A Civilização Ocidental frente à Pós-Modernidade: uma análise de valores

(Publicado em 2013) INTRODUÇÃO

O conceito de civilização, segundo Toynbee, diz respeito às sociedades que atingiram um grau de desenvolvimento econômico e cultural que as tornou complexas, isto é, compostas de classes sociais, dentre as quais algumas não estão diretamente envolvidas com a produção de alimentos. Civilizados são os povos que possuem classes sociais parasitas, ou seja, grupos sociais que consomem e não produzem (comem sem plantar, criar ou colher), em geral compostas de soldados, religiosos e administradores. E, além disto, possuem uma cultura rica e diversificada, que supõe alguma forma de escrita, arquitetura, religião e arte. Tal conceito não é garantidor de consensos, o que torna polêmicas algumas sociedades consideradas por alguns como civilizações, tais como a civilização africana e a latino-americana. Entretanto, há consenso de que os povos que habitam a Europa e as Américas integram e são herdeiros do que chamamos de civilização ocidental. E, mesmo para aqueles que aceitam o conceito de uma civilização latino-americana, incorporando valores indígenas à civilização ocidental, o fazem pensando mais nos países latinos em que os indígenas chegaram a constituir civilizações (como as Inca, Asteca e Maya), tornando-se a maioria de certas populações nacionais, o que deixa o Brasil de fora. Assim, não será tratado aqui acerca da cultura brasileira e de suas especificidades, mas apenas daqueles aspectos que nos inserem na civilização ocidental. A civilização ocidental fundamenta-se numa herança quádrupla: somos oriundos da tradição judaico-cristã e da cultura greco-romana. Entretanto, com o Iluminismo e o Humanismo acrescentamos a esta herança o cientificismo, o Liberalismo, a República laica e o capitalismo moderno, desembocando nas democracias ocidentais e na economia globalizada. Porém, como nenhuma civilização é uma tradição congelada no tempo, e todas as sociedades se transformam e são transformadas, nem mesmo a civilização ocidental pode ser vista como um todo homogêneo e imutável. A nossa civilização tem se transformado no tempo, cada idade histórica (Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Contemporaneidade) tem incorporado a ela novos valores e características, e extinguido ou modificado valores mais antigos e originários. Hoje vivemos a pós-modernidade ou a hipermodernidade, não importa o conceito usado, já que mesmo pensando na hipermodernidade como continuação (em vez de superação) da modernidade, tratamos de um período de tempo em que as coisas são, pelo menos superficialmente, diferentes. Ou se são iguais, o são num outro ritmo e sentido, em suma, são diferentes, independentemente do nome que se dê. A pós-modernidade surgiu como o desenvolvimento da civilização ocidental (judaico-cristã, grego-romana, democrática e capitalista) e consequência do progresso extraordinário da tecnologia, em especial os avanços na automação, no processamento das informações e na comunicação. Daí que, assim como o cientificismo, o liberalismo e o Estado Republicano e laico produziram as democracias modernas, e o capitalismo produziu a revolução industrial, a pós-modernidade produziu a revolução tecnológica eletroeletrônica e o mundo cibernético do big brother geral. Em outras palavras, a civilização ocidental foi acrescentando à sua estrutura original novos revestimentos, camadas sobrepostas de novas características, que reforçam, alteram, suprimem ou invertem aquilo que a caracterizava. Portanto, de modo a melhor explicitar tais mudanças e transformações, este artigo tratará de expor os valores de nossa civilização ocidental, confrontando-os com os valores de nossa sociedade pós-moderna, neocapitalista e pós-industrial. O que perdura de nossas bases civilizacionais ocidentais? Que mudanças ocorreram em nossos valores? Que valores novos surgiram com a pós-modernidade? Os valores da civilização ocidental realmente estão em crise? Que valores da civilização ocidental ainda estão vigentes? Quão a pós-modernidade modificou a civilização ocidental? Enfim: qual seria a axiologia da pós-modernidade frente aos valores de nossa civilização ocidental?

1.     CRISE, DECADÊNCIA OU TRANSFORMAÇÃO?

Há autores, como Niall Ferguson, que citam a decadência do “império americano”, ou como Toynbee, que tratam do colapso e da desintegração de civilizações. Isto em parte é inadequado, porque uma crise de valores não implica, necessariamente, num colapso, derrocada, desintegração ou decadência: 1° colapso supõe uma civilização que entra em falência, deixa de funcionar, se extingue, o que claramente não é o caso da civilização ocidental; 2° derrocada seria se a civilização ocidental tivesse sido derrotada por outra, e também não se trata disto. Pelo contrário, a civilização ocidental domina cultural e militarmente quase todas as outras, e o enfraquecimento de seus valores de certa forma é uma emanação dela própria, sua crise é interna; 3° desintegração supõe desagregação, desunião, separação, enquanto a civilização ocidental vive a união européia e o Nafta, ou seja, uma relativa unidade política e ideológica; 4° decadência tampouco se aplica, porque supõe a noção de mudança para pior, descida a um patamar inferior, enfim, a perda de virtudes. Implica também em algo gradual e cíclico, e a crise dos valores ocidentais não é uma fase cíclica, e tampouco ocorreu aos poucos. Deu-se nela mudanças bruscas, a partir de eventos imprevistos, como o 11 de setembro, o desmantelamento da ex-URSS, a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha. Assim, este artigo, ao tratar dos valores da civilização ocidental frente à pós-modernidade, usará os conceitos de mudança e transformação, restando investigar se tais alterações se deram como um processo natural e/ou implicam numa crise. Em outras palavras, há valores da civilização ocidental que se modificaram na passagem da sociedade moderna à pós-moderna ou hipermoderna (sem entrar aqui na discussão destes conceitos), cabendo analisar tais mudanças e seus significados. Mas, de início entenderemos que tais mudanças não se deram exclusivamente neste período, a civilização ocidental vem transformando seus valores desde os antigos hebreus e gregos até os dias atuais. E as mudanças ocorridas na fase pós-moderna da sociedade ocidental não implicam, necessariamente, na ideia de piora, já que não há um parâmetro que sirva de ideal ou referencia. E mesmo coisas de cunho negativo, não possuem a negatividade de modo exclusivo, pelo contrário, em geral lida-se com aspectos que podem ser vistos simultaneamente como virtudes e defeitos.

2.     A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL E SEUS VALORES

A civilização ocidental, de base greco-romana e judaico-cristã, acrescida de iluminismo laico e liberalismo, hoje está em crise. Os pilares da tradição judaica de respeito à lei e à tradição ruíram. O amor cristão e a fé na salvação do Cristo pouco falam aos corações humanos. A noção de alma imortal e do homem como um ser racional não mais convencem. O Liberalismo, com seus ideais de cidadania, igualdade, liberdade e democracia, não possui mais força e vigor. A injustiça reina, o respeito aos direitos humanos virou discurso vazio, o Estado transformou-se em espetáculo midiático, os partidos políticos e sindicatos perderam força, a liberdade foi trocada por segurança, a igualdade socioeconômica foi substituída pela tribo cultural, feita de ícones, estilos e marcas. Enfim, restou o materialismo capitalista, o consumismo desenfreado, e a defesa de um mundo de competitividade individualista, em que o prêmio é ter sucesso, ser feliz e possuir o que ostentar. Daí que, para melhor entendermos o que mudou de nossa herança civilizatória ocidental, cabe tratar de seus valores, ou seja, do que nos foi legado:

2.1. Valores gregos e romanos

A cultura grega lançou as bases da civilização ocidental, ao nos legar de um lado a busca racional do saber, como questionamento do mundo, através da tradição socrática, cética e platônica. Tal racionalidade, que tinha o saber como ideal superior, fundamentará a democracia moderna e o secularismo na política (vida pública). De outro lado, por linha aristotélica, a cultura grega nos legou o primado da observação da natureza e da experiência, além de sua matematização, que resultariam, a partir de Pitágoras, Aristarco, Erastóstenes, Arquimedes e Demócrito, na ciência moderna. As olimpíadas gregas nos legaram a competitividade individualista, enriquecida pelo desejo de felicidade, oriundo do hedonismo epicurista, enquanto a arte grega nos dará um homem pós-moderno que quer beleza em si, nos objetos e pessoas. Já os romanos, vitoriosos militarmente sobre os gregos, mas derrotados pela cultura helenística, verdadeiramente herdeiros de Alexandre Magno, nos legariam a noção de império, ou seja, de uma civilização a ser exportada e imposta com autoridade através de guerras, saques e acordos, visando à Pax Romana, feita de tributos pagos pelos fracos em troca da “proteção” do mais forte. E este império aprofundaria a noção grega de vida urbana, de onde derivou a gestão pública, a autonomia privada, a lei escrita, o direito romano e a República, desembocando no conceito moderno de cidadania, e no que viria a ser, séculos depois, o individualismo pós-moderno. A pós-modernidade herdou do paganismo greco-romano a privatização da religiosidade e o relativismo religioso, o erotismo licencioso e o primado da sexualidade hétero e homo, assim como o ideal de saúde física e mental, calcada na prática dos esportes e no ócio criativo.

2.2. Valores judaicos

A tradição judaica fez com que o povo hebreu preservasse sua cultura intacta por quase dois milênios, impedindo sua dissolução por assimilação a outras culturas. O fato da religião judaica estar associada ao povo hebreu, e serem considerados judeus os descendentes de mãe judia, fez com que os casamentos se dessem entre pares. Como o judaísmo dá ênfase à obediência estrita da Lei Judaica (Torah), fez com que houvesse um comportamento padrão reproduzido através de gerações. E como os judeus foram discriminados, segregados e reprimidos, a ponto do holocausto, não lograram sobreviver da produção agrícola devido aos impedimentos de posse de terras, e foram obrigados a se especializarem, em grande parte, na atividade comercial e financeira. Daí o vínculo natural do judeu à classe burguesa, contribuindo para o surgimento e desenvolvimento da sociedade industrial capitalista.  

2.3. Valores cristãos

O cristianismo, que nasceu no seio do judaísmo, disseminou-se entre os gentios, e plasmou a Idade Média, que manteve subterrânea a cultura clássica, e legou à civilização ocidental o amor cristão e a caridade que resultariam no humanismo e no socialismo materialista, filho da solidariedade e da exaltação da pobreza presentes no Evangelho cristão. Do cristianismo também herdamos a noção de pecado e culpa, ou seja, a repressão sexual e preconceitos que resultariam na consciência infeliz e no niilismo pessimista do pensamento contemporâneo, via Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche.

2.4.  Valores iluministas

Foi no Iluminismo que, a todos os valores acima citados, a civilização ocidental acrescentaria o método científico como critério de verdade e o saber como razão instrumental, ou seja, o progresso técnico e econômico através do domínio da natureza. Isto levaria ao secularismo e ao abandono da fé como referencial social e de poder, produzindo a noção de liberdade individual, cidadania e Estado de Direito, ou seja, a democracia como modelo basilar e universal. Entretanto, tal progresso científico produziria duas guerras mundiais, a guerra fria e os arsenais nucleares, criando desconfiança e pessimismo diante da modernidade. E, do embate entre capitalismo e comunismo, veríamos de um lado, na globalização, o marxismo chinês produzir uma terrível exploração de mão de obra. E de outro lado teremos um modelo neoliberal injusto, concentrador de renda e insensível às demandas sociais e às minorias desfavorecidas, produtor de bolhas especulativas e crises cíclicas na economia mundial, penalizadoras apenas dos mais pobres. Entre um modelo e outro a social democracia européia produziu o Estado de Bem-Estar social, hoje em crise frente à globalização da economia, já que as empresas que pagam altos impostos e salários perdem competitividade e quebram, ou migram para locais que ofereçam custos mais baixos. Para onde ir?  

3.    O QUE É E COMO É A PÓS-MODERNIDADE?

3.1. A Modernidade

A modernidade esteve associada ao Iluminismo e à revolução industrial, ou seja, a ciência moderna prometeu libertar a humanidade da miséria, da superstição religiosa e das catástrofes naturais, produzindo uma vida de conforto e bem-estar. As trevas medievais foram substituídas pelas luzes da racionalidade, a religião pela ciência, a Monarquia pela República, o poder político e papal pelas liberdades individuais do Liberalismo. A alquimia deu lugar à química, a astrologia à astronomia, a bruxaria à medicina, e a física clássica faria surgir a energia elétrica, as máquinas da revolução industrial e a indústria petroquímica. As locomotivas, os navios a vapor, os balões, os aviões, os automóveis, os motores elétricos e a explosão, a luz elétrica, enfim, tudo era indício de um mundo novo, belo e maravilhoso. Porém, o Iluminismo desembocaria na 1ª e 2ª guerras mundiais, no nazifascismo, no holocausto e nas bombas de Hiroshima e Nagasaki, ou seja, mostrou que não conseguira cumprir suas promessas, transformando o que era sonho em pesadelo. Da Revolução Russa e da 2ª guerra emergeria um mundo polarizado entre duas potências políticas, econômicas e militares: viveríamos a guerra fria, a ameaça permanente de uma 3ª guerra mundial e de um holocausto nuclear. Assim, passamos a ter um pé atrás, a desconfiar do progresso tecnológico, produzindo a crise da modernidade, da qual surgiria a pós-modernidade.

3.2. A Pós-Modernidade

A pós-modernidade está associada hoje à globalização, a um estágio da economia em que a informatização, os capitais voláteis e os transportes rápidos, deram uma velocidade inédita aos negócios, criando uma acirrada concorrência mundial por matérias-primas, energia, capitais, investimentos, produtos, enfim, por riquezas que rapidamente trocam de mãos, trazendo insegurança generalizada. Na sociedade pós-moderna está surgindo o “homem de vidro”, ou seja, estamos vivendo cada vez mais o Big Brother geral, em que a privacidade está desaparecendo em nome de uma sociedade mais segura. Câmeras nos vigiam em toda parte, o risco e a insegurança aumentam, e os crimes virtuais disparam. Homicídio é a primeira causa da morte de jovens no Brasil, depois acidentes e suicídio. Aumenta a ausência de consciência social e de solidariedade: jovens põem fogo em mendigos, batem em empregadas domésticas, praticam bulling e uma violência gratuita e sádica. Na Web encontramos todas as patologias: crimes virtuais, conectados ou não a crimes reais, drogas, pedofilia, antropofagia, suicídios coletivos. O Governo americano pretende montar um banco de dados com indivíduos de todo o planeta. Carros, objetos e pessoas passarão a usar chips de instantânea localização, em SP prisioneiros já usam e está sendo implantado nos automóveis. A TV é interativa, ou seja, não podemos mais esconder o que vemos, consumimos e somos. Hoje todos nós somos egoístas, pensamos apenas em nosso próprio umbigo, vivemos a era do narcisismo e do hedonismo, em que o que importa é se obter prazer e vantagem em tudo. Neste mundo pós-moderno se destacam as tecnologias de informação e comunicação: computadores pessoais, notebooks, netbooks, ipods, ipads, smartphones, telas interativas 3D. Além disto, é claro, se destacam os softwares que revolucionaram o nosso dia a dia: sites de busca, como google, e de relacionamento, como facebook, msn e skype. Vivemos num mundo de imagens fragmentadas, de estímulos sensoriais vários, captados sem o tempo da reflexão, é o cinema digital de ultradefinição, a tv interativa, os filmes postados no you-tube, enfim, é um mundo multimídia, conectado em rede global. Filmes de ficção como “2001, uma Odisseia no Espaço”, “Inteligência Artificial”, “Exterminador do Futuro”, “Eu Robô”, “Matrix” e “Avatar”, tratam de uma visão negativa da tecnologia, vilã, agente do mal, lembrando os filmes de horror japoneses posteriores à 2ª guerra mundial, que faziam alusão sutil ao horror nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Ajudam a entender a época atual autores como: Michel Maffesoli, Jean Baudrillard, Giles Lipovetsky, Zigmud Bauman, David Harvey, Jameson, George Soros, Domenico De Masi e outros. Muitos deles hoje vêem a pós-modernidade não como um período posterior à modernidade e diferente desta, mas como uma etapa da própria modernidade, não essencialmente diferente dela. Lipovetsky preferirá chamar a pós-modernidade de hipermodernidade, Domenico De Masi usará o termo turbocapitalismo, ou seja, verão a etapa pós-moderna como uma modernidade acelerada e radicalizada, fruto de um mundo globalizado e centrado no consumismo. Vivemos uma cultura do excesso, do sempre mais e do descartável, das coisas, vontades e sentimentos, intensos e urgentes. Somos marcados pela falta de tempo e pela velocidade, as mudanças ocorrem em um ritmo alucinante, provocando turbulências. Tudo é banalizado, devido às facilidades de se obter e descartar, e devido ao excesso. A violência e a miséria não mais chamam a atenção e passam desapercebidas. As identificações de grupo não mais são de classe ou ideológicas, são mais propriamente identificações de tribo, ONG ou gangue. Mas, independentemente de chamarmos os tempos atuais de pós-modernidade ou hipermodernidade, ou outro nome, o que importa é que todos vejam o presente estágio de desenvolvimento econômico e tecnológico do mundo desenvolvido e em desenvolvimento como diferente do que havia antes, e tentem explicitar estas características. Ao analisarmos as diferenças, vemos que algumas são fortes e marcam uma mudança fundamental de valores. Por exemplo, o olhar contemporâneo é pessimista, diversamente do otimismo moderno, cria o novo sem destruir o velho, ao contrário da modernidade, vive uma crise de identidade e de fraqueza das instituições basilares do passado. Hoje, Igreja, as forças armadas, os partidos políticos e outras autoridades não mais são respeitados: a Igreja responde por pedofilia, os políticos são vistos como corruptos, e os militares respondem por atos de violação dos direitos humanos. O poder não mais está centrado no Estado ou nos partidos políticos, e sim na economia, na qual confluem interesses de multinacionais, grandes grupos financeiros e milhões de acionistas. Somos afetados pela bolsa mundial, pela crise imobiliária americana, pela crise dos bancos europeus e da União Européia, enfim, vivemos na insegurança econômica, política e pessoal. As pessoas passam horas na frente do computador, conversando e vendo, pela webcamera, pessoas que não conhecem pessoalmente ou o irmão que está no quarto ao lado. As amizades virtuais são medidas em quantidade em vez de qualidade. Os programas de relacionamento produzem encontros com pessoas desconhecidas, cujos “avatares” virtuais podem estar idealizadas ou adulteradas, já que não são iguais aos seus originais. O trabalho braçal vem sendo substituído pelas máquinas, cabendo ao homem a ação de apertar botões, acionar máquinas e criar, ou seja, atuar intelectualmente, e como gestor. O sociólogo italiano Domenico De Masi afirma que a burocracia foi criada para exercer controle sobre o trabalho, no pressuposto de que as pessoas burlam as regras e tendem a não cumprir suas responsabilidades. Assim, a tradicional relação de subordinação inerente ao trabalho, que exigia disciplina, obediência, lealdade e boa vontade, concedida em troca de segurança no emprego, cedeu lugar a novas relações. Agora colaboração, qualificação e inovação, são mais importantes que lealdade, já que oferecemos nosso conhecimento a uma empresa ou projeto enquanto nos sentirmos recompensados, pois não temos preocupação com a perenidade, já que a efemeridade é inerente ao mercado.

4.     VALORES NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA: o que permanece e o que mudou?

São valores centrais da sociedade pós-moderna, o capitalismo globalizado, expresso como consumismo, tomado como critério de felicidade e bem-estar. Somos seduzidos, não só por pessoas, mas também por objetos de desejo. Há cada vez mais indivíduos narcisistas, individualistas, consumistas, inseguros diante da obrigatoriedade e multiplicidade de escolhas a serem feitas. As relações se tornaram transitórias e fortuitas, aumentando a fragilidade dos laços sociais. As relações afetivas frequentemente terminam sem motivo, e deixam um sentimento de superficialidade, vazio e desamor. Tudo se torna artifício e ilusão, a serviço do lucro capitalista. A moda se torna distinção social e signo de poder, ninguém é espontâneo, todos são afetados pela publicidade, a autenticidade é forçada e forjada. Está se dando uma erosão das identidades sociais e das personalidades, um desgaste ideológico e político. A rapidez dos acontecimentos e a globalização da mídia e do jornalismo “anestesiam” o ser humano. Investimos em nós e em nosso corpo, mas não afastamos a insegurança da corrida contra o tempo, o medo da velhice e da morte. Há um vazio dos sentimentos, e o desmoronamento do idealismo trouxe apenas apatia e comodismo. Os autores pós-modernos são todos pessimistas. Giles Lipovetsky trata da decepção e da Era do Vazio, Zigmund Baumann do mal-estar e George Soros da insegurança. A perfeição tecnológica obriga à diferenciação pelo design, e à identificação com marcas, símbolos de poder e estilo de vida. Já que não há mais fidelização, cada sonho de consumo supõe um emaranhado de marcas, modelos, acessórios e opcionais. O corpo é extremamente valorizado, os velhos querem parecer jovens, o que faz feliz a indústria estética: cirurgiões plásticos, academias, salões de beleza, clínicas de estética, etc. Os conflitos ideológicos foram em grande parte substituídos pelos embates e diferenças étnicas, culturais e de civilização. A política transformou-se em mídia, marketing e gerenciamento administrativo. A cultura transformou-se em indústria de lazer, a cultura de massa vem sendo substituída pela cultura de nichos e pelo tribalismo. Daí a pergunta: vivemos o tribalismo, o individualismo egoísta, hedonista e narcisista, ou ambos? Michel Maffesoli, em sua obra – O Tempo das Tribos – trata da decadência do individualismo frente ao tribalismo, do surgimento de redes de microgrupos, onde as relações se aprofundaram. Mas isto significa que, mesmo considerando o crescimento do voluntariado altruísta, defendendo as mais diferentes causas e grupos sociais e seus marginais, no global predomina uma atitude egoísta, plasmada pelo consumismo capitalista pós-moderno e pela vida turbinada, onde todos têm de dar conta de suas tarefas e coisas, sem tempo a perder com os outros, onde todos buscam viver a vida na plenitude do bem-estar possível, sem disposição de fazer sacrifícios pelos outros. Ao analisarmos o conjunto de características e valores da civilização ocidental, incluindo suas origens greco-romanas e judaico-cristãs, acrescidas da contribuição do Liberalismo, vemos que o que mais está desaparecendo são os valores judaico-cristãos. Vivemos uma espécie de Novo Renascimento, não um retorno ao clássico, mas uma nova volta ao paganismo e seus valores. A sociedade pós-moderna vive um hedonismo epicurista, o culto à beleza e ao corpo físico (masculino e feminino); as pessoas nela vivem uma religiosidade individualizada, reduzida a crenças pessoais, e politeísta, considerando-se que sua prática cada vez mais se restringe ao ambiente privado. Nossa época dá ênfase à prática dos esportes, e dá ênfase ao saber, não mais o global da filosofia, mas o especializado de cada área da ciência. Preservamos também nossa herança Iluminista, feita de saber-instrumental, ou seja, de tecnologia aplicada ao dia-a-dia. Nosso comportamento foi alterado substancialmente pela novas tecnologias de comunicação e informação. Vivemos o tempo do virtual, dos jovens permanentemente conectados na web, grudados em seus aparelhos eletrônicos, plenos de imagens e sons, e carentes da palavra escrita de cunho acadêmico ou erudito. Apesar do uso extraordinário que a ciência e o saber fazem hoje das novas tecnologias, no geral elas são usadas mais para a comunicação e a sociabilidade, ou seja, para informações que alimentam mais a curiosidade e o sensacionalismo que a busca autêntica de avanços de conhecimento. Mantivemos também do Iluminismo seu desdobramento natural, que é a democracia moderna. Apesar de termos transformado o Estado em espetáculo, a política em negócio, e os governantes em gerentes da coisa pública, gestores em busca de eficiência e eficácia, de alguma forma tivemos avanços, principalmente no da participação popular, nos direitos individuais e coletivos e nas práticas de justiça. Entretanto, nossa herança judaico-cristã está sendo esquecida e abandonada. O amor foi substituído pelo sexo pragmático e pelo casamento de conveniência, só que agora não mais um contrato feito pela família, e sim pelos próprios cônjuges. A solidariedade deu lugar a uma caridade de voluntariado, mais voltada a preencher o vazio existencial de burgueses que só viveram em busca da ampliação de seu capital, ostentando o consumismo desenfreado e a abundância que desperdiça. E a Lei religiosa não mais é levada em consideração, exceto pelos grupos minoritários fundamentalistas que vivem na contramão das novas tendências. A tradição tende a desaparecer, cada vez mais teremos muçulmanos que bebem álcool, judeus que comem carne de porco e cristãos que praticam sexo fora do casamento. As instituições vêm perdendo respeitabilidade e influência, os novos valores supõem um esvaziamento de muitos dos velhos valores. Diz-se que a pós-modernidade é o novo que preserva o velho, ao contrário da modernidade que destrói o que havia para edificar o novo em seu lugar. Mas no caso dos valores da civilização ocidental, muitos deles estão sendo literalmente destruídos, restando pouco deste “velho” para ser preservado ou incorporado ao novo.

Referencias Bibliográficas:  

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  9. MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa.Ed. Forense Universitária, Rio, 2010.
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