem crianças de uma sexualidade desvinculada do afeto, para serem criadas sem pai e sem família estruturada.

            As pessoas passam horas na frente do computador, conversando pelo teclado, microfone ou webcam, com pessoas que não conhecem pessoalmente, ou com o irmão que está no quarto ao lado. Os programas de Relacionamento – ICQ, MSN, Jabber, AIM, SKYPE, GTALK, mIRC, Webchats, Soulseek – produzem encontros com pessoas desconhecidas, cujos “avatares” virtuais podem estar idealizadas ou adulteradas, já que não são iguais aos seus originais. As amizades virtuais são medidas em quantidade em vez de qualidade, sendo “normal” alguém ter 700 amigos. Apesar disto, muitos se conhecem e casam através de sites de relacionamento, migrando do virtual ao real. O Second Live é um mundo virtual onde pessoas de todo o planeta se comunicam e interagem livremente. Nele se mistura realidade e virtualidade, pois possui uma moeda própria, que pode ser convertida em dólar real.

            3.      As Relações de Trabalho:

            O sociólogo italiano Domenico De Mais mostra que trabalho era sinônimo de trabalho braçal, e significava esforço e cansaço, portanto, havia no passado uma separação nítida entre trabalho e tempo livre. Só na época rural não era assim, pois o camponês e o artesão viviam no mesmo lugar em que trabalhavam, intercalando tarefas domésticas e outras distrações com o seu trabalho. Mas com a revolução industrial, separou-se o lar do trabalho, a vida das mulheres da vida dos homens, o cansaço da diversão. As mulheres burguesas ficavam em casa esperando seus maridos voltarem do trabalho, e as mulheres proletárias trabalhavam na fábrica e, no retorno às suas casas, continuavam trabalhando. Assim, a indústria tornou o trabalho dominante em relação a família, estudo e tempo livre. Hoje, as atividades cerebrais predominam sobre as manuais, as virtuais sobre as tangíveis, daí que a virtude profissional mais apreciada é a criatividade que, contraditoriamente, não é compatível com a burocracia dos tempos modernos.

            A burocracia foi criada para exercer controle sobre o trabalho, no pressuposto de que as pessoas burlam as regras e tendem a não cumprir suas responsabilidades. Assim, a tradicional relação de subordinação inerente ao trabalho, que exigia disciplina, obediência, lealdade e boa vontade, concedida em troca de segurança no emprego, cedeu lugar a novas relações. Agora colaboração, qualificação e inovação, são mais importantes que lealdade, já que oferecemos nosso conhecimento a uma empresa ou projeto, enquanto nos sentirmos recompensados. Vendemos nossa competência sem preocupação com a perenidade, já que a efemeridade é inerente ao mercado.

            4. As novas mídias:

            Na sociedade pós-moderna está surgindo o “homem de vidro”, ou seja, estamos vivendo cada vez mais o “Big Brother” geral, em que a privacidade está desaparecendo em nome de uma sociedade mais segura. Câmeras nos vigiam em toda parte, o risco e a insegurança aumentam, e os crimes virtuais disparam. Homicídio é a primeira causa da morte de jovens no Brasil, depois acidentes e suicídio. Aumenta a ausência de consciência social e de solidariedade: jovens põem fogo em mendigos, batem em empregadas domésticas, e tudo por uma violência gratuita, sádica e fascista.

            De Masi mostra que, cada vez mais, trabalho, tempo livre e estudo, se tornam uma coisa só, que o trabalho braçal vem sendo substituído pelas máquinas, cabendo ao homem a ação de apertar botões, acionar máquinas e criar, ou seja, atuar intelectualmente, e como gestor.

            O Governo americano está montando um Banco de Dados com todos os cidadãos do país para estender o projeto a todos os cidadãos do planeta. Carros, objetos e pessoas passarão a usar chips de instantânea localização, em SP prisioneiros já usam e está sendo implantado nos automóveis. A TV é interativa, ou seja, não podemos mais esconder o que vemos, consumimos e somos. Todos são egoístas, pensam apenas em seu próprio umbigo, vivemos a era do narcisismo e do hedonismo, em que o que importa é se obter prazer e vantagem em tudo.

 

IV – Os Valores Centrais da Sociedade Pós-Moderna:

            São valores centrais da sociedade pós-moderna, o consumismo e a sedução, não só das pessoas, mas também dos objetos de desejo. Está se dando uma erosão das identidades sociais e das personalidades, um desgaste ideológico e político. Há cada vez mais indivíduos narcisistas, individualistas, consumistas, inseguros diante da obrigatoriedade e multiplicidade de escolhas a serem feitas. As relações se tornaram transitórias e fortuitas, aumentando a fragilidade dos laços sociais, as relações afetivas terminam sem motivo, com um sentimento de superficialidade, vazio e desamor, em que se não suportamos os outros e tampouco suportamos a solidão. Tudo se torna artifício e ilusão, a serviço do lucro capitalista, a moda se torna distinção social e signo de poder. Ninguém é espontâneo, todos são afetados pela publicidade, a autenticidade é forçada e forjada. A rapidez dos acontecimentos e a globalização da mídia e do jornalismo “anestesiam” o ser humano. Investimos em nós e em nosso corpo, mas não afastamos a insegurança da corrida contra o tempo, o medo da velhice e da morte.

            Há um vazio dos sentimentos, e o desmoronamento do idealismo trouxe apenas apatia e comodismo. Todos hoje somos pessimistas, nos sentimos na Era do Vazio, do Mal-Estar e da Insegurança. A perfeição tecnológica obriga à diferenciação pelo design, e à identificação com marcas, símbolos de poder e estilo de vida. Já que não há mais fidelização, cada sonho de consumo supõe um emaranhado de marcas, modelos, acessórios e opcionais. O corpo é extremamente valorizado, os velhos querem parecer jovens, o que faz feliz a indústria estética: cirurgiões plásticos, academias, salões de beleza, clínicas de estética, etc.

 

V – A MAÇONARIA NA PÓS-MODERNIDADE

            Considerando que hoje as pessoas são individualistas, egoístas e pragmáticas, que todos correm atrás da máquina, vivendo um dia-a-dia de stress e muito trabalho, ainda podemos dizer, como Karl Marx, que o homem é o seu trabalho. Como a Maçonaria supõe uma simbologia associada ao trabalho, em princípio ainda há lugar para ela em nossa sociedade. Mas quando pensamos no futuro do trabalho, principalmente a partir da obra de pensadores como Giles Lipovetsky, Domenico De Mais, Mefesoli e Baudrilhard, vemos que a Maçonaria contém uma simbologia que não mais fala ao coração do trabalhador contemporâneo, já que não trata do trabalho intelectual e das relações entre homem e máquina, ou trata do trabalho à distância, por meios virtuais. De outro lado, numa sociedade em que tempo é ouro, ninguém tem tempo, trabalho e ouro para desperdiçar, e ser maçom exige investimento de tempo, dinheiro e dedicação: hoje está valendo a pena isto?

            As pessoas não querem ter compromissos semanais que lhes diminua o tempo livre para sair, beber com amigos, namorar, assistir jogos de futebol ou jogá-lo, fazer um curso de pós-graduação, aperfeiçoamento profissional ou atualização cultural. Muitos preferem atividades gastronômicas ou sexuais, ou até trabalhar mais, em horas extras que rendam dinheiro. Enfiar-se num ambiente fechado, sem mulheres, para ouvir discursos e falas pomposas até altas horas, assistir e participar de uma ritualística complicada, que exige atenção, dinheiro e algumas leituras e tarefas, não parece ser um programa muito atraente.

            Apesar da Maçonaria não ser uma religião, sua estrutura, trajetória e perspectiva pode ser comparada a da Igreja Católica Apostólica Romana. A Igreja é uma instituição milenar que nasceu entre os judeus sob o jugo de Roma, era, portanto, a religião da ralé. Porém, quando o Imperador Constantino se converteu ao cristianismo, a Igreja tornou-se da noite para o dia a religião dos poderosos, a ponto de se confundir com o próprio Império Romano. Foi quando ao se organizar, a Igreja perseguiu as “heresias” e definiu sua doutrina oficial, reinterpretando o cristianismo de Cristo. Na Idade Média, o Papa coroava imperadores e ninguém acordava e respirava sem pensar em Deus e nos dogmas da Igreja, já que esta estabelecia o que as pessoas podiam pensar ou fazer, sob a ameaça do inferno e da fogueira. Em resposta a tais abusos surge a Reforma Luterana. Com o advento do Renascimento, da imprensa, das grandes navegações e da descoberta do Novo Mundo, estava preparado o terreno para a Revolução Copernicana e Francesa, para o advento do Iluminismo e seu racionalismo científico, que desembocaria no capitalismo nascente. Assim, gradativamente, a Igreja foi perdendo terreno, a ponto de se modernizar para não perecer. A Igreja negociou o Estado do Vaticano, veio João XXIII com o Concílio Ecumênico, Paulo VI e suas viagens, e a Igreja aos poucos abole a batina e a missa em latim, dialoga com outras religiões e retoma sua vocação para os pobres. Surgem as CEBs e a Teologia de Libertação, a Pastoral Operária, a Pastoral Indígena, a Pastoral das Mulheres, etc. Entre tal período e hoje, tivemos João Paulo II e agora Bento XVI, o que implicou num retrocesso claro, pois a Igreja optou por ser uma reação conservadora à vida pós-moderna e à globalização. A missa em latim retorna, a Teologia de Libertação e suas pastorais foi desmantelada, a Igreja Católica Apostólica Romana se declara a única Igreja cristã legítima, colocando no lixo a proposta ecumênica. O Papa Bento XVI faz declarações críticas ao Islamismo, criando atritos onde antes havia uma distância respeitosa, o celibato sacerdotal se mantém, enfim, são inúmeros os sintomas de conservadorismo e retorno a uma visão antes superada.

            Do mesmo modo a Maçonaria que, sendo supostamente milenar, por ter suas raízes no Antigo Egito, na Mesopotâmia Antiga e na Terra de Israel da época, atravessou períodos de instabilidade e transformação. A Maçonaria Operativa medieval não é a mesma do período pós-revolução francesa e tampouco é a de hoje.

            Se analisarmos as religiões que ainda crescem em nossa época, vemos que a primeira é a religião dos sem-religião, que inclui materialistas ateus e relativistas religiosos, ou seja, aqueles que vivem a religiosidade individualmente, crendo num Deus e praticando a religião de suas cabeças, muitas vezes uma salada religiosa e de doutrinas nem sempre coerente, e muito próxima do paganismo politeísta, principalmente quando vemos a imensa valorização do corpo e da sexualidade em nossa sociedade. A segunda religião que mais cresce é o islamismo, e dentro dele, cresce o fundamentalismo, o que indica que em parte a pós-modernidade aponta para mudanças ou para reações conservadoras a estas mudanças. Daí que em alguns países da Europa o Livro da Lei no ritual maçônico vem sendo representado pela Bíblia judaico-cristã acrescida de outros livros sagrados, inclusive o Corão. E, em certas Lojas, passou-se a aceitar como irmãos pessoas sem uma identidade e prática religiosa específica, ou seja, ateus ou relativistas religiosos. Cabe portanto perguntar: o que significa ser maçom numa época ateia ou num tempo em que ser religioso adquire novos significados?

            A ritualística maçônica, apesar de bonita e significativa, não se coaduna com uma época em que todos querem tudo rápido e instantâneo, em que a espiritualidade de doutrinas e o ensinamento de mestres e gurus está disponível em livros, na internet e pessoalmente, em inúmeras seitas e religiões orientais e místicas que possuem representantes no ocidente. Se, na antiguidade, ser maçom era ser iniciado nos mistérios, ou seja, era ter acesso elitizado e restrito a conhecimentos esotéricos, próprio das ciências ocultas, como a numerologia, a magia, a cabala, o misticismo cristão, etc, hoje a iniciação nos mistérios não mais é algo restrito à maçonaria e quase inacessível.

            O individualismo e o consumismo materialista exacerbado de nossos dias dificulta uma obra, como a maçônica, que se baseia no trabalho de equipe, no altruísmo, na ajuda mútua solidária, no estudo, numa moral estrita e na crença em valores que hoje estão nitidamente em crise.

            No Ritual maçônico encontramos com ênfase a ideia de liberdade, que pode ser pessoal ou coletiva, conseguida por concessão ou conquista, sem ou com luta. Isto porque a Maçonaria defende o livre pensar, e os demais valores da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. No Capítulo II, artigo 41 da Constituição Maçônica, os direitos listados são: direito de ir e vir; direito de votar e ser votado; direito de julgamento justo; direito de livre crença, opinião e liberdade de expressão. O Liberalismo defendia ainda a propriedade privada e a representatividade através do voto. Já o Democratismo defenderá o sufrágio universal, a ideia do poder como uma delegação do povo, a ênfase no Legislativo e a separação entre os poderes. Ambas as concepções aparecem no cerne do pensamento maçônico.

            Tais são os princípios do Liberalismo, doutrina que na Idade Moderna era revolucionária, mas que em tempos de neoliberalismo é conservadora, apesar de alicerce dos valores da civilização ocidental. Por isto a Maçonaria defende o livre comércio, a criação de blocos econômicos, a abertura das fronteiras, a defesa do Estado de Direito, a liberdade de crença e opinião e a liberdade de imprensa.

            A origem liberal do pensamento da Maçonaria Moderna é compreensível quando lembramos que a passagem da Maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa deu-se em 1717, com a criação da Grande Loja de Londres, que representou o fim do maçom livre na Loja Livre e o surgimento de uma estrutura maçônica escrita. Em 1723, surgiram as Constituições de Anderson (1684 – 1739), que se tornaram a base da Maçonaria Especulativa, com seus landmarks. De-Saguliers foi seu grande propagador, e André Michel Ramsay foi seu renovador, com a introdução do escocismo.

              A Declaração de Independência dos USA, a Revolução Francesa, a Magna Carta inglesa e a independência das repúblicas latinas irão reforçar os valores liberais e a presença maçônica em tais eventos históricos importantes.

              Porém, quando se deu o Golpe de 1964, início do período de ditadura militar no Brasil, a Maçonaria colocou no lixo seu mais caro princípio político-ideológico, o Liberalismo, ao se posicionar a favor do Golpe de 1964 e transformar o coronel, depois general, Golbery de Couto e Silva em seu principal porta-voz. A socióloga Tatiana Almeri demonstra no artigo “Guinada para a Direita: da visão liberal ao conservadorismo” que a Maçonaria foi reprimida em praticamente todos os governos totalitários (URSS, Espanha franquista, Alemanha nazista, Iraque de Sadam Hussein, etc) devido à sua tradição liberal, mas que, ao assumir, durante a ditadura militar no Brasil, uma fisionomia conservadora e autoritária, de extrema direita, ela se colocou em contradição flagrante com tudo que sempre defendeu, e em desabono de sua história de glórias, em defesa das liberdades individuais, de governos laicos, do Estado de direito e da independência do Novo Mundo em relação ao colonialismo. Ao assim agir, a Maçonaria brasileira deixou de ser a defensora dos valores mais caros da civilização ocidental, aproximando-se de uma visão fascista, anti-ocidental e antidemocrática. Assim, a Maçonaria brasileira necessita, hoje mais que nunca, modificar sua imagem frente à sociedade, deixando de lado sua cara conservadora, modernizando-se, sem deixar de resgatar os seus mais caros valores universais.

  VI – COMO MODERNIZAR A MAÇONARIA?  

              A Maçonaria divide-se em Capítulos, Lojas e Potências, mas essencialmente, é descentralizada em suas ações. Para ser mais eficaz necessita articular-se dentro de uma unidade regional ou mundial, o que ela pouco faz. Não há uma Assembléia, Congresso ou Conselho de todas as Potências, inexistem encontros maçônicos internacionais, não há programas de intercâmbio, programas globais pela paz mundial, etc. Vivemos a era da globalização, enquanto a Maçonaria, apesar de ter princípios universalizantes, vive um feudalismo institucional.

          Na política, a Maçonaria mostra-se tímida hoje, frente ao seu passado de brilhantismo liberal revolucionário e republicano. Muitos ingressam na Maçonaria pensando em usufruir influência política para, com padrinhos poderosos, poder influir nas grandes decisões ou vir a ocupar postos-chave ou postos de comando na área pública. Mas a carreira profissional dos maçons cada vez menos depende da Ordem e muito mais do currículo e esforço de cada um, e não do apadrinhamento de chefes ou comandantes. Porém, mesmo sem influenciar diretamente na carreira, o debate político na Maçonaria tem o mérito de ser uma aula de ciência política, ou seja, de funcionar como um exercício de cidadania e de democracia.

            De outro lado, há que ressaltar na Maçonaria o seu caráter de detentora e transmissora da tradição iniciática, ou seja, da Grande Obra, que implica numa experiência que só poderá vivenciar e compreender quem se fizer irmão maçom. Mas tal tarefa de preservação dos tesouros antigos não é incompatível com uma abertura ao novo e aos tempos de pós-modernidade. Assim, podemos dizer que, para se modernizar, a Maçonaria  necessita:

  1. assumir-se como discreta e não secreta;
  2. tornar-se mista, aceitando homens e mulheres;
  3. tornar-se mais jovem, promovendo uma maior participação da juventude em suas      Lojas, evitando ser um lugar de aposentados com tempo livre ou de terceira      idade;
  4. tornar-se menos elitista, promovendo a participação de cidadãos não abastados;
  5. não encarecer financeiramente de modo excessivo o avanço nos graus da Ordem, dificultando o progresso de quem possui parcos recursos financeiros;
  6. cobrar os encargos de Loja de modo progressivo, com desconto aos mais jovens e      menos ricos, e dando isenção de pagamentos a irmãos de baixa renda, como já faz em Portugal;
  7. simplificar seus ritos, de modo a não cansar os participantes deles com rituais desnecessariamente longos e morosos, que dificultam a concentração no significado e na simbologia do que está sendo realizado, desgastando a      ritualística, transformando o prazer em sacrifício;
  8. desburocratizar os procedimentos das sessões, de modo que o cerne dos encontros seja:      estudo, troca de ideias, deliberações conjuntas;
  9. evitar debates desgastantes sobre detalhes ritualísticos acerca dos quais se perdeu o sentido original e que se transformam em disputas de egos;
  10. promover uma maior atuação política e social, sem colorido partidário, mas engajada      e eficiente na defesa de questões éticas, ambientais, ou pela criação e/ou reforma de leis de interesse social, e pela defesa do bem-estar social, e de um Estado menos aparelhado, e mais profissional e eficiente;
  11. incentivar o intercâmbio mundial entre Lojas, Potências e países, quer através da      troca de correspondência (virtual ou documental), quer através de Congressos (como a Europa já faz) ou projetos de parceria e intercâmbio;
  12. incentivar o rodízio permanente de cargos em Lojas, com espaço oferecido aos novos      irmãos, de modo que cada Loja não se transforme em um clube fechado;
  13. criar mais Lojas temáticas: Lojas-Museus, Lojas-Escolas, Lojas-Filantrópicas, Lojas-Temáticas      em defesa de uma causa, Lojas-Experimentais, etc.
  14. repensar o auxílio mútuo em parceria com instituições financeiras, visando ir além da ajuda aos carentes e o socorro em momentos de crise, tornando-o um instrumento de construção real do progresso igualitário de todos os irmãos, incluindo o financiamento da: educação superior, casa própria, casamento, negócio      próprio, viagens de intercâmbio maçônico, etc.
  15. regrar as relações entre os irmão fora de Loja, de modo a que elas sejam regidas      por princípios éticos e de compromisso fraterno;
  16. Debater ideias filosóficas e maçônicas, por mais radicais e estapafúrdias que pareçam, como as que apresento, de modo a atualizar permanentemente a Maçonaria, modernizando-a e homogeneizando-a, numa compreensão convergente aos seus princípios.

2 Comments

  1. Alessandro M. Kralik

    Boa tarde, Sr. Antonio Henriques. Muito interessante a sua reflexão sobre a maçonaria e a pós modernidade. Gostaria de saber se estás filiado a alguma loja maçônica? TFA

  2. henriques

    Atualmente não. Abraço

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